Redesenhar Macau

Candeeiros, bancos, rádios, veículos. E ainda edifícios para uma cidade de um futuro próximo. Os alunos da Universidade de São José inauguraram ontem uma exposição no Centro de Indústrias Criativas onde o design é a palavra de ordem.

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

Como podem os estudantes de arquitectura e design contribuir para o desenvolvimento da sociedade onde vivem? Foi com esta questão em mente que os alunos da Universidade de São José criaram “Visão e Protótipos”, uma exposição que ontem inaugurou no Centro de Indústrias Criativas.

A mostra resulta de uma selecção de trabalhos de estúdio produzidos durante o ano académico 2011-2012 e, segundo a universidade, “sintetiza uma abordagem holística e intensa do processo-base de aprendizagem”.

De um lado da sala, edifícios para uma cidade do futuro, mas que poderia já hoje melhorar a qualidade de vida dos habitantes. Há protótipos de abrigos para serem colocados nos trilhos de Coloane, dotados de condições básicas para caminhantes. Há projectos arquitectónicos para habitação social amiga do ambiente – um edifício “rotativo”, com espaço para mais de mil pessoas. Há modelos de bibliotecas, de vidro, amplas, com lojas.

Mas o que chama mais a atenção deste lado da exposição são os modelos para casas de apoio a sem-abrigo. Os estudantes apresentaram propostas inovadoras para integrar num espaço livre da cidade, entre a Rua Cinco de Outubro e o Porto Interior. Devido ao desenho do terreno, o edifício teria de ser triangular, abrangendo três ruas: Rua do Coronel Ferreira, Rua Nova do Comércio e Rua do Guimarães. Este abrigo para os que não têm casa poderia acolher um mínimo de 40 pessoas e ofereceria cama, comida, chuveiros e acesso a cuidados de saúde básicos.

Do lado esquerdo da sala, onde ontem foram premiadas as melhores criações, estão os objectos de design. O desafio era recriar: o banquinho doméstico, o rádio de mesa, os candeeiros de trabalho. Para que se tornem mais multiusos e amigos do design moderno e do ambiente.

Para rematar, modelos de veículos eléctricos e pequenos, uns para uso público outros para privado, alinham-se junto à janela. O vencedor desta categoria, “Leaf Link System”, da autoria de Mariana Inácio, tem como objectivo integrar-se numa cidade onde já existe o Metro Ligeiro e propõe-se a ligar as paragens do metro às zonas interiores da cidade.

“Visão e Protótipos” vai estar no Centro de Indústrias Criativas até dia 9 de Junho.

Leave a Comment

Filed under Uncategorized

Uma deusa moderna

Tudo na vida é uma questão de perspectiva. Aquela coisa do copo meio vazio ou meio cheio; a vida que se vê com óculos cor-de-rosa ou cinzentos; o fazer das fraquezas forças ou vice-versa. Tudo depende. De nós, dos outros ou dos deuses.

O divino em Macau é o que se quer. Pode estar num pauzinho de incenso ou na forma como organizamos a mesa da cozinha. O divino mora na Sé, nos templos, na rua. O divino passa a vida a deitar a língua de fora ao profano, dorme com ele, faz-se de difícil mas no fundo gosta.

E eu, como amante das divindades pouco ortodoxas deste fascinante pedaço de terra, não podia contornar todo aquele dourado. Restaurado ainda por cima. E brindado do mais sagrado dos locais: um cafezinho. Dêem-me um café e uma deusa e sou feliz. À beira-rio, então, ui, ui.

Por baixo da estátua, uma flor de lótus tão RAEM. A gente entra, olha para um, dois, três, quatro funcionários que nos sorriem, “jou san, jou san”, “hello, hello” e mesmo que não haja muito para ver o ar condicionado é agradável e o espaço também. Muito ecuménico, sim senhor. No andar de baixo vemos a deusa peça a peça a ser erguida. Fotografias com governadores de outros tempos, gesso, madeira e tinta. Afeiçoamo-nos mais a ela, a nossa Kun Iam dourada.

À saída cheira ao fumo contemporâneo desta cidade do turismo e do lazer. Nada temam, no entanto, os receosos das partículas suspensas. Kun Iam, a deusa da compaixão, ergue-se ali a 20 metros do chão, e observa-nos. As deusas, bem se sabe, tendem a olhar o mar, protectoras dos navegantes e das almas perdidas. Mas esta não. Sabe bem que isto é terra de tentações, de pouca-vergonha, de espíritos corrompidos – nós por cá precisamos de toda a ajuda possível e não nos podemos dar ao luxo de ter deusas que viram as costas ao asfalto.

Por isso olha-nos dali, junto ao indiano do NAPE, pertinho do Centro Cultural e ainda mais do Centro de Ciência – o triângulo das Bermudas de Macau. Estrategicamente posicionada para não tocar nos casinos – esses antros! – mas de forma a manter os olhos neles.

Quanto à água que por ali se estende em lençol, é castanha e sem navegadores. Assim como assim, dali não sai nada, só aragem. E uma deusa tem de saber modernizar-se.

Inês Santinhos Gonçalves

Leave a Comment

Filed under Uncategorized

“O macaense sabe estar em palco”

Sátira, humor e muita lata. Esta é a fórmula de sucesso dos Dóci Papiáçam di Macau, que fazem rir o público de Macau há 19 anos. Tempo suficiente, lembra Miguel Senna Fernandes, para que o grupo reclame mais apoios do Instituto Cultural. Até porque, acrescenta, o teatro em patuá está nomeado para património intangível.

 

Pedro Galinha

 

Quando os ponteiros dos relógios marcarem hoje as 20h, os Dóci Papiáçam di Macau sobem ao palco do Centro Cultural para estrear “Aqui tem Diabo! – Crónicas dos Bons Espíritos”. A peça, retrato mordaz da sociedade actual, terá uma segunda apresentação amanhã, à mesma hora e no mesmo local.

Antes de nos sentarmos à conversa com Miguel Senna Fernandes, co-fundador do grupo de teatro em patuá, questionámos o Instituto Cultural (IC) sobre os planos que existem para promover a língua maquista. A resposta, simples como a pergunta, conta apenas com duas referências directas ao assunto.

Em primeiro lugar, o IC recorda que dá a oportunidade ao colectivo de apresentar peças no Festival de Artes de Macau. Este apoio, adianta o organismo do Governo, traduz-se no reforço de duas vertentes: a “popularidade da língua” e a sua “orientação artística”.

No segundo esclarecimento também não se antevêem novidades maiores, já que o instituto liderado por Guilherme Ung Vai Meng apenas acrescenta que o teatro em patuá é um dos quatro candidatos de Macau a património intangível.

A partir do documento enviado ao PARÁGRAFO, Senna Fernandes desatou a falar do futuro do patuá, sempre de olho no passado e no presente. Entre argumentos, ideias e recordações, ficaram duas certezas: os Dóci Papiáçam di Macau têm um projecto em mente e garantem que o espírito do grupo jamais vai mudar.

 

- Os planos apresentados pelo Instituto Cultural sobre o patuá merecem-lhe que comentário?

Miguel Senna Fernandes – É difícil comentar porque não são planos. Nada se diz de novo sobre o teatro em patuá, por isso esperamos para ver, com alguma expectativa, porque compreendo que não é uma matéria fácil. A abordagem da língua exige uma apreciação diferente, até porque o material disponível para fazer isso não é numeroso. Oxalá que as hesitações que existem sejam provocadas por aquilo que penso. A partir de agora, o Instituto Cultural não pode apenas limitar-se a apoiar o teatro de patuá através da oportunidade que nos dá para participarmos no Festival de Artes. Claro que ficamos sempre muito agradecidos. Sem este apoio não faríamos um espectáculo do género. Mas com o estatuto de património intangível exige-se mais qualquer coisa. Naturalmente, vamos ter de conversar. É importante que a defesa do património passe pelo Governo, mas nada impede que a sociedade civil, que é o nosso caso, impulsione e sugira o que vai fazer.

- Quando pensam avançar para um encontro?

M.S.F. – Logo depois do Festival de Artes agendaremos um encontro com o Instituto Cultural. Não houve sequer conversas informais sobre isto, mas é um encontro inevitável. Esperamos abertura às propostas que temos em mãos, a não ser que o instituto tenha uma visão, um plano sobre isto. O teatro de patuá exige mais.

- Que propostas são essas que têm em mãos?

M.S.F. – Em primeiro lugar, formação técnica para os actores. Sei que em Macau há muita gente a fazer teatro, mas a técnica pode não ser a melhor. Teremos de providenciar formação para quem está em palco. Seria uma formação orientada para o teatro em patuá. O teatro maquista tem as suas características muito próprias, como a comédia. Não digo que seja necessário uma preparação para isto. O que digo é que é preciso e iremos encontrar estas pessoas.

- Esta procura passará por vós ou contam com o Instituto Cultural?

M.S.F. – Isso é o que vamos ver. São pontos de interrogação e estamos a falar apenas em jeito de sugestão. Não há nada de concreto porque temos de ver o que nos oferecem em termos de alternativa. Entre nós, no seio do grupo, temos discutido que a formação em teatro é uma questão básica. A concepção do teatro de patuá já exige mais do que a carolice, que é o motor, e a paixão. Entrámos numa fase em que o público não vai aos espectáculos com um sentimento de perdão para com os amadores.

- Já sente que exigem maior profissionalismo?

M.S.F. – Sobe de ano para ano porque o público exige cada vez mais. Precisamos de formação não só a nível cénico, como também de encenação. Até agora tenho sido eu, mas gostava que houvessem outras pessoas envolvidas.

- No seio do grupo, é dramaturgo e encenador.

M.S.F. – E também fui actor e carreguei coisas para o palco!

-  Fica bem na pele de actor?

M.S.F. – As minhas intervenções sempre foram a título de ‘tapar buracos’. A última vez que entrei foi em 2004. Estávamos a repor uma peça e um dos actores não podia participar. Sem ele a peça ia ao ar! Não havia outra hipótese na altura, mas confesso: estava nervosíssimo e tinha a palma das mãos muito molhadas.

- Isso funciona a favor dos seus actores. Ou seja, percebe a posição em que estão.

M.S.F. – Sempre percebi e sou muito condescendente com os actores (risos). Bom, mas o que me aconteceu foi falta de treino, falta de prática. Enquanto eles estão habituados, eu não. Depois também havia outra coisa. Tinha de estar preocupado com a minha actuação e não havia um assistente de encenação, já que o próprio encenador era actor.

- As limitações são grandes…

M.S.F. – Também ao nível da dramaturgia. Mas aí o problema não é tão premente. Há sempre maneiras de contornar as coisas. Em qualquer grupo que se intitule de companhia de teatro interessa ter formação. A todos os níveis. Se bem que eu estou absolutamente convicto de que todos os actores que passaram pelos Dóci Papiáçam cumpriram o seu papel. Já foram muitos e sempre acharam que foi uma boa experiência. Ter de adaptá-los ao papel na peça é uma tarefa complicada, mas não é uma coisa do outro mundo. Até agora, posso dizer que estou muito contente. O macaense sabe estar em palco. Pode meter-lhe medo aquela perspectiva de ter milhares de olhos sobre ele – o tal ‘stage fright’. Mas o macaense sabe estar palco e surpreende. Estou sempre a surpreender-me.

- De onde virá essa aptidão?

M.S.F. – Não sei, mas talvez da sua própria natureza e do encontro de culturas que representa. Não devia de ir por questões tão profundas e gostaria se ser mais prático para explicar isto. Bom, talvez não tenha explicação! Mas a verdade é que o macaense tem uma aptidão de estar em toda a parte e consegue fazer isso com muita mestria. Muitas pessoas perguntam ‘o que é preciso para estar em palco?’. Eu sei, é preciso ter lata. O macaense quando entra em palco faz bem o seu papel e isso está mais do que demonstrado. Todos aqueles que passaram pelos Dóci Papiáçam não tinham formação de teatro.

- Às necessidades técnicas juntam-se necessidades financeiras? Como é que alimentam, digamos assim, o projecto?

M.S.F. – Com muita boa vontade. Não temos subsídios mensais e por ano o que recebemos chega do Festival de Artes para o qual somos convidados. De acordo com a peça que apresentamos somos pagos. Isso serve para fazer face às despesas, aos encargos.

- E as receitas de bilheteira?

M.S.F. – Não recebemos nada. É tudo para os cofres do Instituto Cultural. Mas também não podíamos depender da bilheteira. Hoje em dia os espectáculos são caros. Tudo isto acontece porque há boa vontade e borlas. Nós não queremos ser pagos nem nada – eu podia pedir uma parte para mim e o Sérgio Peres também [responsável pela vertente cinematográfica do projecto], mas não fazemos isso.

- A ausência de uma sede também tem dificultado o vosso trabalho?

M.S.F. – Os Dóci Papiáçam precisam de um espaço. Não é um terreno no Cotai porque não precisamos tanto! O que necessitamos servirá para ensaios, para fazer as nossas produções cinematográficas e gravações. São necessidades que não se compadecem com a área de um apartamento. O Governo pode dizer que nos dá um apartamento, mas isso não serve de nada porque não somos uma associação para discutir problemas. O sítio que precisamos é para trabalhar, fazer ensaios, guardar as nossas coisas.

- Têm andado em casa emprestada?

M.S.F. – Durante muito tempo, estivemos na Associação Promotora da Instrução dos Macaenses [APIM]. A casa é sempre a dos outros.

- A criação de um centro de cultura macaense voltou à imprensa, através do Jornal Tribuna de Macau e das declarações do presidente da APIM. Se tiver condições, pode ser um local à vossa medida?

M.S.F. – Não faço a mínima ideia do que é o projecto, mas julgo que não é suficiente para abarcar o que os Dóci Papiáçam têm em mente. É um projecto muito específico baseado em artes performativas e na defesa do patuá. Isto não se compadece muito com fórmulas antigas. É claro que não fecho as portas a nada. Mas é preciso saber, em termos concretos, o que é este centro. Os Dóci Papiáçam não são elitistas e colaboraram em várias coisas, mas sempre tivemos o nosso estilo. A maneira de fazermos as coisas é muito própria, tem muito que ver com a amizade e confiança entre as pessoas. O ambiente, diria, é  muito especial e diferente do da Associação dos Macaenses, de que sou presidente, e da APIM, da qual sou membro. Estamos abertos a todas as colaborações, mas vamos manter-nos sempre como Dóci Papiáçam e dessa ideia não sairemos. É a única coisa inegociável. Inegociável! (risos)

- Mesmo assim, prevê mudanças no futuro?

M.S.F. – Vamos ter de restruturar o próprio grupo, dotá-lo de estatutos actualizados. E até agora não fizemos outras coisas porque não temos condições. Por exemplo, cursos. É impossível. Mesmo assim, esta é a parte mais fácil de resolver.

- Qual é a mais complicada?

M.S.F. – A mais complicada é a que está relacionada com o patuá. Macau é o berço da língua, mas não há muita literatura sobre o patuá. O que há é do falecido José dos Santos Ferreira. Um homem notável que dedicou parte importante da sua vida ao culto do crioulo. Escreveu, cantou e poetizou em patuá. Mas, no seu tempo, o Adé [como também era conhecido] foi criticado. Diziam que inventava palavras. Mas, hoje em dia, as críticas desapareceram e o Adé é a autoridade bíblica. Tudo o que escreveu é intocável!

- Mas essencialmente o patuá é oral.

M.S.F. – Sim. Para que tudo seja estudado e também aprendido, é necessário que exista o mínimo de consistência. Estamos a falar de gramática e também de grafia. Como o patuá é essencialmente verbal como é que o vamos romanizar? À portuguesa? À inglesa? O Adé era patriota e português. Romanizou tudo à portuguesa e quando se lê o que escreveu passa-se a entender tudo porque usou a mesma ortografia. Isto é um tesouro inestimável. Ele deixou a obra, agora vamos estudá-la.

- Os Dóci Papiáçam di Macau têm sido, talvez, os grandes dinamizadores do patuá.

M.S.F. – Na candidatura do teatro a património intangível, o grupo ficou com o estatuto pomposo de entidade de salvaguarda. Já que o temos, vamos corresponder. Mas não depende só de nós. Depende de como o Governo vê isto. Há muitas questões pendentes. A ausência de um acordo ortográfico, é uma delas.

- As directivas de José dos Santos Ferreira podem ser seguidas?

M.S.F. – Nem todos concordam. Existem problemas de índole linguística e cultural. O Adé fez uma gramática que era, como dizia, o ‘epítome de gramática do Papiá Cristám di Macau’. Eu próprio não concordo com algumas coisas, mas acabo por dar sempre razão ao velho mestre. O que fez é fenomenal e colocou-se na pele de falante do patuá para exprimir realidades que não existiam antes, como avião.

- Como se diz?

M.S.F. – Aeroplano. Claro que quando se falava patuá não havia nada disto. O aeroplano aparece nos textos do Adé porque havia muitos macaenses em Hong Kong que já começavam a falar inglês. Macaizando o termo ‘airplane’, ficava aeroplano. As pessoas dizem que ele inventava palavras. Não! Ele criava palavras. Todos nós fazemos isso. Hoje em dia diz-se ‘printar’ ou ‘deletar’. Não sejamos tão puristas. Devo dizer que a forma de falar português do macaense tem muito de patuá. As pessoas é que nem sabem.

- Na sua opinião, o patuá tem espaço para acompanhar os tempos e não se cingir à tradição?

M.S.F. – Claro. Os Dóci Papiáçam fazem isso e esta língua pode traduzir as situações da vida actual. Há futuro, mas depende sempre da utilização. Se as pessoas não o usam é como um carro que compramos, mas fica na garagem. Acaba por morrer por si.

- Os Dóci Papiáçam são os condutores deste carro?

M.S.F. – Pelo menos, guiamo-lo. Mas sabemos, de antemão, que o carro não é nosso. O carro é de todos.

Leave a Comment

Filed under Uncategorized

Tudo a postos

A mais recente peça dos Dóci Papiáçam di Macau conta com a participação de quatro jovens que, durante dois meses, participaram nos ensaios do grupo. O Riquexó foi o local escolhido e, por lá, espreitámos os preparativos para a estreia que hoje anima a cidade.

 

Pedro Galinha

 

Vera Amorim e Jacqueline Sio são duas estreantes no teatro em patuá. Tal como todo o elenco de “Aqui tem Diabo! – Crónicas dos Bons Espíritos”, despediram-se no início da semana do Riquexó, local que serviu de quartel-general aos Dóci Papiáçam di Macau durante dois meses.

Antes do último ensaio que teve lugar no espaço, as duas jovens não escondiam algum nervosismo quando lembrámos que o Centro Cultural tem casa cheia nas duas datas em que a peça sobe a palco. No entanto, quando foram chamadas a responder sobre a importância da preservação do patuá, as certezas tomaram o lugar das hesitações.

“É a nossa cultura. Se isto acabar, Macau acaba”, vaticinava Vera Amorim, de 19 anos.

Dois anos mais nova, Jacqueline Sio preferiu realçar que na geração a que pertence “já ninguém fala” patuá. Contudo, isso pode mudar caso os jovens procurem os Dóci Papiáçam di Macau, uma vez que a aluna da Escola Portuguesa adiantou que foram dadas aulas de patuá aos jovens. Poucas, mas suficientes para abordar dois temas basilares: gramática e pronúncia.

Além de Vera Amorim e Jacqueline Sio, outros dois jovens participam em “Aqui tem Diabo! – Crónicas dos Bons Espíritos”. Motivo que deixa orgulhoso o encenador e dramaturgo Miguel Senna Fernandes.

“Têm-se portado lindamente. Nenhum deles tem preparação técnica em teatro, mas quem os vê em palco, mesmo que sejam amadores, sabe que não estão à rasca. Vão certamente cumprir o seu papel”, confia.

A incorporação de juventude no projecto de teatro em patuá “vem corresponder a um anseio do grupo”. “Tudo isto precisa de continuidade e sem jovens é complicado”, antevê Senna Fernandes, antes de acrescentar: “É bom que participem no espectáculo para sentirem a língua. Lá está, quando querem reproduzir o diálogo têm de perceber tudo. E no processo de comunicação têm de falar o patuá. Este é um processo evolutivo que os garotos experimentam. Há quatro meses atrás não falavam nada. Agora, se dissermos uma coisa muito simples, já compreendem”.

 

Quebrar barreiras

 

Para o principal rosto dos Dóci Papiáçam, o patuá não é só um crioulo velho. “Pode ser utilizado por uma camada jovem e em situações actualizadíssimas”, dita Miguel Senna Fernandes.

A julgar pelo que vemos e ouvimos nos ensaios de “Aqui tem Diabo! – Crónicas dos Bons Espíritos”, o que diz é verdade. E a justificar tal afirmação apresentamos uma palavra na ordem do dia: “retroactivos”.

A dita surge durante um diálogo entre os veteranos Luís Machado e Alfredo Ritchie. Também eles voltam ao palco este ano para encarnar o “espírito de carnaval” que o teatro em patuá representa.

A festa, ao que parece, está garantida. Mas Jacqueline Sio lembra que na génese do género está a “exposição dos problemas de Macau”. Ou seja, a brincar vão-se dizendo verdades.

Leave a Comment

Filed under Uncategorized

O homem atrás da câmara

Sérgio Perez é o realizador de serviço nos Doci Papiaçam. Gosta do humor mas exige sempre qualidade nos vídeos que faz. Desta vez as piadas maquistas vêm embrulhadas numa história de terror inspirada nos filmes de John Carpenter.

Hélder Beja

Os vídeos dos Doci Papiaçam di Macau são, em cada espectáculo, um dos momentos mais aguardados da sátira maquista. E, atrás da câmara, Sérgio Perez é o suspeito do costume. O realizador dos vídeos dos Doci conta ao PARÁGRAFO que a curta-metragem deste ano é um “horror movie”.

Com argumento escrito por Miguel Senna Fernandes, fotomontagem inicial de Filipe Senna Fernandes mas “concepção feita em grupo”, o novo filme maquista terá por certo (e como de costume) figuras conhecidas da comunidade. “Isto é um trabalho de grupo. Por exemplo, este ano tivemos a contribuição do Fabrizio Croce, que ajudou na banda sonora; e tivemos a colaboração de alguns profissionais de outras áreas que aparecem no vídeo – as pessoas logo perceberão o que quero dizer, essa é uma das piadas fortes do vídeo”, diz o autor.

“Desta vez o vídeo aposta mais em jovens. O próprio conceito do vídeo é o filme de terror, que normalmente engloba adolescentes”, prossegue Perez, cineasta de 32 anos. A curta-metragem promete, até porque “é inspirada nos filmes do John Carpenter”, autor norte-americano de obras de culto do horror como “Vampires” e “The Thing”.

O filme deste ano tem oito minutos, durante os quais Sérgio Perez volta a pôr as suas competências de imagem ao serviço da comunidade macaense. “Aqui faço o que gosto de fazer – gosto de realizar ficção – ao mesmo tempo que participo em algo que tem o seu valor. Pode ser pequeno, mas tem valor.”

Há seis anos que o realizador é o responsável pelas produções audiovisuais dos Doci. Já fez, entre outros, um thriller (“James Bronco”), já fez uma história de super-heróis (“Panchito”) e um musical (“Macau Sâm Assi”) – vídeos que podem ser encontrados online, no YouTube ou no site dos Doci Papiaçam (www.docipapiacam.com). “Todos os anos procuramos ir para um género diferente”, explica Perez. E acrescenta que é difícil fazer um vídeo que tenha um certo profissionalismo, que apresente qualidade. “Os nossos vídeos dão imenso trabalho, porque procuramos sempre brincar mas tentamos fazer coisas com qualidade. Isso dá muito trabalho, são muitas horas que se perdem, principalmente as horas livres das pessoas, porque é tudo voluntário.”

O cineasta prefere mesmo estar atrás da objectiva. Passar para o outro lado, o dos actores, não lhe passa pela cabeça. Ri-se enquanto diz que os talentos que tem não vão nessa direcção. “Acho que fazemos coisas incríveis, pelas condições que temos. Sempre que participo nisto fico espantado com o que nós conseguimos fazer”, orgulha-se.

Além das produções cinematográficas, há também uma vertente televisiva nos vídeos dos Doci. “Fizemos o ‘American Idol’, fizemos o ‘Quem Quer Ser Milionário’, fizemos programas de informação – os ‘Patuá One Minute’ – e esses têm outro tipo de linguagem visual”, enumera Sérgio Perez. O realizador deixa ainda cair que, além do filme de terror, pode ser que os espectadores que hoje e amanhã rumarão ao Centro Cultural tenham ainda outra surpresa.

Leave a Comment

Filed under Uncategorized

Os espíritos moram aqui

A julgar pelas palavras de Luís Ortet, Macau é terra de crenças, superstições e espíritos. Sobre estes últimos, que servem de mote à peça dos Dóci Papiáçam di Macau, o jornalista e editor, que chegou ao território em 1983, arrisca dizer que são seres com os quais os humanos esforçam-se por “evitar que haja uma má relação”. Por isso, vão sendo “mimados”.

“Em muitas festividades chinesas, há variadas coisas relacionadas com os espíritos das pessoas que já morreram. O banco do inferno, as oferendas que se fazem”, enumera o autor de “As Mil Faces da Lua” (1988), livro que o obrigou a estudar aspectos da tradição de Macau.

As crenças da comunidade chinesa, explica Ortet, são parte das crenças da comunidade macaense que, “por via familiar”, partilham convicções comuns. Os espíritos, defende, são um desses casos. “Reza a tradição que o melhor é manter a distância, até por uma questão de respeito”, brinca Miguel Senna Fernandes.

Na peça “Aqui tem Diabo! – Crónicas dos Bons Espíritos”, Vera Amorim interpreta um destes seres estranhos, que se movem qual vento. “Não é bom, nem mau”, dita a jovem de 19 anos sobre a personagem que encarna.

Além dos espíritos, a vivências tradicionais de macaenses e chineses abarca um leque alargado de superstições. Um desses casos é o auspicioso número oito. Mas há outros, aponta Luís Ortet.

“Acreditam que há uma certa maneira de energia circular e temos de tomar medidas para que essa circulação seja feita de forma satisfatória. Aplicam os mesmos princípios a diversos conhecimentos, como a medicina tradicional chinesa, o Yin e Yang, os cinco elementos, feng shui. Utilizam isto em todas as ciências tradicionais”, conclui.

Apesar de estar enraizado na cultura oriental, Ortet indica que estas temáticas “do outro mundo” são universais: “De uma maneira geral, toda a humanidade é sensível a este outro lado. O que é que acontece às pessoas que já morreram? Será que existem espíritos que nos vêm visitar, à noite, a casa?”.

Portugal não escapa, por isso, a estas crenças. Com devidas diferenças,  próprias da cultura ocidental. P.G.

Leave a Comment

Filed under Uncategorized

A-Má e as outras

Tin Hou, Mazu, A-Má. Uma imperatriz de três nomes e com as bainhas da saia permanentemente lambidas pelas ondas. Coroada, roliça, solene, tem nas mãos a benevolência, um ceptro em forma de coração, com que acode a naufrágios de ambos os lados do estreito.

É dela que nos falam as primeiras histórias da fundação, cravadas nas pedras do seu templo, mais suaves que as sombras duras que o sol corta incisivo pelas duas da tarde e sobre os turistas. O fumo e a cinza raspam a garganta, entaramelam a língua, cansam as pernas. A tarde mendiga todas as gotas que lhe ensopam a barra das vestes, quando A-Má chega a terra caminhando pela Barra.

É mãe venerada, protege sem perguntar e sem censuras. Chegou quando tinha de chegar, quando houve as primeiras gentes de tanka, pescadores perdidos e resgatados nos molhes daquela a que há cinco séculos chamaram de a montanha sagrada. Uma colina curta, hoje quase indecifrável, na qual os náufragos ergueram qualquer coisa a que quiseram também chamar um palácio.

Nada era de menos nos primeiros dias: a colina, montanha; o casebre, palácio; uma mulher surgida do mar, imperatriz divina. Foi feita assim a consagração do lugar, na gratidão por uma sobrevida após a quase morte. Homens e mulheres povoaram. A-Má reinava e concedia graças, e um homem curava de cobranças.

Mas foi o primeiro e o último milagre, de que há memória. Cuidou-se de crer numa mulher que caminhava sobre as águas, mas mais nenhuma teve o condão de vir em socorro num outro qualquer tipo de fatalidade. Não se propiciou – e, de resto, todos os náufragos estavam já consignados a A-Má.

As mulheres nasciam, cresciam, viviam e morriam, elas próprias às graças da imperatriz divina. Se pariam e a casa prosperava, davam oferendas, arrecadadas pelo palácio. Recomendavam-lhes que cultivassem virtudes como a caridade, suportassem serenas o peso de novos e velhos, zelassem pela harmonia dos espaços. Sem ira, debates, queixume. Jamais alguma foi como A-Má.

 

Maria Caetano

Leave a Comment

Filed under Uncategorized