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As sombras de Auster

Não é a obra-prima de Paul Auster e também não é um murro no estômago – sensação que, de algum modo, “Invisível”, a obra anterior do escritor norte-americano, pode provocar a dada altura. Em “Sunset Park”, Auster regressa a Brooklyn e a uma certa Nova Iorque: a cidade de uma classe média que, ainda a começar a vida, não sabe exactamente o que fazer nem para onde se virar.

Auster começa por nos apresentar Miles Heller, um jovem de traços enigmáticos que foge de um passado que não soube enfrentar. Num livro em que falta a profundidade psicológica a que o autor de “Trilogia de Nova Iorque” nos habituou, Heller é talvez a personagem de “Sunset Park” mais bem trabalhada. O romance gira em torno deste homem, filho de um editor, namorado de uma jovem ainda menor (mas muito madura, como reiteradamente é dito ao leitor), dividido entre a reconciliação com o passado e um presente sem grande futuro à vista.

É também Miles Heller que nos transporta para fora de Nova Iorque, mas é na cidade de eleição de Auster que a acção principal acontece. Porque é em Sunset Park que Heller, mais uma vez em fuga, se refugia e reencontra a sua única ligação ao passado: Bing Nathan, amigo de infância, jovem problemático, sexualmente dividido, dono do Hospital das Coisas Escangalhadas, “o soldado da indignação, o campeão do descontentamento, o militante que desmascara a vida contemporânea e sonha construir uma nova realidade a partir das ruínas de um mundo que falhou.” (pág. 57).

Nathan vive com Alice Bergstrom, namorada de um jovem com aspirações a escritor de sucesso, e divide o seu tempo entre a dissertação de doutoramento e um part-time no quartel-general do PEN American Center. Dividem casa com Ellen Brice, rapariga problemática que desistiu da faculdade para trabalhar numa agência imobiliária, pintora não realizada nas horas vagas, uma melancólica perturbada por um erotismo que descobre (talvez) tardiamente. Os três ocupam uma casa que lhes sai a custo zero, um edifício velho em Sunset Park, de onde, mais cedo ou mais tarde, terão de sair. Miles Heller junta-se ao trio para uma vida fugaz em conjunto.

São pequenas histórias de vida que Paul Auster retrata no romance publicado no ano passado, dado à estampa em Portugal pela Asa. Há uma preocupação cinematográfica na forma como o escritor estrutura os capítulos – ou cenas, se preferirmos. Mas isto não espanta – Auster não é só romancista, é também argumentista.

Num livro em que podia ter ido mais longe, que deixa ao leitor a vontade de ficar a saber mais sobre quem lhe é apresentado, Paul Auster consegue, no entanto, transmitir a textura dos seus cenários: “Sunset Park” é um livro entre o ocre e vários tons de cinzento, um retrato de Brooklyn no período da crise financeira, um romance de encruzilhadas, de pequenos grandes dramas pessoais que ultrapassam o edifício abandonado que as personagens ocupam. “Tomar um daqueles comprimidos é como engolir uma pequena dose de morte”, escreve Auster sobre Brice. “Ela não que enclausurar a sua vida para sobreviver à sua vida.” (pág. 81). Há um certo cheiro a mofo, a escadas desabitadas, mas também a relva, a verde, a água.

Em “Sunset Park” fala-se ainda de gerações, sem que o tema-cliché ‘conflito’ seja abordado directamente. Além dos quatro jovens protagonistas, a mãe e o pai de Miles Heller ajudam à caracterização da personagem-filho, mas introduzem também elas novas histórias e outras formas de estar e sentir. “Não ficamos mais fortes à medida que os anos avançam. A acumulação de sofrimentos e de mágoas enfraquece a nossa capacidade para aguentarmos mais sofrimentos e mágoas, e, visto que os sofrimentos e as mágoas são inevitáveis, mesmo um pequeno contratempo na velhice pode ressoar com a mesma força que uma grande tragédia quando somos jovens.” (pág. 201), conclui Morris Heller, pai de Miles.

Fora de Sunset Park, de Brooklyn e de Nova Iorque, uma interessante referência a Liu Xiaobo, que já depois da publicação do livro foi galardoado com o Nobel da Paz. “Alice passa a manhã e o princípio da tarde a enviar e-mails para os centros do PEN em todo o mundo, angariando apoios para o grande movimento de protesto que Paul [o superior hierárquico] quer organizar a favor de Liu. (pág. 176). Auster escreve que “Alice trabalha com uma espécie de fervor consciencioso, sabendo que homens como Liu Xiaobo constituem os alicerces da humanidade, que poucos homens ou mulheres são suficientemente corajosos para se erguerem e arriscarem as suas vidas pelos outros”, mas é Alice que o sente – se “Sunset Park” for um livro político, é-o mais sobre a América que, de dourado tem pouco, do que acerca da China distante.

Não sendo um livro genial, aconselha-se o romance mais recente de Auster, porque se aconselham todos os romances de Auster. As 230 páginas em que se tece esta teia de estranhas relações humanas bebem-se de um trago só. São poucos os que têm o real dom da escrita e Auster faz parte do clube.

Sunset Park – Paul Auster (2010)

Isabel Castro

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