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Da vida e da morte

Não recebe aplausos nem louvores – antes pelo contrário. A crítica brasileira foi implacável com a obra mais recente daquele é um dos grandes nomes da literatura lusófona. O octogenário Rubem Fonseca voltou, em 2009, à publicação de originais com “O Seminarista”, livro que apareceu recentemente no mercado livreiro português.

O Prémio Camões 2003 não foi poupado nas comparações feitas entre este seu 11º romance e os livros de contos que o inscreveram, de modo incontestável, no mundo das letras brasileiras. A Gazeta, por exemplo, assegura que o autor “não exibe a sua melhor forma”, mas tece elogios ao facto de este homem, à data da publicação com 84 anos completos, não viver preso ao passado e refutar ideias feitas do género “no meu tempo”. A Folha de São Paulo é mais feroz: “Artifícios de estilo não conseguem salvar trama de Fonseca”. A Veja alinha no mesmo sentido, mas com algumas ressalvas, ao escrever que “embora o enredo de seu novo romance seja capenga, Rubem Fonseca se mantém como o cronista mais perspicaz de uma cidade onde bandidagem e civilização convivem promiscuamente”.

É certo que “O Seminarista” está longe de obras-primas como “Lúcia McCartney” (1967) e “Feliz Ano Novo (1975)”. Exímio na técnica do conto, Fonseca tem vindo a aventurar-se com sucesso no romance, género para o qual transporta uma inesgotável habilidade de surpreender o leitor – “Diário de um Fescenino” (2003) era a prova mais recente da capacidade de renovação literária do escritor. Neste contexto e com o passado que Fonseca carrega, é natural que “O Seminarista” desiluda, que se esteja à espera de mais.

A obra que a Sextante lançou em Portugal apenas no último trimestre de 2010 tem como personagem principal o Especialista, homem que mata por encomenda. Não conhece as vítimas, não lê jornais para não ficar a saber quem eram, prefere cinema e poesia, fala latim. Estudou num seminário.

Como grande parte das figuras que Fonseca constrói, o Especialista, que se chama José, gosta de mulheres mais do que quase tudo, numa lógica de um Brasil que não esconde o sexo. “Ela pode ser loura, morena, mulata, preta, japonesa, desde que tenha as características que mencionei: magra, peito pequeno, inteligência e bondade” (pág. 31).

Contado na primeira pessoa do singular, “O Seminarista” dedica os primeiros capítulos à contextualização da personagem – “Os homens que matei? Foram muitos, por encomenda.” (página 25) – evoluindo depois para o que será acção deste livro “à Tarantino”, analogia que a Gazeta encontrou para situar o romance.

O Especialista comunica ao Despachante que não pretende continuar a matar por encomenda. Quase em simultâneo, apaixona-se e torna-se homem de uma só mulher, uma alemã de rosto bonito e “dentadura perfeita” que também gosta de poesia. “Oculi sunt i namore duces, os olhos são guias no mar, como disse Propércio.” (pág. 33), é a deixa que serve de ponto de partida para uma história de amor onde o crime, inevitável em quase todas as obras de Rubem Fonseca, troca os planos às personagens.

Licenciado em Direito, com um profundo conhecimento do que é o crime no Brasil, Fonseca tem a arte de falar da morte como quem fala da vida – e esta será, porventura, a característica mais forte de “O Seminarista”, a assinatura de Fonseca. Sem moralismos, com uma abordagem realista que raia a frieza, o escritor (que inventou um novo género policial para a literatura lusófona) mistura poesia, ficção e realidade, Camões, Pessoa, Drummond e Gullar como se de um só corpo se tratasse. Vida e morte. Morte e vida.

Talvez “O Seminarista” não deva ser lido como um romance, mas como um conto alargado para o tamanho de um livro. A obra com que o escritor inaugura a passagem para uma nova editora (deixou, ao final de mais de duas décadas, a conceituada Companhia das Letras) fica aquém do esperado, mas merece uma leitura, porque não deixa de ter a qualidade cinematográfica a que o escritor nos habituou – se bem que com mais “pulp” e Tarantino do que com Fonseca puro e duro.

O Seminarista – Rubem Fonseca (2009)

Isabel Castro

 

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