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Os sonhos segundo Vargas Llosa

Tem dois géneros de livros ou às tantas até mais. Mas pensemos em dois tipos apenas: as narrativas densas, que nos obrigam a ler um capítulo de uma só vez e quase em voz alta; e as histórias fluidas, quase sempre de gente que existiu, com um princípio, meio e fim que não obedecem obrigatoriamente a esta ordem.  Ambos os estilos – e os outros também – são admiráveis, mas chegará ao leitor comum sobretudo através da forma mais simples de alinhar palavras e ideias. “A Tia Júlia e o Escrevedor” ou “O Paraíso na Outra Esquina” são irrefutavelmente de digestão mais facilitada do que “Conversas na Catedral”, o livro que o próprio elegeu como a obra em que esteve mais perto da perfeição literária.

“O Sonho do Celta” foi publicado já depois de recebido o Nobel da Literatura e Mario Vargas Llosa não desilude quem gosta de livros em que não abusa da sua capacidade de narrador que se desdobra em múltiplos narradores. É, em certa medida, um romance que surge na linha de “O Paraíso na Outra Esquina”, espaço que recupera a figura de Paul Gauguin. Vargas Llosa gosta de escrever sobre homens que se perdem no tempo e no espaço, que romperam com formalismos. Entre um livro e outro mudam os cenários, os contornos da história, mas a noção de moralidade é semelhante.

Roger Casement existiu (1864-1916) e é de Roger Casement que nos fala “O Sonho do Celta”. Um protagonista que o mundo praticamente desconhece, querido apenas numa pequena Irlanda quase invisível, homem que chegou a ser “Sir” e que perdeu regalias e direitos. E também a vida.

Não retiramos o prazer da leitura se revelarmos o desfecho, que se pressente logo nas primeiras páginas: a Casement é aplicada a pena capital por traição, por ter defendido a independência da Irlanda imaginando uma ilusória aliança com a Alemanha em guerra, uma Alemanha que o desilude por não ajudar a terra onde nasceu a sair do que entendia ser um modo rebuscado do colonialismo contra o qual lutara. “Os últimos meses de Roger Casement na Alemanha foram de constantes discussões e momentos de grande tensão com as autoridades. A sensação de que havia sido enganado intensificou-se até à sua partida de Berlim. O Reich não tinha interesse na libertação da Irlanda” (pág. 415).

Nas páginas que em português foram publicadas pela Quetzal conta-se a história amarga de Casement, que já se encontra na prisão. A narrativa divide-se entre as vãs esperanças de ver a pena capital perdoada, reflexões sobre a vida e a morte, e o regresso ao passado – o passado que nos permite perceber quem foi este irlandês, diplomata ao serviço da Coroa Britânica, activo na denúncia das barbaridades cometidas no Congo e no Putumayo, onde viveu grande parte da vida.

O herói caído em desgraça da história de Vargas Llosa é também poeta, recusa o nacionalismo para se tornar nacionalista, é um homem de relações pessoais complicadas que a época não aceita. Uma homossexualidade que provocou debates mas sobretudo censuras.

“O Sonho do Celta” é também um livro em que se discute a religião, as ligações uterinas, as aproximações inesperadas, as mais inusitadas formas de solidariedade. “O xerife não se ofereceu para o levar ao balneário e ele não lho pediu. Via o carcereiro tão deprimido, com uma tal expressão de desapego e ausência, que não quis incomodá-lo. Tinha pena de o ver sofrer daquela maneira e entristecia-o não atinar com o que fazer para lhe dar ânimo.” (pág. 351).

E n’ “O Sonho do Celta” debate-se o espaço da política para quem nunca foi político e da política se distanciou, dela se aproximando, por acreditar em qualquer coisa diferente da realidade. Debate-se a traição e a lealdade, as amizades eternas e as que nem por isso, como a que Casement teve com o escritor Joseph Conrad e que se perdeu na diferença das batalhas que lutaram.

O Casement que Vargas Llosa apresenta não é uma figura de que se goste com facilidade. A páginas tantas sim, gosta-se, a páginas tantas não, pelo quão universalista tenta ser na claustrofobia da cela onde aguarda o fim. Escrito a tinta preta, com selvas sem verde nem encantos, “O Sonho do Celta” não será um livro para nos apaixonarmos por quem volta a viver por nele ser descrito. Talvez sirva só para nos ensinar que em todos os sonhos existe uma dose de realidade que não se compadece com um sonho só. Nem com todas as boas intenções do mundo. “Naquelas mesmas horas, minutos, em que julgava ter agarrado aquele fogo-fátuo – a felicidade –, começava a etapa mais amarga da sua vida, esse fracasso que, pensaria ele depois, ofuscaria tudo o que de bom e nobre havia no seu passado.” (pág. 394).

O Sonho do Celta – Mario Vargas Llosa (2010)

Isabel Castro

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