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O mundo aqui ao lado

Isabel Castro

 

Ela não tem medo de falar. Chora de vez em quando, um choro contido, umas lágrimas que a envergonham e que não quer mostrar. É uma mulher dividida. “Eu não posso estar em dois lados ao mesmo tempo”, lança, no dia em que toma a decisão final. Ele é reservado, aquela calma tímida que esconde não se sabe bem o quê, se resignação, se fúria. Quando explode, o mundo pára.

Os Zhang são de Sichuan e os protagonistas de “Last Train Home”, o documentário com que o sino-canadiano Lixin Fan se estreou nas longas-metragens – e que lhe valeu várias distinções em competições internacionais. Os Zhang são de Sichuan, chamam-se Zhang, mas podiam ter outro apelido qualquer e ser de outra província qualquer. Os Zhang misturam-se com milhares de outros Zhang que povoam a província de Guangdong, mesmo aqui ao lado. São trabalhadores migrantes, passam o dia numa fábrica, os dois, lado a lado, e passam a noite lado a lado, numa cama estreita, no dormitório da fábrica. A fábrica.

Tal como todos os outros Zhang, estes Zhang só vão a casa uma vez por ano, naquele que é o maior movimento de gente do mundo. Ir a Sichuan no Ano Novo Chinês implica o sacrifício da espera, a luta pelo bilhete, a multidão que se empurra para entrar num comboio que chega quase sempre tarde.

Lixin Fan segue os Zhang um ano, dois anos. Acompanha a viagem de regresso a casa, mas já esteve lá em casa, uma casa onde vivem dois filhos adolescentes e uma avó que sempre sonhou em sair do campo, mas não pôde porque o Estado não quis, porque lhe disseram que era importante produzir milho e arroz para o país.

Os Zhang trabalham numa fábrica longe de casa desde que Qin, a filha mais velha, veio ao mundo. E trabalham longe de casa para que Qin estude, para que Qin tenha um telemóvel, para que tenha um futuro diferente do deles. Para que Qin estude, que um dos tios estudou e livrou-se do campo. Qin é uma miúda no princípio de “Last Train Home” e é uma miúda no fim, mas uma miúda diferente, com mágoas diferentes. Educada por um avô que já morreu e uma avó que repete, até à exaustão, que Qin tem de estudar para sair do campo, assim como o irmão mais novo tem de estudar para sair do campo, Qin sai do campo e faz-se à cidade, ruma a sul num acto de silenciosa revolta, escolhe o mesmo caminho dos pais que não tolera por só os ter visto uma vez por ano, naquelas viagens para casa que se fazem sem espaço, aos milhões.

“Last Train Home” podia apelar à lágrima cinematográfica, aos sentimentos fáceis e escorregadios, mas não o faz. Tem todos os ingredientes para ser um melodrama, mas não o é. Lixin Fan filma com um realismo que não procura só o que é negro, mantém as cores que é preciso manter, a calma do campo em Sichuan, a peculiar dignidade do casal Zhang. Quase que entra na cabeça confusa de Qin, mas não chega a fazê-lo, num gesto de respeito pela privacidade de uma adolescente dolentemente infeliz.

“Last Train Home” é um filme sobre uma China que nos é próxima, mas é também sobre o acto de escolher, o preço das opções, as consequências imprevisíveis dos actos, o preço de partir e ficar, o valor injusto dos sacrifícios. Os Zhang explicam-nos que o tempo passa demasiado depressa e que na escolha de um destino ficam muitas outras viagens por fazer.

 

Last Train Home

Lixin Fan, 2009

 

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