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O cheiro do cinema

 

Hélder Beja

 

O filme começa com uma bunda, essa expressão bem brasileira de dizer rabo. E acaba com uma bunda também. Não é uma fita sobre bundas, tampouco sobre sexo, que também lá está. “O Cheiro do Ralo”, do brasileiro Heitor Dhalia, é uma obra incrível, um corrupio de personagens que visitam o cangalheiro de memórias que é Lourenço (Selton Mello), para entregarem toda a sorte de objectos em troca de mais uns reais que aliviem a miséria.

Mas o filme começa com uma bunda. É a bunda de uma garçonete que enfeitiça Lourenço, mais uma grande personagem de Selton Mello, que já nos habitou bem de filmes como “Lisbela e o Prisioneiro” e “O Meu Nome Não é Johnny”. Lourenço tem duas obsessões: a bunda da garçonete (Paula Braun), de quem nunca sabemos o nome porque ele não consegue pronunciá-lo; e o cheiro a merda que vem do ralo da casa de banho que serve o seu escritório de quinquilharia. De algum modo – ele tem certeza – as duas coisas estão relacionadas.

É Lourenço que nos guia por este filme de 2006 várias vezes premiado. Ele é um homem que compra a tralha que os outros querem ou precisam vender, nem sempre por esta ordem. Vive nos subúrbios e, nesse mundo de vagabundos, agarrados e pés-rapados, chega a ser um tipo poderoso. Tão poderoso quanto temperamental.

O negociante avalia a mercadoria a começar pela cara de quem a vende. Se não vai com ela, pode recusar bons faqueiros de prata e caixas de jóias; se as frontes lhe agradam, é até capaz de dar boas centenas de reais por um olho de vidro que passará a ser a sua terceira obsessão. Depois há o homem da flauta, o homem da caixa de música, o homem da prótese, o homem da caneta, o homem do autógrafo, o homem dos soldadinhos. Todos querem vender a Lourenço. Ele nem sempre está disposto a comprar. E há, finalmente, a miúda esquiva e saltitante que há-de ser decisiva.

“O Cheiro do Ralo” debruça-se sobre a materialidade da vida, a necessidade de ter e de vender, e o desejo que despertam em nós as coisas que sabemos inatingíveis. No filme como na vida real, é o dinheiro que compra muitas dessas coisas. E Lourenço gosta, porque tem dinheiro. Lourenço não quer nada regalado, nada de graça ou por afectos. Ele quer e vai comprar, podendo pôr, dispor e ser cruel. É assim com a bunda que o enfeitiça.

Nos longos momentos em que Lourenço nos fala por cima das imagens, servindo de narrador, percebemos a qualidade literária da obra do jornalista e escritor Marçal Aquino, autor do romance homónimo que foi adaptado à tela. Lourenço é um homem solitário e perturbado. Mas não mais perturbado (ou depravado) que muitas das pessoas com quem nos cruzamos no dia-a-dia e de quem não adivinhamos (nem queremos saber) o mais íntimo das suas profundezas pessoais.

O cineasta Heitor Dhalia recorre com tino à mimetização das imagens, aos planos de edifícios industriais e passeios vazios em que Lourenço vai copiando os dias. Copiando a comida péssima da lanchonete e o momento em que ela, a bunda, se vira. Mais uma vez.

 

O Cheiro do Ralo, 2006 – Heitor Dhalia

Hélder Beja

 

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