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“O som tem um papel muito importante na nossa vida”

Na de Álvaro Barbosa tem ainda mais. Investigador, professor e artista, é em torno do som que se movimenta. Engenheiro de formação, criativo por natureza, conta-nos até que ponto as tecnologias contribuíram para a mudança de paradigmas.

Isabel Castro

Ser engenheiro e artista ao mesmo tempo não é impossível. E pode-se somar a isto o ensino, a investigação e a direcção do departamento de Som e Imagem da Universidade Católica Portuguesa. Álvaro Barbosa está em Macau para um mês e meio de aulas na Universidade de São José. Explica por que razão se deve prestar mais atenção ao som e fala do papel das tecnologias no aparecimento de novos paradigmas de criação. No próximo dia 27, Álvaro Barbosa dá uma aula aberta para quem se interessa por som, um mundo de conhecimento que este académico-artista quer democratizar através da partilha de meios que permitam um acesso mais simples à criatividade.

– Tirou o curso de Engenharia Electrónica e de Telecomunicações. Como é que surgiu o interesse pela área do som e também pela música, uma vez que não trabalha em som só na sua vertente técnica?

Álvaro Barbosa – Já enquanto estudava na universidade também trabalhava como músico. Tive sempre essas duas valências. Tive alguma educação formal, no Conservatório, que optei por não prosseguir, porque não correspondia às minhas expectativas do ponto de vista criativo. Naquela época, no início dos anos 90, era demasiado fechado e tradicional. O curso de Electrónica que, no fundo, era a base do curso que estudei, tinha uma grande componente de processamento de sinal, que é uma área comum às tecnologias da música e do áudio, embora seja colocada num plano muito abstracto do ponto de vista da formação universitária nesses cursos. Mas, de facto, os conceitos básicos são os mesmos, pelo que o passo para trabalhar na área das tecnologias da música e do áudio é muito pequeno. E não é por acaso que a maior parte dos investigadores desta área vêm sempre de um background de engenharia. Eu inflecti para um percurso mais criativo, muito mais relacionado com as artes, e isso teve que ver com o facto de ter estado envolvido desde o início no projecto das Escola das Artes (EA) da Universidade Católica Portuguesa (UCP), a partir de 1996. A partir de então, comecei a fazer carreira, especializando-me numa das áreas que se propunha dentro da escola, que é o Design de Som. Em 1997 fui pela primeira vez aos Estados Unidos para fazer um curso de formação com Curtis Roads – penso que na área da ‘computer music’ é das pessoas mais relevantes – e envolvi-me, fiz o doutoramento nessa área.

– Há uma visão mais conservadora em relação à ‘computer music’ por se entender que desvaloriza, de certo modo, a arte de fazer música em sentido clássico. Há áreas em que as tecnologias já são mais bem aceites ou essa aceitação também já passou para a música?

A.B. – Já não é tanto assim hoje em dia. Grande parte da música que fazemos, de todos os géneros musicais, de alguma forma é tocada pelo computador, seja na dimensão do registo e da reprodução, seja na dimensão criativa. A grande diferença que existe para aquilo que chamamos de ‘computer music’ não entra em ruptura com a tradição da música como nós a conhecemos. O que é preciso é pensar nalguns dos paradigmas que não se aplicam em determinados géneros musicais, nomeadamente a questão da forma como fazemos o treino da música e da notação. Hoje em dia, treinar e interpretar música com base na notação tradicional é redutor, por uma razão simples. A notação musical foi pensada para instrumentos musicais. Quando utilizamos um computador para criar sonoridades, aquilo a que chamamos paisagens sonoras ou design de som, não estamos constrangidos pelas limitações infra-estruturais físicas dos instrumentos. Em bom rigor, podemos construir qualquer tipo de som do espectro sonoro audível. Como tal, a notação em função desses instrumentos torna-se um pouco desadequada. Existem projectos de investigação nessa área, para se pensar como a notação deve ser quando temos possibilidade de criar todo o tipo de sons. Isto é um aspecto, do ponto de vista da ruptura com o formalismo. O outro aspecto tem que ver com a cultura musical.

– O conservadorismo terá que ver com esse aspecto.

A.B. – Poria isso desta forma: os alunos que tenho nesta universidade ouvem Beatles e acham que são demasiado conservadores. Se pensarmos bem, na geração dos meus pais eles introduziram uma ruptura com os modelos da música anteriores. Isto é cíclico, está sempre a acontecer. Hoje em dia, a música feita por computador transporta-nos para sonoridades que nunca foram ouvidas, que não existem no nosso universo físico – podem criar-se sons que podem não ter uma origem num elemento físico, que é a grande mudança de paradigma. Este tipo de música que começa agora a surgir e em várias dimensões – numa forma mais erudita, no plano popular – está a introduzir mais uma mudança de mentalidades e de percepção. Imagino que a prazo será tão aceite quanto outros géneros da música popular. Acabará por ter o seu lugar no mundo. Essas resistências sempre existiram – é o chamado Velho do Restelo.

– Em Portugal ainda há muitos Velhos do Restelo ou já há uma grande aceitação a este novo paradigma?

A.B. – Não, não há. As pessoas movimentam-se nos seus universos e rodeiam-se daquilo que gostam. Acho que existem espaços para pessoas que apreciam determinado tipo de música que, para outras, não faz sentido algum. Começa a haver estas comunidades e acho que é por aí que estamos a caminhar, ainda para mais porque, na idade da informação, temos um grande poder na escolha do que queremos ouvir em termos de música. Como tal, começa a haver cada vez mais a possibilidade de as pessoas se situarem num universo musical que pretendem. E há espaço para as novas formas de expressão musical muito abstractas – até eu, que estou exposto a este tipo de sonoridades permanentemente, não as consigo por vezes entender muito bem. Existem comunidades que entendem profundamente de determinados géneros musicais e outras que se calhar até rejeitam estes géneros mas que entendem outros. Esta coexistência é natural. Faz parte do futuro.

– É um erro pensar-se que a música feita por computação é experimentalista, porque nem sempre isso acontece. Estou enganada?

A.B. – Não. Muita da música comercial que hoje consumimos tem uma grande componente que é sintetizada por computador. Há um exemplo que é talvez o mais paradigmático de todos: no Japão existe um fenómeno de massas de uma cantora virtual, que se chama Hatsune Miku, cuja voz é totalmente sintetizada por computador e é feita por pessoas na Internet. Com toda esta tragédia, estas coisas deixaram de ter tanta pertinência, mas há muito pouco tempo falava-se nisso. É música popular, de massas, com concertos ao vivo cheios de gente. E na verdade tudo aquilo é construído de forma sintética.

– Um dos seus vários projectos é o Public Sound Objects (PSOs), que é apresentado como sendo para o público em geral e não para músicos. Em que consistem exactamente os PSOs?

A.B. – É um projecto que ando a desenvolver desde 2000. Pretendi essencialmente explorar uma ideia simples: podemos usar a Internet para muitos propósitos. O facto desta infra-estrutura de comunicação existir mudou as nossas vidas de muitas formas. E não há dúvida alguma que a música é muito importante na vida de toda a gente – nunca conheci até hoje alguém que não gostasse de música. Interessava-me explorar a ideia de como é que as pessoas podem utilizar a Internet para comunicar entre si através da música, expressarem-se em termos musicais. A ideia era construir uma espécie de um espaço na Internet, partilhado, em que as pessoas pudessem interagir mas usando um interface que lhes permitisse fazer música. A metáfora seria fazer uma espécie de um ‘chat room’. Assim em abstracto parece bonito mas não é fácil de fazer. O primeiro problema que se coloca é: todas as pessoas têm capacidade para se expressarem em termos musicais?

– E têm?

A.B. – Uma das coisas que os computadores permitiram foi criar determinados tipos de interfaces que, de alguma forma, tomam conta de uma componente importante da construção de uma estrutura musical e dão algum grau de liberdade ao utilizador para que ele consiga, mesmo sem treino, criar algo que seja musical. Da mesma forma que o som de um espanta-espíritos é musical mas não é música, qualquer pessoa pode fazer um espanta-espíritos soar musical. Tive de desenvolver este meu projecto a dois níveis: por um lado, criar uma infra-estrutura para que as pessoas pudessem comunicar através de música na Internet; por outro lado, criar um interface, um mecanismo de interacção, que permitisse a um utilizador que não tem experiência ou prática musical, num curtíssimo espaço de tempo, começar a criar algumas texturas que fossem musicais e um diálogo com os outros utilizadores. O projecto é uma tentativa de resposta a este problema, que é muito complexo, muito difícil, e será um tema para experimentar no futuro. Mas este PSOs é a primeira tentativa que fiz para criar um sistema como este. Instalei-o na Internet durante algum tempo, tive um determinado número de utilizadores, tirei as minhas conclusões e depois acabei por instalar este sistema na Casa da Música do Porto, por convite deles: o espaço foi usado como se fosse uma simulação da Internet em ponto pequeno. As pessoas tinham terminais espalhados pelos corredores, não se viam, não se reconheciam a não ser através do interface, mas funcionava em tempo real.

– Hoje em dia partilham-se fotografias e textos na Internet com imensa facilidade, mas o som é mais difícil de partilhar. Para quando uma evolução em que haja uma plataforma de comunicação de som tão comum quanto o Facebook?

A.B. – Não será o objectivo deste projecto, que é um pouco diferente, embora tenha que ver com essa ideia de criar um espaço social de interacção. Mas existem já projectos nesse sentido: o SoundCloud, por exemplo, e o Myspace. O colega que está aqui a trabalhar na Universidade de São José e que veio comigo do Porto [João Cordeiro] está a fazer o doutoramento precisamente com essa ideia de introduzir nas redes sociais já existentes a dimensão do som, das paisagens sonoras, podermos ouvir o nosso ambiente e podermos colocar essa informação na rede social. Acho que é um caminho inevitável – o som tem um papel muito importante na nossa vida, não nos apercebemos dele porque não capta a nossa atenção de forma tão directa quanto a visão. A nossa audição é uma espécie de radar que nos permite identificar se vem algum animal da selva, sem estarmos a olhar para determinado sítio conseguimos perceber que vem um som dali que é perigoso. A nossa percepção é em primeiro lugar visual, porque é para aí que temos a nossa atenção focada, mas é omnipresente em termos do som e é permanente a nossa percepção sonora. Tem um peso muito maior do que estamos habituados a pensar.

– Faz falta sermos educados para o som, para a importância que tem?

A.B. – Há uma confusão muito grande no ensino, sobretudo ao nível do secundário, sobre música e som. As pessoas percebem que a acústica e o áudio são importantes, só que depois remetem todo o treino que existe ao nível do ensino e preparação pré-universitária para a música. E a música é apenas uma das muitas dimensões que o som proporciona na nossa vida. É talvez das mais importantes, mas não é a única. Tudo o que nos rodeia em termos sonoros tem um papel muito importante na nossa vida. Faço muitos exercícios de escuta com os meus alunos, de tentar construir paisagens sonoras, de reconstrução de paisagens sonoras. Isso é fundamental para quem trabalha em audiovisuais – temos de reconstruir a realidade em termos de som.

– O que é que se ensina neste tipo de cursos, atendendo a que a utilização do som é tão vasta?

A.B. – Há duas questões: primeiro, perceber-se que um curso que cruza arte e tecnologia não é diferente no sentido em que os fundamentos conceptuais são aqueles que permanecem para sempre. E isso é igual em todos os cursos universitários. As ideias estruturantes duram-nos para a vida toda. E depois existe uma componente que é prática, muitas vezes laboratorial, que nos permite aprender a trabalhar com algumas ferramentas. Isso é o que, nos dias de hoje, dura menos tempo. Aprendemos a trabalhar com determinado software para fazer edição e quando acabamos o curso o software já pode ser outro. O que é que fica? Ficam os princípios básicos que aprendemos. Os cursos da nossa área não são diferentes das outras áreas. Agora, do ponto de vista da implementação do trabalho que fazemos na área da produção criativa, com recursos digitais, aí de facto há uma mudança de paradigma que talvez não tenha equivalência em todos os outros cursos, que tem que ver com a ideia de aprender fazendo. Admito que noutras áreas do saber seja possível outra abordagem, mas no ensino da arte e da criatividade é muito importante este princípio da prática.

– O som é uma área que nos últimos anos evoluiu muito rapidamente. Há 15 anos, o MiniDisc foi uma revolução; hoje já nem existe. Os CD também tendem a desaparecer. Para quem investiga e trabalha nesta área, como é que tudo isto funciona?

A.B. – Quando começaram a surgir esses dispositivos de gravação, tinha muita importância a questão da qualidade. Aliás, pode estabelecer-se um paralelo com a fotografia e com a imagem em geral. Durante os primeiros anos da revolução digital, as pessoas encaravam estas tecnologias como uma forma de conseguir obter melhor qualidade nos registos. A partir de um determinado momento, a questão passou a ser outra: o que importa realmente hoje em dia não é tanto se um determinado suporte tem uma qualidade que seja aceitável para reproduzir uma realidade física, porque é um dado adquirido que a maior parte dos suportes já têm isso, mas como é que estas tecnologias digitais mudaram o processo produtivo. Por exemplo, na mistura de um álbum os novos processos de edição não linear permitem-nos dar um avanço muito rápido na parte da pós-produção, e conseguimos fazer uma coisa que não era possível até há algum tempo, que é muito rapidamente ter uma ideia, implementá-la com as tecnologias digitais e reagir a ela. Neste ciclo criativo, antigamente havia um período de tempo durante o qual, se calhar, perdíamos de vista a ideia original e reagíamos de outra forma ao resultado. Hoje, as tecnologias digitais reduziram este fosso para nada – podemos ter ideias, implementá-las e reagir a elas quase em tempo real. E esta é a grande mudança de paradigma. Não estou a dizer que é melhor ou pior que o modelo anterior – é diferente.

– Trabalha numa área em que a prática tem uma grande importância. Mas também investiu muito no percurso académico. Como é que surgiu este interesse pela academia e depois se junta também o trabalho enquanto criativo?

A.B. – É um bocado complicado (risos). Aqui há tempos ouvi uma apresentação de Randy Pausch, um investigador da Carnegie Mellon que faleceu há pouco tempo, em que ele dizia: ‘Perguntavam-me muitas vezes como cheguei a catedrático tão rapidamente e eu dava sempre a mesma resposta: telefonem-me sexta-feira à noite para o meu gabinete na universidade que eu digo-vos’. Basicamente, o que ele queria dizer é que só é possível fazer tanta coisa trabalhando muito. A minha opção por este percurso teve que ver com a oportunidade de estar envolvido no projecto da Escola das Artes. A certa altura apercebi-me que tinha a possibilidade de ajudar a criar um curso universitário que gostaria de ter tirado no início dos anos 90 e que não existia. Sempre tive uma apreciação muito grande pela arte e também pela tecnologia. Gostaria de fazer um curso em que estas duas valências pudessem ser paralelas, em que não tivesse de optar por ser engenheiro ou ser artista. Para mim isso nunca fez sentido, sempre me senti as duas coisas e não tenho problema algum em o assumir. Mas no início dos anos 90 as universidades não davam essa opção. Senti que na UCP, com a Escola das Artes e a criação de um curso de Som e Imagem, muito inspirado em exemplos americanos que conhecíamos e com os quais tive contacto, havia a oportunidade de poder contribuir para mudar a vida de muita gente da forma como gostava que a minha tivesse sido mudada. Tenho tentado estabelecer a escola que gostava de ter tido.

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