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O livro de um Portugal “assim-assim” e “assim-não”

Ele chama-se Miguel Aleixo e é “quarentinho e reservado”. Vive em 2018 e sente-se bem no país do “assim-não” em que Portugal se transformou. É “O Moralista”. Ele chama-se Rogério Gomes e não é quarentinho nem reservado. Lança o primeiro romance daqui a uns dias.

Isabel Castro

Rogério Gomes escreve desde que se lembra porque “não tinha jeito para desenhar”. Escreve quase tanto quanto lê, jura. Não estranha, é jornalista. Agora também escritor com obra quase publicada: “O Moralista” está pronto para ser lançado, é apresentado na Fnac de Lisboa a 3 de Maio.

O ‘moralista’ deste romance de estreia vem de um conjunto de personagens, estórias e situações que foi imaginando ao longo de alguns dos seus 37 anos. “A larga maioria delas morre-me ao fim de pouco tempo”, conta. O ‘moralista’ não, ficou. E isto “apesar de ser um tipo aparentemente banal, uma figura que facilmente se dilui no horizonte”. Por isso é que avançou para um romance, “porque se ia construindo uma vivência marcante, porque lhe iam acontecendo episódios que valia a pena contar”.

O romance de Rogério Gomes acontece em 2018, em Portugal, um país “assim-assim”. Tem como protagonista Miguel Aleixo, bancário de profissão, “quarentinho e reservado”, confortável com uma nação que passou a ser o do “assim não!”. É quase tudo proibido: foram revogadas leis como a do casamento entre pessoas do mesmo sexo e interrupção voluntária da gravidez. Não há Educação Sexual nas escolas, a prostituição e a pornografia são coisas muito proibidas.

É neste país que vive Aleixo, que gosta da nova ordem dos acontecimentos. Casa-trabalho, trabalho-casa, mas aos domingos a coisa passa-se de outra maneira, leva a mãe à missa. E é depois do cumprimento das obrigações de filho exemplar que começa a espiar uma colega do banco, antecipa a sinopse. Humor negro e erotismo, promete-se. E mais não se diz.

O tempo de o “O Moralista” ainda não chegou, mas de algum modo existe e Rogério Gomes tem com ele contacto. “Satiriza a realidade com que lido todos os dias, enquanto jornalista. É um escape, uma possibilidade de dar azo à imaginação, ainda que o contexto seja o de um país que é real, de um futuro próximo que é possível.”

A acção podia ser agora mesmo, com as devidas distâncias temporais e jurídicas, não fosse a crise que abafa as outras. “O contexto [de ‘O Moralista’] é o de um Portugal mergulhado numa profunda crise de valores, por isso não podia ser exactamente agora, em que a crise económica subjuga todas as outras. Eu prevejo no livro que esta crise cíclica passa e a outra se agiganta, porque estava latente”, adianta.

O Portugal “assim-assim” de onde parte Miguel Aleixo é que podia mesmo ser o de hoje. Rogério Gomes acha que Portugal é um país “assim-assim” porque os portugueses se vêem dessa forma. Só por isso. E também porque “continuamos a desenrascar soluções para os problemas, sem preocupações éticas, cientes que o chico-esperto se sai quase sempre bem, que a preguiça é aceite como uma revolta e que a inveja substitui, tantas vezes, a ambição”. Mas também este “desenrascanço” – que “é, sem dúvida, uma instituição nacional, a par da saudade” –, existe porque “é o que nós pensamos de nós mesmos, atenção”. Na verdade, “o que realmente somos não é assim tão mau, é assim-assim”.

Miguel Aleixo também anda por aí. “É um homem simples, normal, talvez excessivamente introvertido, mas sim, pode encontrar-se por aí. Ele é, de resto, inspirado por diversas pessoas com quem convivi ao longo dos anos, colegas de trabalho principalmente, em que diluo as vicissitudes e acrescento alguns laivos de ridículo, de anti-heroísmo, de fatalidade.” O protagonista de “O Moralista” nasceu há uma dezena de anos, quando Rogério Gomes exercitava a escrita (e o sentido crítico) num blogue que dava pelo nome de “Substrato”. Aleixo ganhou vida, impôs-se, “como uma erva daninha que volta sempre a crescer”.

“O autor não é conhecido”

O exercício de lançamento do primeiro romance foi um choque para o jornalista da RTP. “Tinha uma ideia do editor muito romântica, como alguém que lia um livro com devoção, e que depois, se gostasse minimamente, sabia levar o escritor a espremer dali o melhor, a livrar-se da ‘palha’, com dicas preciosas que só a experiência, só o facto de poder ‘ler de fora’, permitiriam.” Isso não aconteceu. Ouviu respostas como o tema “não vende”, “o autor não é conhecido”, “a crise não permite arriscar”. Depois houve quem tivesse gostado mas o sexo não está na moda, disseram-lhe. “E atenção que o livro nem sequer é sobre sexo per se, apenas de um contexto político obcecado com a defesa de certos valores que reprimem, entre outras coisas, a sexualidade”, ressalva.

A Fonte da Palavra acreditou e o livro vem aí. Mas ficou a decepção com o mercado livreiro. “O livro, esse objecto de culto e de devoção em que até o cheiro me merece respeito, não passa de uma coisa rectangular exposta em pilhas nos supermercados, entre os vegetais e os brinquedos, ou em livrarias de corredores estreitos em que o top de vendas é exclusivamente ocupado pelas editoras que pagaram mais, em que as prateleiras são decoradas conforme a notoriedade mediática dos ‘autores’”, lança.

Com todo este contexto, as expectativas em relação à forma como a obra vai ser acolhida são comedidas. Ou não – depende da perspectiva. “A coisa que mais oiço é ‘não penses que vais vender mais de dez livros, porque ninguém te conhece’. Provavelmente, é verdade”, admite. “A única expectativa que criei é que o livro há-de chegar à mão das pessoas que o querem ler. Que depois de o descobrirem, o enredo as faça rir, pensar, sonhar, chorar, até.” Que não seja, portanto, um livro “assim-assim”.

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