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Quanto dura um minuto?

“Talvez fosse melhor mostrar como se podem escrever contos de um minuto. Não é uma ocupação complicada, qualquer pessoa que saiba ler e tenha bom gosto consegue aprender e, depois de um pouco de exercício, se tiver uma meia hora livre, senta-se e escreve alguns contos de um minuto. Então, vamos começar.” (pág. 13).

É assim que István Örkény (1912-1979) começa as suas “Histórias de 1 Minuto”. Depois, deixa a receita para aqueles que o quiserem ler, porque há um “modo de usar” este conjunto de contos escrito por um farmacêutico na década de 60 do século XX: “Enquanto esperamos que o ovo esteja cozido ou que o número de telefone que marcámos fique desimpedido, podemos ler um conto de um minuto. Não levantam obstáculos à má disposição e ao nervosismo”. (pág.15).

“Histórias de 1 minuto” lêem-se mesmo num minuto, são ideais para pequenas viagens ou esperas na fila de elevadores. O conto é uma arte e István Örkény dominava-a. Comparava o exercício da escrita à física, a uma certa depuração que nas palavras deve ser feita. Poupava nas letras no desafio quase impossível de, em meia dúzia de linhas, transmitir cenários, personagens, cores, cheiros, texturas. “Estes contos não são curtos porque tenham pouca coisa a dizer, mas, pelo contrário, com poucas palavras querem dizer muita coisa”, disse Örkény. E fica dito.

Os contos de um minuto foram publicados pela Cavalo de Ferro, editora que teve o dom de introduzir no mercado livreiro português autores até então por traduzir, menos conhecidos, mas com qualidade atestada e um rasgo que vai além da fluência literária. István Örkény confirma a regra desta selecção em que ao autor se junta o homem que não se consegue separar. São livros para a história da literatura, Nóbeis que nunca hão-de ser mas podiam.

Örkény não foi um escritor vulgar. Nascido em Budapeste, passou pelo fascismo e pela guerra, aspectos que o influenciaram enquanto autor – fará parte do vasto conjunto de escritores europeus que, jovens adultos no período 1939-1945, transpuseram inevitavelmente o que viveram para a obra que construíram a partir de então.

Até aos anos 60, este farmacêutico húngaro não produziu em quantidade. Os textos mais antigos datam dos meados da década de 30, mas é depois da guerra que se afirma como autor. Consegue encontrar um registo muito próprio, tom esse que passa em 60 segundos apenas, em “Histórias de 1 Minuto”. A edição da Cavalo de Ferro vem acompanhada de um prefácio que permite ao leitor ficar a saber quem é Örkény – o resto percebe-se depois.

Regressemos ao “modo de usar” para outra recomendação do escritor: “É muito importante dar atenção aos títulos”. Há títulos dos contos que oferecem uma continuidade entre eles, outros sem os quais é impossível perceber o conto. São títulos irónicos, perspicazes, como irónica é a forma de escrita de István Örkény, politicamente inconveniente e politicamente sagaz. Esta reunião de escritos – onde se inclui, com o subtítulo “Outro Contos”, sete outros textos das décadas de 40 a 70 – está cheia de mensagens que podem ser lidas a qualquer altura. Exemplo: “Sondagem à opinião pública” (pág. 117). Revelamos os resultados: “1. Nos últimos vinte anos tudo tem sido o melhor possível. 2. Agora também é tudo bom, só que o autocarro nº. 19 circula raramente. 3. O futuro vai ser ainda melhor, caso o autocarro nº. 19 passe a circular com mais frequência.” (pág. 118). Há realidades que duram bem mais do que um minuto.

Histórias de 1 Minuto – István Örkény, 2004

Isabel Castro

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