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A integração pelo jazz

O Festival Internacional de Jazz de Beishan chega este ano também a Macau. Serão dois dias de concertos por toda a cidade em Setembro, anuncia Jean Jacques Verdun, organizador da mostra de Zhuhai.

Maria Caetano

– Em 2010, a Delta Bridges associou-se ao Beishan Hall para realizar um festival internacional de jazz em Zhuhai. A iniciativa foi bem-sucedida? Vale a pena repeti-la este ano?

Jean Jacques Verdun – Devido ao esforço de marketing que é necessário para fazer com que um evento tenha sucesso, não compensa realizá-lo apenas uma vez. A maioria das coisas que organizamos são pensadas para se manterem a longo termo. Nos festivais de Beishan, decidimos à partida que íamos organizar dois eventos por ano: um de jazz, no Outono, e outro de música do mundo, na Primavera. Apenas se um dos eventos fracassasse gravemente reconsideraríamos a repetição. Felizmente, o Festival Internacional de Jazz de Outubro atraiu uma boa multidão (uma média de 700 pessoas por noite) e o Festival Internacional de Música do Mundo, este mês, correu ainda melhor com uma média de 1500 pessoas por noite. Além disso, neste segundo festival tivemos mais patrocínios e mais apoio do governo local. Ou seja, sem dúvida que é para repetir.

– Qual é o alinhamento para o segundo festival de jazz?

J.J.V. – O Festival de Jazz de Beishan vai acontecer na última semana de Setembro. Estamos ainda a trabalhar no alinhamento e a lista final será divulgada a 15 de Maio. À semelhança do que aconteceu no festival anterior, incluirá músicos profissionais de qualidade com boa reputação no respectivo país, ainda que não tenham alcançado um patamar de fama internacional.

– Estão a pensar num programa satélite para Macau?

J.J.V. – Estamos muito satisfeitos com o interesse manifestado pelo público de Macau nos nossos festivais de Beishan. Os eventos receberam boa cobertura pelos media e muitos residentes de Macau fizeram o esforço de atravessar a fronteira para assistirem aos concertos. Há claramente uma procura por música ao vivo, especialmente por jazz, que ainda não tem resposta. Sei que houve em tempos uma cena de jazz em Macau, que por algum motivo parou nos anos 1990. Por isso, para nós faz sentido alargar os nossos festivais a Macau – ou, pelo menos, o de jazz.

– A que tipo de concertos é que Macau vai poder assistir?

J.J.V. – Isso ainda não está decidido, mas a ideia é ter diversos concertos em diferentes locais de Macau ao longo de dois dias, a que se seguirá o festival também de dois dias em Beishan.

– O investimento em Macau este ano vai traduzir-se na organização de mais concertos aqui?

J.J.V. – Vamos começar agora com o jazz e, caso corra bem, poderemos fazer o mesmo com o festival de música do mundo. Temos também em mãos um outro evento de música chamado San Jiao Ling, que vai espalhar-se a toda a zona do Delta – abrangendo, por isso, também Macau. Será uma grande operação a ser lançada em 2012. A ideia de base é fazer o oposto do que sucede com os festivais de Beishan: em vez de trazer músicos de fora à China, o objectivo do San Jiao Ling será o de encontrar, expor e exportar talentos locais.

– A continuidade dos festivais de Beishan é um indicador de que os públicos para a música ao vivo estão a ficar mais exigentes?

J.J.V. – Guangdong foi a primeira província chinesa a abrir-se ao mundo, há mais de trinta anos. Recentemente, o comité central do Partido Comunista referiu que a província deve começar a segunda fase de abertura baseando-se nas indústrias culturais. E, de facto, há hoje no Delta uma classe média com dinheiro para gastar em recreação. De uma forma geral, a maioria da população chinesa gosta de experienciar coisas novas e tem sede de descobrir culturas de outros países. Daí que entenda que a música ao vivo em Guangdong tem imenso futuro. Quanto a Macau, entre as actividades artísticas que são organizadas pelo governo local e os espectáculos que a indústria dos casinos oferece, há um segmento do mercado de recreação – os festivais de música – que não está totalmente explorado e que definitivamente tem potencial.

– A Delta Bridges tem-se focado na informação para expatriados e empresas, com uma página electrónica e, recentemente, um guia das cidades do Delta. Mas este tipo de oferta, ao nível musical, não se destina apenas ao público não chinês, certo?

J.J.V. – A questão dos media ainda é um assunto muito sensível na China e por essa razão as nossas plataformas são na maior parte em inglês e a visar os estrangeiros. Estes festivais permitem-nos de facto chegar também ao público chinês, daí que os nossos patrocinadores possam chegar a uma clientela maior. No entanto, a ideia de começar os festivais não serve apenas propósitos comerciais. Para viver e fazer negócio na China, é necessário ser pioneiro. O país ainda está em desenvolvimento e, quando falta alguma coisa, há a oportunidade de sermos nós a fazê-la. Eu sentia falta de actividades culturais em Zhuhai e por isso comecei a organizar festivais de música.

– Qual será o próximo passo?

J.J.V. – Continuar a trabalhar para que estes festivais sejam um sucesso cada vez maior. Alguns governos locais de outras cidades, como Dongguan e Zhongshan, pediram-nos que organizássemos actividades semelhantes para eles. Estamos a pensar nisso. Podemos duplicar os eventos ou concentrar esforços na área Macau/Zhuhai, chamando pessoas de outras cidades a participarem. As infra-estruturas de transportes estão a desenvolver-se rapidamente, o que significa que é cada vez mais fácil viajar entre as cidades do Delta.

– Zhuhai e Macau estão lado a lado, mas pouco passa a fronteira em termos de oferta cultural. A que é que isso se deve?

J.J.V. – Infelizmente, a fronteira ainda não está aberta 24 horas por dia e, por isso, não é fácil que as pessoas a atravessem. As filas de espera aos fins-de-semana ainda fazem com que muita gente evite participar num evento que aconteça do outro lado. Outra das razões é que às vezes às pessoas não estão simplesmente ao corrente do que se passa na porta ao lado. A intensificação da cooperação entre diferentes grupos de media pode ajudar a prevenir esta situação no futuro. E, mais cedo ou mais tarde, tal como entre Hong Kong e Shenzhen, a fronteira ficará aberta em permanência. Basta estar preparado para quando isso acontecer.

– Acha que o futuro vai trazer maior integração da oferta cultural? Eventualmente, um público comum?

J.J.V. – Do ponto de vista económico, as duas cidades já partilham um grande número de recursos e são complementares em vários aspectos. Costumo dizer o seguinte, que não é cem por cento preciso: aquilo que Macau tem Zhuhai não tem, e o que existe em Zhuhai não há em Macau. Em termos de actividade cultural, Simon Xue, o meu parceiro e o cérebro por trás dos festivais de Beishan, diz com sapiência que ambas as cidades têm a ganhar com a partilha de recursos. Concordo inteiramente. Será uma questão de tempo até estarmos perante um público comum que toma parte em eventos em Macau e Zhuhai.

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