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Presos pelo estômago

Há dois tipos de homens. Os que sabem cozinhar e os que não sabem. Os que sabem têm normalmente um trunfo de sobra no romance. Mais ou menos decisivo, consoante o acerto no tacho. Todos conhecemos a história. O tipo convida para jantar, faz bonito com a mesa bem-posta, capricha no tempero, abre a melhor garrafa de vinho. Um homem com as mãos na massa tem sempre aquele encanto – convém é que a massa fique no ponto.

A história de Nonato (João Miguel) e de “Estômago” é bem menos romântica que isto. Não tem luz das velas nem Air, Massive Attack ou Chico Buarque a sair baixinho das colunas, não tem copos de pé alto a retinir noite dentro e cigarros fumados com parcimónia. O que tem é uma coxinha de frango bem oleosa que é uma delícia e um desgraçado zé-ninguém que dorme no quarto dos fundos e sabe fazê-la como poucos.

De cozinheiro de boteco, Nonato depressa passa para um restaurante granfino, cheio de italianices e pratos dos quais não percebe sequer os nomes. “A cozinha é uma arte”, diz-lhe ‘Seu Giovani’ (Carlo Briani), o chef que há-de ensinar-lhe a nata da gastronomia – da importância de uma garrafa de vinho deitada à definição de filet mignon: “Que nem a bunda é na mulher, o filet mignon é o melhor do boi”. E logo vamos ver que o simples e ignorante rapaz do interior do Brasil tratará de levar a coisa muito ao pé da letra. Como alguns levam a Bíblia.

O filme, que se fartou de ganhar prémios no Brasil, desenrola-se entre a ‘finesse’ do restaurante italiano, a vida de rua da cidade e a clausura do presídio onde Nonato acabará por ingressar. Também aí, no meio da putrefacção que se acumula em todos os cantos da cela e onde manda a lei do mais forte, o franzino cozinheiro há-de conquistar lugar, amarrando os que o rodeiam pela boca, prendendo-os pelo estômago.

Temos então a cozinha contra a ignorância, a cozinha contra a estratificação social e, em última análise, a cozinha contra a violência, como um sedativo que amansa o bandido mais feroz. E o mais alarve de todos é Bujiú (Babu Santana), predador com cara de bulldog, ruim até à medula. Nada que uma bela ‘bóia’ de comida não trate de resolver. Até de sentenciar.

“Estômago” é um filme que devia ser visto de faca e garfo, tal a vontade que nos dá de comer. O realizador Marcos Jorge faz bem o refogado aqui, leva ao forno ali, e nunca exagera no sal. Os actores fogem sempre ao lume brando mas a refeição que nos servem nunca sai esturricada.

Acompanhamos a história de um homem frágil que usa o dom da mão que tem para a cozinha como muleta e como arma, consoante a ocasião. É o talento da panela que lhe permite arranjar um tecto quando está em liberdade, sobreviver na choldra quando está em cativeiro e conseguir os favores da carnuda Iria (Fabiula Nascimento), a tal que – fosse Nonato um rapaz de outros modos e romantismos – teria convidado para jantar no escurinho das velas. Porque Iria gosta de homens, mas gosta ainda mais de comida.

Estômago – Marcos Jorge, 2007

Hélder Beja

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