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Retomar o swing

O jazz está de volta à cidade. Um grupo de músicos procura espaço para o improviso e para fazer renascer os dias do swing, do bebob e da fusão. A Associação de Promoção do Jazz de Macau foi formada no ano passado e já tem membros para formar uma big band, conta Mars Lei.

Maria Caetano

 

– A Associação de Promoção de Jazz de Macau foi criada no ano passado. O que é que vos fez dar este passo?

Mars Lei – Naturalmente, todos gostamos de jazz. Eu sou maestro de coros e vocalista, outros dos membros tocam metais de sopro. Na verdade, vimos todos de um contexto clássico. Mas, por outro lado, também gostamos de música jazz e, por sorte, reunimo-nos. No início, éramos apenas cinco ou seis. Tínhamos um pequeno conjunto para actuar. Na nossa primeira apresentação, que decorreu na Fantasia 10, éramos só quatro e tivemos alguns músicos clássicos a tocar connosco. Mais tarde, juntaram-se a nós mais alguns instrumentistas e conseguimos formar uma big band, de entre 15 a 16 membros. Temos cada vez mais gente.

– Verificou-se que havia afinal muitos músicos com vontade de tocar jazz?

M.L. – Sim, e a maioria é composta por estudantes, músicos amadores.

– E sentiram que as pessoas de Macau estavam à procura de uma oferta mais diversificada oferta de concertos?

M.L. – Estamos a expandir o público. Em Abril, fizemos quatro noites de sábado no Macau Soul, o que nos ajudou a reunir um bom grupo de público estrangeiro – não apenas portugueses, mas também de outros sítios, e sobretudo americanos que apreciam muito jazz. Em sítios como esse conseguimos alargar o nosso público. Tivemos alguns contactos com a malta do Clube de Jazz, que são bastante mais velhos que nós. Têm 50 ou até 60 anos. Temos uma óptima ligação com eles. Mas, francamente, a música jazz em Macau está parada há perto de dez anos, desde a transferência de Administração até agora. Penso que há mais potencial de público em Macau, mas precisamos de algum tempo para explorar e para o reaproximar.

– Falou do Clube de Jazz de Macau. Tem algumas memórias dessa época, de frequentar os concertos?

M.L. – Na altura éramos estudantes e lembro-me de irmos à casa de vidro junto à estátua de Kun Iam. Mas depois deixou praticamente de haver actividades. Tivemos uma longa conversa sobre isso com um dos fundadores, o Miguel Campina, que nos contou das dificuldades que enfrentaram – sobretudo depois da transferência de Administração. O Governo deixou de dar apoio e muita da população portuguesa estava de partida. Era um trabalho difícil.

– Falou-me dos públicos português e americano. Os vossos concertos têm um público chinês local também?

M.L. – Ainda estamos no ponto de convidar amigos. Há um público chinês amador do jazz, é verdade. Mas é algo muito pouco popular na cena local. Estamos a tentar chamar os nossos amigos, levá-los a ouvir a música. Em alguns deles teve grande efeito. Começaram a ouvir alguns estilos mais populares de jazz, o que é de qualquer forma um bom começo.

– Os membros da associação são todos eles músicos?

M.L. – Na maioria são músicos e estudantes de música. Há uma ou duas pessoas que nos ajudam. Eu, por exemplo, toco e também faço a gestão da associação, procuro patrocínios. Ainda é tudo um pouco difícil, mas estamos bem.

– Com esta associação o que procuram sobretudo são oportunidades para tocar? Ou também procuram a divulgação do jazz?

M.L. – Sim, queremos tocar. Tentamos manter-nos a tocar em sítios diferentes. Mas de cada vez que convidamos uma banda procuramos também que haja alguma palestra, chamando por exemplo críticos de música de Hong Kong para que venham a Macau ajudar a promover a apreciação do jazz. Também queremos organizar alguns cursos, porque  a maioria dos alunos de música de Macau tem uma formação clássica nas escolas e no Conservatório. Queremos criar oportunidades para que pessoas interessadas no jazz, com uma técnica clássica, possam gradualmente tornarem-se músicos de jazz se assim o desejarem.

– Fale-me do trio que convidaram para actuar em Macau, os WVC.

M.L. – Eles são chineses da Malásia. São uma das bandas de jazz contemporâneo com reputação na Ásia. O pianista deles é um músico verdadeiramente profissional que estudou nos Estados Unidos e depois regressou à Malásia para começar a carreira. O que o torna tão famoso é que ele integrou uma banda, chamada Unit Asia, que é maioritariamente constituída por músicos japoneses. Os músicos de jazz japoneses estão a um nível realmente bastante elevado na Ásia. Em conjunto com um dos principais bateristas japoneses, esteve em digressão pelo mundo inteiro, mas mesmo inteiro – estiveram inclusivamente no Médio Oriente, segundo sei. Este trio é um projecto próprio. É na verdade um trio mais um, porque convidaram um saxofonista a tocar com eles. Agora são quatro músicos. No ano passado, estiveram em digressão em oito ou nove cidades da China e este ano decidiram expandir os concertos. Começaram em Pequim e têm corrido o país de norte a sul nas últimas duas semanas. A última paragem será Macau. O som deles é muito contemporâneo e comporta uma mistura de diferentes estilos, da música latina aos ritmos brasileiros. Escrevem as próprias canções, o que os torna muito especiais.

– Este é o primeiro projecto internacional que trazem a Macau. Têm planos para o fazer mais vezes?

M.L. – Queremos trazer mais bandas boas a Macau. Queremos que as pessoas oiçam boa música, naturalmente. Para nós, como músicos amadores, é também uma oportunidade de aprender com eles. Há muito para aprender quando se vê um músico actuar. Claro que não é fácil, acabamos por precisar de pedir apoios ao Governo e organizar este tipo de actividade envolve muito dinheiro. Há o transporte, o alojamento num hotel, e outras coisas. Vamos tentar desta vez e ver como é que o público reage. O que mais nos preocupa é a resposta que possa haver por parte do público. É o mais importante.

– Foi fácil arranjar um local para o concerto?

M.L. – Nunca é fácil em Macau, como é de calcular. Mas na verdade não foi demasiado difícil desta vez. Normalmente, não é nada fácil encontrar espaços para praticar ou para tocar. Este é um espaço ao ar livre, e pode acontecer que chova. Mas, além do anfiteatro das casas-museu, só seria possível ter o Centro Cultural ou outro local semelhante. O Centro Cultural está sempre cheio, do início ao fim do ano. E também não é o sítio perfeito para o jazz, porque o público teria de estar sentado a ouvir. Queremos um espaço mais livre, que permita às pessoas circular, tomar uma bebida. Mas não é fácil encontrar espaços com estas características em Macau – ou são  demasiado pequenos ou não são populares junto do público.

– Disse-me que têm uma big band. Tocam regularmente?

M.L. – Não é muito frequente tocarmos com a big band. Mantemos um conjunto com alguns membros. A big band exige muito espaço. Eu ensino no Conservatório e às vezes, à noite, vamos para as traseiras do Conservatório e praticamos um pouco antes dos concertos. Mas não é uma solução muito prática para tocar frequentemente. Também queremos organizar algumas jam sessions. Há um bar na Taipa, o Portal, com o qual queremos falar. Eles costumam ter jam sessions à terça-feira. Mas não é muito fácil aos estudantes participarem, porque precisam ainda de melhorar a técnica e os conhecimentos – em especial, no improviso. Ainda não é assim tão fácil para eles.

– Qual é o vosso repertório?

M.L. – Tocamos principalmente standards, de Duke Ellington e outras peças assim antigas. É mais fácil para o público e também é mais fácil para nós tecnicamente.

– Acha que há espaço para uma cena jazz em Macau?

M.L. – Claro que há. Já existia nos anos de 1980 e 1990, quando a malta do Clube de Jazz fez realmente um bom trabalho. Tiveram um dos primeiros festivais de jazz da Ásia. Estava tudo lá. Como Macau é no fundo uma cultura do Oriente e do Ocidente é algo que é possível. O jazz é em si uma cultura muito híbrida, onde o Brasil e a bossa-nova se encontram com os ritmos ciganos e outras sonoridades étnicas para criarem algo de novo. Estamos muito felizes por ver que é algo que está a crescer em Macau.

– Estão à procura de um renascimento?

M.L. – Sim, de alguma forma é isso. Espero que sim.

Casas-museu com jazz

O WVC Trio + 1 actua na próxima semana, dia 8 de Maio, no anfiteatro das Casas-Museu da Taipa, a partir das 18h. O concerto de duas horas, organizado pela Associação de Promoção de Jazz de Macau, traz ao território um dos principais grupos de jazz da Malásia, liderado pelo pianista Tay Cher Siang. O conjunto foi criado em 2004 com três elementos, hoje quatro, e  conta já três trabalhos discográficos com temas originais. Na noite do concerto, a Caritas – que apoia a iniciativa – irá também realizar uma campanha de angariação de fundos destinados às vítimas do sismo japonês de 11 de Março e para o apoio das camadas sociais mais desfavorecidas do território. A entrada é livre.

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