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“O museu deve criar uma história viva”

Com 13 anos de vida, o Museu de Macau mantém o propósito de ser uma casa de memórias vivas. Chan Ieng Hin, o director, fala da necessidade de renovação e de criar novos espaços. A instituição quer crescer.

Maria Caetano

 

– Depois de tomar posse como director do Museu de Macau estabeleceu como objectivo fazer desta uma instituição mais académica. Que progressos alcançou?

Chan Ieng Hin – Estou no Museu de Macau desde 2005 e desde então a nossa política é a do trabalho académico, é a nossa principal tarefa. É possível constatar nas nossas exposições temporárias que estamos a crescer no que diz respeito à investigação sobre Macau. Vamos também renovar a nossa exposição, textos incluídos, com base nas investigações que fazemos.

– Quais são as vossas principais áreas de investigação?

C.I.H. – No fundo, é a história de Macau. Por isso, a pesquisa deve ser muito cuidada. Estamos a fixar algo, é importante que esteja totalmente correcto. Mesmo para o mais pequeno dos textos, é necessária uma grande dose de investigação que o apoie.

– Quem são os vossos investigadores e em que áreas trabalham?

C.I.H. – São na maioria colegas do museu. Queremos que toda a gente se dedique à investigação de um tema e peço a todos que investiguem quando manifestam curiosidade sobre alguma questão. Cada investigador tem a sua própria área. Há quem tenha interesse em história, em museologia, outros em educação e conservação. Também quando preparamos uma exposição temporária, há um trabalho especial de investigação. Por exemplo, sobre Sun Yat-sen, Zheng Guanying ou George Chinnery. Temos duas orientações. Uma equipa dedica-se à história da China, recolhendo informação sobre a documentação chinesa. Outra equipa investiga sobre a história do Ocidente, de Portugal e de outros países da Europa.

– Em que áreas é que o Museu de Macau é mais forte em termos de investigação?

C.I.H. – Na verdade, ainda não somos muito fortes. Esperamos que todos se possam concentrar nesta tarefa.

– Estabelecem algum tipo de cooperação com as universidades de Macau?

C.I.H. – A nossa colaboração tem que ver com o património intangível e envolve professores da Universidade de Macau, do Instituto Politécnico e do Instituto de Formação Turística.

– Embora esteja na direcção do museu apenas desde 2005, acompanhou antes o seu estabelecimento. Como vê o desenvolvimento desta instituição?

C.I.H. – Este é ainda hoje um museu muito diferente dos museus tradicionais. O arquitecto [Carlos] Moreno fez um óptimo trabalho ao criar um museu totalmente diferente, que na sua criação estava no topo das instituições da área. Treze anos depois precisamos de alguma renovação. Devemos aperfeiçoar-nos, mas de uma forma que ainda acompanha a ideia geral do arquitecto.

– Como é que essa actualização vai ser feita?

C.I.H. – Adoptando nova tecnologia. Na verdade, já mudámos algumas coisas, mas é algo em que o público não repara.

– O que é que já foi alterado exactamente?

C.I.H. – Mudámos completamente o nosso corredor do tempo, incluindo textos, conteúdos e formatos. Mas como ainda seguimos a ideia geral de disposição foi algo aceite por todos. Por exemplo, algumas datas não eram precisas e foram informações que corrigimos.

– Ao longo destes anos o Museu de Macau tem sido capaz de atrair mais pessoas?

C.I.H. – Nos últimos anos o número de visitantes tem aumentado gradualmente, porque temos tido muitas iniciativas. As exposições temporárias são importantes para que a população local possa cá voltar. Além disso, temos renovado a exposição permanente. É bom para as escolas, que assim podem realizar algumas aulas no nosso museu. Temos hoje guias à disposição, quando antes eram reservados apenas a convidados especiais. Não digo que tenhamos o melhor museu de todos, mas será o melhor museu de Macau.

– O museu forma os próprios guias. Os cursos são dirigidos apenas aos funcionários?

C.I.H. – São para toda a população local.

– Há muitas queixas em relação ao serviço prestado pelos guias turísticos de Macau. Concorda?

C.IH. – Os nossos guias são diferentes dos das agências de turismo. Nós fornecemos informações mais precisas. Os outros guias podem brincar e dizer o que lhe apetecer. Nós temos de agir como uma escola. É muito importante explicar aos nossos alunos a responsabilidade de prestar a informação correcta.

– Têm capacidade para formar para outras instituições e entidades privadas?

C.I.H. – Já ponderámos sobre isso, mas ainda não encontrámos um parceiro que possa assumir essa tarefa. Talvez mais tarde exista uma universidade com capacidade para prestar este serviço. Seria melhor para nós, porque usamos imensos recursos humanos nestes cursos. Os nossos funcionários têm de leccionar em diferentes cursos e também convidamos académicos de Macau, Hong Kong e do Continente.

– Referiu que a organização de exposições temporárias é um meio importante de fazer com que a população volte ao museu. Entre os visitantes, qual é a proporção de locais?

C.I.H. – Uma das nossas políticas é a de ter entradas gratuitas para residentes ao domingo, mediante a apresentação do bilhete de identidade. É quando temos o maior número de visitantes locais. Na nossa exposição permanente, mais de metade dos visitantes são turistas. Os residentes representarão pouco mais do que 20 por cento. Mas é difícil saber. Quando os visitantes pagam a visita, não os contamos como residentes.

– Quantas exposições temporárias o museu realiza por ano? Talvez duas ou três?

C.I.H. – Sim. Infelizmente, não temos mais espaço para exposições temporárias. Apenas podemos usar uma pequena área. Se a exposição for maior, isso obriga-nos a encerrar um andar do museu. Não é muito conveniente.

– E não é forma expandir as instalações.

C.I.H. – Exacto. Estamos no centro histórico. Não podemos mexer em nada. É o problema com que nos deparamos.

– Há a possibilidade de serem criadas instalações fora do museu para mais espaço de exposições?

C.I.H. – Espero que possamos ter esse espaço. Tenho vindo a pensar nisso. Talvez aqui perto seja possível criar uma nova área para exposições temporárias.

– Já há planos para isso?

C.I.H. – É só uma ideia, mas espero que a população conheça a nossa situação e a nossa necessidade de espaço.

– Foi feita alguma proposta nesse sentido ao Governo?

C.I.H. – Sim, já foi entregue uma proposta. Mas o Governo tem de equilibrar o pedido com outras solicitações. Não é só o Museu de Macau que precisa de espaço.

– Qual seria o espaço ideal para as exposições temporárias do Museu de Macau?

C.I.H. – Não precisava de ser muito grande. Bastavam-nos mil metros quadrados.

– Em zona próxima?

C.I.H. – Sim, ligado às nossas instalações. Seria mais conveniente do ponto de vista da gestão.

– Há uma localização específica em vista?

C.I.H. – Ainda não.

– Neste momento está já a ser preparada uma exposição sobre a Revolução Xinhai, cujo centésimo aniversário se comemora este ano.

C.I.H. – Sim, está a ser preparada para Setembro. Estamos a escrever o guião e já concluímos o plano educativo. Produzimos um conjunto de dez cartazes com informação de contexto sobre a Revolução Xinhai. Devemos publicá-los este mês. Tenho comigo a versão chinesa.

– Também haverá uma versão portuguesa? Ou inglesa?

C.I.H. – Não sei se houve alguma solicitação da comunidade portuguesa ou de outras. Queremos que nas escolas os alunos conheçam a própria história, sobretudo a figura de Sun Yat-sen.

– Que conteúdos terá a exibição?

C.I.H. – O enfoque será mais local, como é nossa tradição. Vamos concentrar-nos em Sun Yat-sen e em Macau. Visitámos várias organizações, entre estas o Arquivo Histórico e a Biblioteca Central, além do Hospital Kiang Wu, onde Sun Yat-sen foi o primeiro clínico de medicina ocidental. Visitámos também vários museus no exterior, cerca de 20, localizados em Xangai, Cantão, Zhongshan [terra natal do revolucionário e primeiro Presidente chinês], Taipé, Hong Kong, e outros lugares.

– Algum do espólio desses museus virá a Macau?

C.I.H. – Em princípio, sim.

– O Museu de Macau tem colaborado nas investigações sobre a Farmácia Cheong Sai, que se acredita ter pertencido a Sun Yat-sen?

C.I.H. – Não estamos directamente envolvidos. Mas também recolhemos alguma informação. Até aqui, ainda não é muita.

– Que tipo de rede é que o Museu de Macau tem para cooperar com outros museus e instituições?

C.I.H. – Há algumas instituições que colaboram connosco desde há cinco ou seis anos. É o caso da Biblioteca de Xangai, com quem publicamos anualmente um livro. É uma relação a longo prazo. Eles também vão emprestar-nos alguns conteúdos muito importantes para esta exposição. Também vamos ter peças de Taipé, Shenzhen e Hong Kong. E de Macau há algumas informações que vão ser pela primeira vez exibidas.

– Colaboram também com instituições portuguesas que têm colecções de Macau?

C.I.H. – Já realizámos alguns seminários e outras actividades.

– Os museus têm um papel a desempenhar no que diz respeito à intenção de um fortalecimento das relações culturais entre a China e os países de língua portuguesa?

C.I.H. – Já temos algum relacionamento com países europeus. Colaborámos nalgumas exposições com a Suíça, com a França, com a Inglaterra. O Próximo alvo é Portugal. Na verdade estamos já a planear nesse sentido. Esperamos num futuro próximo colaborar com museus e instituições portugueses.

– Uma outra das tarefas do Museu de Macau é a criação de uma lista de património cultural imaterial. É um trabalho difícil?

C.I.H. – É um trabalho bastante difícil porque temos pouca experiência nesta área, que é também muito extensa. Talvez seja algo um pouco acima dos nossos conhecimentos, na minha opinião pessoal. Mas é uma tarefa muito importante. A cultura intangível é a nossa memória. É preciso proteger a memória da nação e da comunidade. É o nosso garante da diversidade cultural.

– Já há vários itens na lista. Quais são as prioridades actualmente? Querem alcançar uma lista absolutamente exaustiva ou há objectivos específicos?

C.I.H. – Não depende de nós. Contamos com o apoio da comunidade. Felizmente, desta vez recebemos dois projectos da comunidade macaense e outros dois da comunidade chinesa. Temos as candidaturas do teatro em patuá e da gastronomia macaense. Antes faltava-nos a parte da comunidade portuguesa. Isto é muito importante para a nossa diversidade cultural. Se faltar esta parte não estaremos completos.

– É um processo simples levar a que os itens de Macau sejam listados como património nacional?

C.I.H. – O primeiro passo é ter uma lista de património intangível de Macau. Depois, podemos candidatar-nos à lista nacional, e de seguida à UNESCO. Já temos um projecto na UNESCO, a ópera cantonense. Queremos ter outro.

– A candidatura da ópera cantonense era um projecto tripartido, envolvendo Macau, Hong Kong e Guangdong. Quando Macau se apresentar sozinho numa candidatura poderá ser mais difícil ter sucesso?

C.I.H. – Podemos fazer o nosso melhor. Mesmo o teatro e a gastronomia macaense têm um impacto mundial. Há hipóteses.

– A memória de Macau está bem salvaguardada?

C.I.H. – A memória tem sobretudo que ver com o património intangível. É algo de vivo que mantemos connosco hoje. Isso é muito importante para o nosso museu. Temos um posicionamento especial, porque estamos no centro histórico, temos património cultural edificado, móvel e intangível.

– Perguntava-lhe se a memória está a salvo, porque Macau parece não ter uma grande tradição de escrever e contar a sua história. Nas escolas, durante anos, os alunos aprendiam ora a história chinesa ora a história portuguesa, e não a história local.

C.I.H. – Tenho a ideia de coleccionar alguns documentos, objectos e memórias, que devem estar dentro do museu. Estão já na lista da proposta da Lei de Salvaguarda do Património Cultural. Só um museu pode manter este material e conservá-lo para fins educativos.

– De que tipo de materiais está falar?

C.I.H – São documentos, registos de sons, objectos. O museu deve criar uma história viva e exibi-la junto do público. Essa deve ser a tarefa de um museu.

– Mas acha que ao longo dos anos em que não houve um trabalho historiográfico poderão existir partes da história de Macau que se perderam, ou ainda há forma de as recuperar?

C.I.H. – É certo que não dispomos de muitos documentos. Relativamente ao período após a chegada dos portugueses temos muita informação. De antes, há pouca.

– Esse período está perdido em termos históricos?

C.I.H. – É importante que esse período possa ser visto, tocado, sentido. Esse é o meio mais útil para que a população possa conhecer a história de Macau. Mas julgo que não há um vazio total, só ainda não o descobrimos. Sei pelas notícias que a Universidade de Macau criou uma disciplina sobre a história local. Isto é importante e talvez algum académico possa investigar mais e possamos ter mais informação. Penso que isso acontecerá. O problema é não haver gente para fazer esse trabalho.

– A memória está sempre associada à formação da identidade das comunidades. Na fase em que nos encontramos, considera que a identidade local é forte?

C.I.H. – Talvez por Macau ter uma grande população flutuante se possa pensar que a identidade de Macau é mais fraca. Mas a história de Macau é a população flutuante – isso é certo. As pessoas que vivem em Macau são diferentes das outras, mesmo que tenham iguais origens. Porque Macau é uma zona especial de coabitação de 500 anos. As diferentes comunidades apresentam a mesma característica, que é o respeito pelo outro, a tolerância. Há diferentes culturas, religiões e crenças. Como é que estas diferenças convivem em segurança, quando há tantos conflitos noutras partes do mundo? A população de Macau criou uma fórmula e apercebeu-se que esta fórmula é a do respeito mútuo.

– É a principal característica de Macau?

C.I.H. – Sim. A população chinesa que chega a Macau aprende a respeitar as crenças dos outros. Acho que com os portugueses acontece o mesmo, e com todas as outras comunidades. Este é o valor universal de Macau. Mas talvez porque aqui estamos não nos demos conta.

– Falou da nova Lei de Salvaguarda do Património. Está um pouco atrasada, já que devia ter entrado na Assembleia em Setembro. A que é que se deve este atraso?

C.I.H. – Entendo que é um processo necessário. Da nossa parte, já entregámos e o Instituto Cultural também. Os Serviços de Assuntos de Justiça têm de se certificar que a proposta não está em conflito com outras leis. Este procedimento é essencial. Se formos apressados pode haver problemas.

– Até onde é que se devem estender as fronteiras da conservação do património?

C.I.H. – Não queremos expandir, mas seleccionar algumas coisas importantes. O mesmo acontece com o património intangível: não queremos classificar tudo, mas apenas aquilo que é muito importante, porque é consensual que tem o valor para ser protegido.

– Quais são os bens mais valiosos a proteger?

C.I.H. – O património cultural com maior representatividade.

– Esperava que me pudesse dar alguns exemplos.

C.I.H. – Naturalmente, as Ruínas de São Paulo, porque é algo com que todos concordam. No património intangível, a gastronomia macaense, porque também todos acham bem.

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