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Fantasmas, fantasias e amor

José Drummond

“Visage”, de 2009, é um filme de Tsai Ming-liang, realizador de Taiwan. Os seus filmes, especialmente os últimos, são compostos com universos paralelos. Uma realidade banal e uma outra que se abre dentro dela.

O outro universo pode ser, dos musicais, da água, da neve e dos espelhos, da Europa, ou mesmo de fantasmas. Uma característica do realizador que compõe as suas obras na forma de como esses outros mundos se cruzam para uma realidade de amor. Para o namoro de dois corpos que se cruzam na noite. Para amantes desconhecidos que quase não se falam. Momentos suspensos no tempo em protótipo de tributo constante ao cinema.

O filme, que se passa em Paris, funciona ou não, como evidência visual, como uma figuração da teoria da cinematografia e da arte executada como desempenho total da ideia. E esta, como sempre em Tsai, é de pessoas que tentam isolar-se em mundos paralelos e de como estes mundos paralelos explodem dentro de uma qualquer realidade.

A contaminação, quase sempre de índole sexual, no rebentar de um cano na cozinha, no estouro de embalagens de alimentos, explode para outro universo onde se somam latentes conexões de carácter metafísico ou simbólico.

Os motivos e os personagens são os vasos comunicantes destas realidades. Em “Visage” os espaços parecem não se comunicar como anteriormente, antes funcionam como organismos complexos. Um apartamento alagado, um décor de filme, tantas casas e quartos, o cemitério que acaba numa paisagem gelada em tom de sonho espelhado onde se multiplicam percepções. Cada plano é quase auto-suficiente do resto, e cada um funciona numa real paragem do tempo narrativo onde uma única ideia funciona como peça de instalação.

As ideias variam. Uma mulher e a sua janela e o seu espelho e a sua fita preta. Uma mulher e um elevador, com Jeanne Moreau a cantar a música de “Jules et Jim”. Uma mulher e o frigorífico. Uma mulher e o seu reflexo na janela. Sequências musicais na neve. Um homem e uma chamada telefónica. O modelo e a maquilhagem. O rastejar dentro do Louvre. A relação com a comida.

“Visage” existe nos intervalos entre as cenas, o que é mostrado, quase exclusivamente, é que as pessoas reagem à evolução invisível dos seus próprios medos e desejos invisíveis.

Há uma história de um realizador de Taiwan, cuja mãe morre e que acaba por assombrar o apartamento dele e da sua produtora francesa (Fanny Ardant), o que acaba no enterro do filme.

Em “Visage”, além de Truffaut pensamos em Rivette (há ecos de “L’amour fou”), existem pessoas de pé nos quartos, sem fazer nada, e contemplando-se em terror total.

Os espelhos estão em toda parte, pequenos mundos, como filmes, de imagens que as pessoas tentam bloquear ou entrar.

Há um alce real numa neve falsa, como um dos símbolos da inocência de Courbet. Majestoso vagueia também no legado pictórico do museu parisiense e não deixamos de pensar em Godard.

Nathalie Baye aparece do nada, as coisas aparecem sempre do nada nos filmes de Tsai Ming-liang, de debaixo da mesa para participar na conversa entre Jeanne Moreau e Fanny Ardant. Mais tarde, o mesmo plano é repetido, cadeiras vazias, e Moreau canta fora da tela como um fantasma.

É um filme baseado inteiramente sobre estes ecos, repetições e reflexões, ainda vida, ainda corpo, ainda articulando por entre rituais e encantamentos.

O isolamento físico é um dado adquirido, mas forças invisíveis inevitavelmente rompem para ligar as pessoas até alguém perceber que está perdidamente apaixonado.

São duas horas aqui e ali em tom minimal, de duplicações quase estáticas e histórias paralelas de actores a tentarem ligar-se com os papéis que desempenham, de um realizador a tentar ligar com a mãe morta, e de tentar descobrir por que as pessoas se amam. Rajadas de movimentos, transgressões, onde as ligações entre espaços são cruzadas com as pessoas e os momentos da sua reunião, da sua reflexão, seja ela qual for.

Filmado em grande parte nos corredores de trás do Louvre, “Visage” fala de dois universos, o da existência e o composto por fantasmas e fantasias. Os actores transformam-se no papel que desempenham e as relações entre espaços e pessoas saltam por entre universos de realidade e devaneio sobrenatural, porque existe sempre uma outra face por descobrir em cada um de nós e poderá ser encontrada com o amor.

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