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“Quis fazer uma espécie de neo-realismo travestido”

“Última Paragem: Massamá” é a estreia do blogger e ilustrador Pedro Vieira no romance. O autor quis escrever uma tragédia que metesse os subúrbios e as questões sociais actuais. Puxou dos trunfos: o domínio da linguagem, as referências literárias. E, claro, o humor.

Hélder Beja

A crítica começou a compará-lo a Almada Negreiros e Manuel da Silva Ramos e ele espantado, porque nem está familiarizado com a obra destes autores, como admite nesta entrevista. É assim Pedro Vieira, ilustrador residente da revista Ler, homem que cresceu para as letras na blogosfera, onde ganhou como que uma segunda vida em http://irmaolucia.blogs.sapo.pt.

“Última Paragem: Massamá”, editado pela Quetzal, é o seu livro de estreia e parte desse território conhecido a Vieira, a linha de Sintra, para apresentar um triângulo amoroso. Há morte, doença, homossexualidade. E humor? Também, claro. Ou não fosse o autor conhecido por isso. Só que o romance não é uma anedota com mais de 200 páginas. É antes um livro que trata temas sérios com o tom que o autor foi aprimorando na blogosfera, que vai do império romano aos graffitis de Massamá como se isso fizesse de facto todo o sentido.

Vieira recorre à linguagem da gíria, às muitas referências literárias que foi acumulando como leitor e livreiro. Experimenta muito mas confessa que, no fim, não retira grande prazer do acto de escrever. “Última Paragem: Massamá” é um romance parido a ferros.

– O blogger nasceu primeiro que o escritor. Como foi escrever este romance, quando estava acostumado a um registo muito curto e pouco estruturado?

Pedro Vieira – Foi uma tarefa hercúlea por isso mesmo. Nunca me tinha aventurado a escrever nada de maior fôlego e foi francamente difícil conseguir estruturar uma história e a forma de contá-la. Por estar tão familiarizado com o registo aforístico e pouco mais, foi necessário suar muito e para mim o processo de escrita não foi um prazer. Acontece que aceitei um desafio, assumi um compromisso, e levei-o até ao fim. Mas continua a ser estranho trabalhar num projecto durante um período de tempo tão dilatado. Estou habituado a trabalhar para o curto prazo.

– A estrutura do romance é também uma das coisas que o marca. Temos a torrente da escrita, as paragens, os avanços e recuos, aquilo a que chama a “gordura” da narrativa. Deu importância a isso desde o começo ou esta foi a forma que encontrou de contar a história que queria?

P.V. – Diria que a escrita no blogue, que serviu muito como oficina, acabou por determinar a forma como construí o romance, esses avanços e recuos, uma espécie de baralha e volta a dar com as palavras, já tinha sido testado nalgumas crónicas e o registo acabou por entranhar-se-me. Dificilmente conseguiria contar a história de outra forma, para o melhor e para o pior aquela é a minha voz narrativa, se é que posso ter essa presunção, a de ter uma voz.

– Este será provavelmente o primeiro romance com ‘Massamá’ no título. Pareceu-lhe uma boa opção ou quis apenas correr o risco de perceber se era possível vender livros assim?

P.V. – Foi uma opção desde o início, foi aliás a minha única exigência editorial, a presença de ‘Massamá’ no título, porque quis que o livro remetesse imediatamente para o universo onde se move. E também porque achei que seria divertido tentar entrar pela porta estreita da literatura portuguesa com um pé no subúrbio.

– Estamos exactamente nos subúrbios e numa linha férrea, a de Sintra, que conhece bem, porque trabalhou para aquelas bandas. Foi fundamental para si dominar o território em que cresceu a ficção?

P.V. – Foi absolutamente determinante. Por razões várias, inclusive a falta de músculo literário, teria de dominar a geografia do meu campo narrativo, mesmo que a minha vivência difira bastante da das minhas personagens. Só conseguiria escrever sobre algo que conheço, pelo menos em parte, e para mim foi importante fazer um pequeno retrato do espaço urbano no qual estou mergulhado.
– Ligar Massamá ao império romano, com as referências que vamos lendo à batalha na Floresta de Teutoburgo ao longo da obra, foi uma obra engenharia. Como lhe ocorreu?

P.V. – Quando me desafiaram para escrever o livro – e fui um privilegiado ao ter caminho aberto para a publicação desde o princípio – pensei “como é que vou enfiar o império romano numa história contemporânea?”, por ser um assunto que me interessa pessoalmente, sobre o qual leio bastante. E parte do fascínio vem da percepção de que o tipo de vivência não era assim tão diferente, descontando a tecnologia. Além disso, e porque quis contar uma tragédia, nada melhor do que fazer a ponte com o período clássico e com a história de um homem, Varo, que cometeu suicídio quando o destino lhe escapou das mãos. Tal como sucede com a ‘minha’ Vanessa.

– Ao longo do livro interpela directamente o leitor, faz várias referências bibliográficas, comenta a sua própria escrita. O facto de ter estado muito tempo e muito atento do lado de cá, como leitor e como livreiro, tem alguma coisa que ver com isso?

P.V. – Sim, para mim é interessante arriscar nesses territórios da metaliteratura, assumindo o papel do observador mais ou menos distanciado. Claro que corro o risco de parecer apenas pateta com esse tipo de jogos com o leitor, mas achei que fazia sentido no contexto do que tenho para contar. No final, suponho que o saldo seja positivo em termos de exercício literário.

– Estamos perante um triângulo amoroso. Temos, portanto, o amor, o sexo, a morte, a doença, o desemprego. O que é que quis transmitir com esta história de Vanessa, Lucas e João? O ‘eu só queria contar uma história’ não pega.

P.V. – Quis fazer um drama clássico, pelo que o triângulo amoroso era obrigatório. E assumi um tom catastrofista, de fado da desgraçadinha, como alguém me disse, talvez por servir como contraponto àquilo que eu sou no dia-a-dia. Por me ter exposto no romance, e quem me conheça minimamente identifica pedaços de mim na narrativa, suponho que de forma inconsciente tenha canalizado para o livro sentimentos, posturas e uma certa necessidade de expiação. Também há temas como o desemprego que não quis deixar de tocar; quis trazer à baila questões sociais sensíveis embrulhadas num discurso literário, mas com a preocupação de não parecer panfletário, quis fazer uma espécie de neo-realismo travestido, digamos.

– Os transportes públicos e os desconhecidos que aí encontramos entram no seu livro. São eles, mais do que as pessoas que conhece, o alimento da sua ficção?

P.V. – Sim, absolutamente. Embora tenha bebido alguns episódios, expressões idiomáticas e algumas angústias partilhadas por pessoas reais, a base da minha ficção são esses desconhecidos com quem nos cruzamos diariamente.

– Usa muita gíria, muita linguagem de rua e de ‘balneário’ à mistura com uma bagagem literária que se nota. Falou-se em Babel linguística. Concede?

P.V. – Parece-me exagerado, não tenho um domínio assim tão grande da língua e do discurso, mas de facto tentei casar vários registos e trazer a coloquialidade para a linha da frente. Acredito pouco em diálogos formatados pela literatura. Ninguém fala com a sobriedade de um Isherwood, e com isto não estou a dizer que não goste de um registo limpo, elegante, na ficção. Acontece que no meu discurso essa sobriedade não tem lugar, e isso tem que ver com a minha natureza mais ou menos bastarda.

– “Estes dois livros [‘Última Paragem: Massamá’ e ‘Onde a Vida se Perde’, do seu amigo Paulo Ferreira] têm aqueles ingredientes que interessam às pessoas. Têm sexo, têm culpa, não há nada mais português do que isto”, disse em entrevista ao Público. Dos dois, qual o ingrediente que prefere?

P.V. – Assim de caras prefiro o sexo, embora ache que a culpa é mais interessante como matéria literária. Gosto mais do “Crime e Castigo” do que do “Sexus”.
– A crítica comparou o seu primeiro romance aos livros de estreia de Almada Negreiros e Manuel da Silva Ramos. Que lhe parece?

P.V. – Provocou-me algum desconcerto porque o elogio é óbvio e aumenta a minha responsabilidade. E também senti alguma angústia pelo facto de não conhecer a obra desses dois autores, o que diz bem da minha bagagem intelectual. Se bem que já vi os painéis do Almada na Gare Marítima de Alcântara, pronto.

– Pedro Mexia também disse que este era um bom livro mas um mau romance. Qualquer coisa assim. Assina por baixo ou dá de volta?

P.V. – Assino por baixo, sim, até porque a crítica do Pedro foi particularmente certeira. Leu o livro com atenção, fez-lhe a anatomia e identificou-lhe o principal problema: eu de facto escrevi um livro que põe à vista um observador nato e um narrador manco. Acho que bem vistas as coisas privilegiei a forma em detrimento do conteúdo, quis experimentar com as palavras, sová-las e acho que realmente o enredo, o ‘plot’, se ressente disso. Tem que ver com a questão do músculo literário de que já falei, e essa crítica foi muito útil para mim, pôs-me a pensar mais no livro que tinha escrito.

– A blogosfera conhece-o por vários motivos mas muito pelo humor que caracteriza a sua escrita. Isso está no livro mas talvez não na dose em que alguns ‘seguidores’ poderiam esperar. Quis demarcar uma coisa da outra?

P.V. – Se o fiz foi inconscientemente, acho que o livro tem uma carga humorística forte, mas concedo que com uma intensidade menor do que é habitual no meu discurso. Talvez seja o peso da seriedade, do solene, que está muito colado à literatura, mesmo que não tenha reflectido sobre isso. Respeitinho, no fundo.

– O facto de ser também o irmão lúcia, alter-ego que adoptou online, alguma vez fez com que pensasse que um romance escrito por si pudesse não ser levado a sério por toda a gente?

P.V. – Não, nunca me preocupei com isso. Temi só que fosse ignorado por se tratar do livro de um estreante, mas isso não aconteceu e estou aliás muito grato pela receptividade e atenção que ele tem merecido.

– Deixou a sua profissão de muitos anos, livreiro, e migrou para a TV, onde apresenta um programa sobre livros. Como corre a experiência no canal Q?

P.V. – Corre bastante bem, a responsabilidade por esse programa é uma das tarefas que desempenho no canal, e em relação ao “Ah, a Literatura!” temos uma grande autonomia e a possibilidade de desconstruir e experimentar. E de fazer negaças aos livros e ao meio literário português com os instrumentos de um canal por cabo que ainda é de nicho mas que tem margem para crescer.

– É difícil fazer um programa de livros para televisão? As partes dão-se bem ou é o humor que acaba por ajudar na receita?

P.V. – Tem sido relativamente simples fazê-lo, o humor ajuda na receita e a empatia com a Catarina Homem Marques, que faz comigo o programa, é determinante. Pensamos sobre a nossa missão da mesma forma e assim é fácil construir o “Ah, a Literatura!” semanalmente, com um pé na literatura e outro no absurdo, e vice-versa.

– Já disse que não tem profissão definida neste momento. Mas como vai essa carreira de ilustrador? No meio de tudo isto, o que é que lhe dá mais prazer? O desenho? A escrita? A TV?

P.V. – A ilustração é aquilo que prefiro, é o que me dá mais prazer. Continuo a exercê-la, entremeada com as outras valências. Se tivesse de escolher um registo e prescindir dos outros, ao estilo dos concursos televisivos, apostaria nela. Mas gosto bastante do molho de brócolos em que ando metido.

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