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A angústia do desejo

José Drummond

“Days of Being Wild”, de 1990, é o segundo filme de Wong Kar-wai e aquele que cristalizou o seu estilo, assente numa poesia visual exuberante e em dramas elípticos. A percepção do comportamento adequado, a representação da rejeição, o hedonismo vazio e a tragédia dos sonhos são modelos que o realizador tem perseguido ao longo da sua carreira.

Passado nos anos 60, o filme faz inevitavelmente clara a nostalgia do autor. Nostalgia que se viria a tornar uma das suas características mais fortes, amplificada pelos planos, cenários, roupas e também pela cuidada banda sonora.

O plano de abertura faz do vermelho da Coca-Cola o olhar mais vermelho possível onde a cor explode em significantes. Yuddy, numa convincente interpretação de Leslie Cheung, é um homem jovem, bonito e misterioso. Yuddy “trata as mulheres todas da mesma forma”, refere Su Li mais tarde.

Su Li, interpretada por Maggie Cheung, repele inicialmente os avanços de Yuddy mas acaba por ser seduzida. Os planos desta cena inicial são de cortar a respiração, desprendendo um calor húmido e abafado que marcam toda a narrativa e que tão bem identificam o lugar onde tudo acontece.

Hong Kong, cidade que apadrinhou o realizador nascido em Xangai, é um lugar especialmente marcado por fortes condicionantes tropicais. Com o decorrer da narrativa somos transportados para uma realidade tão característica da cidade vizinha, que muitas vezes pode ser a nossa.

Yuddy, mimado e egoísta, tem uma relação ambígua e complicada com a mãe adoptiva, uma prostituta de idade que serviu a classe abastecida. Ele tem tudo enterrado no seu interior. Os seus sentimentos para com a ausência da mãe biológica e a sua relação com a mãe presente sepultam-lhe os afectos, ou talvez não, que tem para com as mulheres que seduz e se desfaz.

O sentido colectivo de saudade e ansiedade levam-nos através de uma profunda depressão. Depressão que Yuddy rebate com novas mulheres. Assim conhece Mimi, trazida ao ecrã por Carina Lau.

Su Li e Mimi. Ambas procuram o amor, mas encontram apenas uma parede em branco. Yuddy nunca passa de uma promessa, de um sonho, e elas não encontram alívio para as suas dores de rejeição com qualquer outro homem.

Zeb, por Jacky Cheung, é um amigo de infância de Yuddy e está apaixonado por Mimi. Tide, por Andy Lau, é um polícia que quer se tornar marinheiro e que se apaixona por Su Li. Ambos se tornam confidentes das mulheres mas não as conseguem ter. Todos os personagens querem algo que não podem ter. Sobra Yuddy, que entende que não querer nada é ter tudo e que para querer tudo é preciso ficar de mãos vazias.

Paradigmático o momento em que Yuddy e Zeb estão no comboio, após um violento confronto nas Filipinas, no qual Zeb quase morreu por causa de Yuddy e este diz “Podes morrer a qualquer minuto”, como que afirmando essa mesma noção de que o futuro é incerto e que é a única certeza na sua vida.

O retrato de Yuddy, num desempenho notável do prematuramente falecido Leslie Cheung, canaliza um pouco dos três rebeldes principais do cinema do final da década de 50, começo da de 60 – James Dean em “Rebel Without a Cause”, Marlon Brando em “The Wild Ones” e, especialmente, Jean-Paul Belmondo em “À Bout de Souffle”.

Cheung acrescenta o grau de tragédia para um homem no inferno da sua autodestruição. Um homem isolado do mundo à sua volta, que admite que não há tempo como o presente e, portanto, não estabelece metas para si mesmo e rejeita tudo. Conexão que reflecte os seus dias como pop star. Prática comum em Hong Kong com todos os actores a terem versões musicais como Jacky, Maggie, Carina Lau ou mesmo Tony Leung, que aparece no final.

No entanto, a atracção principal do filme acaba por ser o recurso a um visual surpreendente. São os tempos do início da colaboração entre Wong e o cinematógrafo Christopher Doyle, com a parceria estética mais gratificante de imaginar.

Alguns planos são simplesmente perfeitos. A mãe adoptiva deitada na cama olhando para si mesma ao espelho. Rodeada pelo pálido brilho fluorescente, num verde doentio que se recupera em “Chungking Express”, ela lembra uma relíquia de alguma época agora simplesmente cobiçada através do vidro.

“Days of Being Wild” não é apenas um marco da carreira do autor, mas um marco do cinema de Hong Kong. Enquadra os personagens em espelhos, por vezes fora de plano, reflectindo as suas imagens de volta para eles. O filme é sobre essas imagens, e sobre a maneira como nós as percebemos e as recordamos, mesmo que muitas vezes estejam atrás de grades de algum tipo, como se tivessem de estar contidas para não serem apanhadas numa teia de desejo impossível.

“Days of Being Wild

Wong Kar-wai, de 1990

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