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Dança, suor e testosterona

São 14 homens argentinos no palco para dançar o malambô, ritmo das Pampas que vem do século XVII. Gilles Brinas, encenador francês, trouxe a tradição para a modernidade. As botas gaúchas sapateiam amanhã e depois no Centro Cultural.

Hélder Beja

Uns sérios, outros sorridentes, outros ainda ferozes. Todos de preto. Assim se apresentaram ontem no ensaio aberto à imprensa os 14 bailarinos do Pampa Furiosa Ballet d’Argentine, que actuam amanhã e domingo às 20h no Centro Cultural de Macau (CCM), com o espectáculo “Che… Malambô!”.

A sala de ensaios está vazia e quente. O sapateado ressoa. No palco, os homens que executam esta dança que surgiu nas Pampas algures nos anos 1600 são, como o próprio encenador Gilles Brinas refere no texto que apresenta a performance, “uma frenética horda de catorze vigorosos e enigmáticos bailarinos, metade homem, metade cavalo, [que] oferecem do primeiro ao último fôlego um espectáculo vibrante das tradições da região”. Não há vozes, apenas ritmos que evocam o galope dos corcéis.

O malambô é uma dança de machos onde não cabe mulher. Mas há, nas botas gaúchas de salto alto que calçam e no revirar das ancas, qualquer coisa muito feminina nos passos destes bailarinos do país onde Carlos Gardel viveu e se celebrizou. É uma coisa a compensar a outra.

História de amor

A companhia de bailado começou em 2005 e, apesar de todos os intérpretes serem argentinos, foi o francês Gilles Brinas, antigo bailarino clássico que chegou a trabalhar com Maurice Béjart, a meter-se num avião para conseguir criá-la. “Conheci o malambô nos anos 1970 em Paris e desde esse momento que esta dança ficou na minha cabeça e no meu coração. Então tive a ideia, comprei um bilhete de avião e fui para a Argentina. Conheci alguns dançarinos e começámos a fazer isto”, conta Brinas. A história até parece simples, contada assim, mas não foi. Depois de uma tentativa falhada, o francês conhece o coreógrafo Gustavo Molajolli e a directora do Ballet Nacional da Argentina, Nydia Viola. É a partir daí que Gilles Brinas consegue reunir bailarinos de várias zonas da Argentina, de Formosa a Cordoba, de Mar del Plata a Buenos Aires.

Brinas deixou-se levar. “Gosto que a dança seja física e também gostei da musicalidade do malambô. Recebi qualquer coisa sem que tivesse percebido. Mas agora sei o quê: é o ritmo, que é sempre a batida do coração.” O encenador quis puxar a tradição desta dança masculina e argentina para a modernidade, quis “montar um bailado”, como o próprio admite. “Originalmente esta dança é a solo. É uma dança que dura dois ou três minutos e pronto. Os passos são os mesmos mas entretanto mudámos muitas coisas. Antes era mais simples.”

Os passos têm nomes que gostamos de dizer em espanhol mesmo que não saibamos o que significam, como ‘cepillada’, ‘repique’ e ‘floreo’. Gilles Brinas tenta exemplificá-los. “Agora sei como se dança o malambô, mas eu era bailarino clássico. Na verdade há alguma coisa que é a mesma. Beethoven tocava piano e escrevia para violino. É sempre a mesma problemática. Se souberes dançar, consegues perceber algo das outras danças”, acrescenta.

O malambô era dançado por homens e servia como duelo de ritmos, como exibição máscula que teve o seu apogeu durante o século XIX e que apresentava nuances entre o norte e o sul da Argentina. Dois homens, cara a cara no mais pequeno espaço possível, sapateavam e competiam, até que um deles se retirava. “Este folclore é uma mistura de muita coisa: de França, Rússia, Polónia, Espanha”, refere Brinas. Agora, no espectáculo que encenou, há tambores em palco, cordas e outros adereços que marcam o ritmo e servem de companhia aos bailarinos mancos de par feminino.

Uma das traduções para malambô é ‘dança libertadora’. Isso atesta-se nos rostos dos que enchem o palco e no modo como se entregam à ginga. Estamos longe do tango e do folclore argentino mais conhecido. Esta “é mais uma sinfonia rítmica na linguagem do ‘zapateo’ [sapateado]”, adita Gilles Brinas no texto que apresenta o espectáculo.

Para o encenador, as mulheres não fazem falta nem parte desta dança. “Há raparigas que aprendem mas é preciso ter muita força. Somos diferentes esta é uma técnica masculina.” Mesmo quando as ancas requebram.

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