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“O género histórico jamais pode ser considerado menor”

O autor Pedro Almeida Vieira abomina a etiqueta “autor de romances históricos”. É, sim, um apaixonado pelo género. O projecto biblioHistória, onde está a traçar o mapa dos contos, novelas e romances históricos portugueses, está disponível online.

Hélder Beja

Horas e horas passadas entre estantes da Biblioteca Nacional de Portugal e de outras casas de livros. O escritor Pedro Almeida Vieira é o responsável pelo projecto biblioHistória (www.pedroalmeidavieira.com/?p/785), base de dados de obras de literatura do género histórico – ou com incursões históricas – publicadas por escritores portugueses, incluindo também autores de dupla nacionalidade ou que tenham possuído nacionalidade portuguesa antes da independência dos respectivos países.

Em entrevista, o autor de “Nove Mil Passos” fala também do seu mais recente livro, “Crime e Castigo no País dos Brandos Costumes”, da importância do género histórico na literatura e do fascínio do Oriente no mapa do legado português.

– Como surge a ideia de criar a biblioHistória?

Pedro Almeida Vieira – Fundamentalmente, surgiu como uma necessidade de ordenar a minha biblioteca pessoal, mas acabou por se transformar num projecto mais ambicioso à medida que fui constatando que o género histórico é muito mais abrangente do que se imagina. A esmagadora maioria dos grandes escritores portugueses cultivaram este género, desde Herculano e Garrett, passando por Camilo Castelo Branco e até Eça de Queirós, e culminando em autores contemporâneos, como José Saramago, Miguel Real, Agustina Bessa-Luís, Fernando Campo, João Aguiar, Mário Cláudio e Mário de Carvalho, entre muitos outros. Na verdade, com a biblioHistória pretendi demonstrar que o género histórico jamais pode ser considerado como uma categoria menor da literatura, muito pelo contrário.

– É autor de romances históricos. Já tinha anteriormente este interesse em catalogar e descobrir autores que trabalharam neste género?

P.A.V. – Arrepia-me essa catalogação de “autor de romances históricos”. Sou escritor: bom ou mau, logo dirão a crítica e os leitores, mas isso é independente de a narrativa ter um enquadramento no passado. Mas eu nem catalogaria o meu último romance, “Corja Maldita”, estritamente no género histórico, porque nele nem o tempo existe, e tem imensas referências à actualidade. Em suma, o meu interesse neste género de literatura é sobretudo por julgar que no passado compreendemos melhor o presente.

– Tem o apoio do grupo Porto Editora para este projecto. Está a trabalhar sozinho nesta empreitada ou tem quem o assista?

P.A.V. – O apoio da Porto Editora, através da Sextante (a minha editora de ficção), cobre sobretudo os custos de manutenção do site, o que já não é nada pouco. É aliás imprescindível. De resto, todos os conteúdos têm sido feitos por mim, e sobretudo a pesquisa para a inclusão das obras, que obrigaram a um grande esforço de pesquisa, pois não havia uma compilação ou lista de obras, em especial para as obras do século XIX.

– No texto de apresentação, refere a importância da Biblioteca Nacional (BN) e da Biblioteca João Paulo II da Universidade Católica Portuguesa, por lhe permitirem a consulta dos arquivos. Como tem sido esta busca? Tem passado muitas horas entre estantes?

P.A.V. – Sim, foram inumeráveis horas, que tento não contabilizar para não me considerar louco. Como não havia catalogação tinha de andar a pesquisar todas as obras escritas pelos autores de que conhecia um ou outro romance histórico, para saber se eram ou não do género histórico.

– Conta até agora umas 1130 obras do género. Parece-lhe que há ainda muito por catalogar?

P.A.V. – Ao nível do romance em livro, haverá mais algumas dezenas, por certo. Até porque há obras, de que encontro referências, que não existem na BN ou em outras bibliotecas. Eu próprio tenho alguns romances (não muito importantes, é certo) que não existem sequer na BN. Mas a biblioHistória ainda está longe de estar completa, sobretudo porque ainda não tive tempo para introduzir as pequenas novelas e contos que foram sendo publicados em periódicos do século XIX, como em O Panorama, O Mosaico e Revista Universal Lisbonense. Estou a falar talvez de umas centenas de títulos ainda em falta.

– Tem descoberto obras e autores meritórios que hoje são completamente desconhecidos? Alguns exemplos que queira partilhar?

P.A.V. – Sobretudo tenho descoberto que o tempo, essa máquina do esquecimento, pode ser madrasta para alguns escritores. Por exemplo, Pinheiro Chagas vendia no século XIX muito mais do que Camilo Castelo Branco. Nas primeiras décadas do século XX, Rocha Martins e Campos Júnior – que hoje são desconhecidos – vendiam, em termos proporcionais à população e à literacia da época – tanto como hoje José Rodrigues dos Santos ou Miguel Sousa Tavares. Sobre a qualidade da escrita desses romancistas do século XIX e início do século XX, hoje desconhecidos, alguns têm algumas obras, ou parte de obras, bastante interessantes – por exemplo, Arnaldo Gama, Mendes Leal, Leite Bastos, Rebelo da Silva. Mas temos sempre de os enquadrar com as correntes literárias da sua época. Parece-me é evidente que não podemos resumir a literatura do século XIX a Herculano, Garrett, Camilo, Ramalho Ortigão e Eça. Há muito mais a descobrir.

– Um deles foi Guilherme Centazzi, que identificou como pioneiro do romance português no século XIX. Pode falar-nos um pouco deste autor e da sua obra?

P.A.V. – Sim, Guilherme Centazzi foi talvez a mais surpreendente descoberta que fiz. Tinha referência a dois ou três romances que escrevera em meados desse século, mas só uma pesquisa mais aturada me permitiu identificar que era também autor de dois romances anteriores a Herculano e a Garrett. O primeiro, intitulado “Carlos e Julieta”, é ainda incipiente, mas o segundo, “O Estudante de Coimbra”, publicado em 1840 e 1841, é uma agradável maravilha: tem pequenos desequilíbrios narrativos, mas no conjunto é um delicioso romance, com um estilo irónico muito próprio, e com recursos estilísticos muito inovadores na literatura lusitana. Centazzi, que foi médico e um homem dos sete instrumentos (também foi poeta, jornalista, músico e compositor, e inventou rebuçados peitorais que foram comercializados até meados do século XX), parece-me injusta e injustificadamente ignorado, mesmo nos meios académicos. Vai ser redescoberto agora, porque estou a preparar uma edição anotada com actualização ortográfica e que contará com um texto da professora Maria de Fátima Marinho, directora da Faculdade de Letras do Porto.

– Falemos agora do género. O romance histórico é ‘apenas’ um romance ou também pode ter esse papel formador de dar a conhecer episódios do passado?

P.A.V. – Qualquer romance não deve ter pretensões de ser didáctico nem moralista, pelo menos não é essa a função principal. No entanto, defendo que um romance histórico tem a ‘obrigação’ de não desvirtuar a História e de não cometer erros ou imperfeições, por preguiça do autor ou porque lhe é inconveniente. Aquilo que me atrai no romance do género histórico é poder compreender o passado para melhor compreender o presente. Na verdade, para concluir que, se somos hoje tecnologicamente mais avançados, não somos necessariamente diferente na nossa essência nem tão-pouco mais inteligentes. Somos e sempre seremos humanos, com todos os defeitos e virtudes, mesmo se os cenários e os tempos mudam.

– A sua formação é de uma área distinta. Como começou a interessar-se pela escrita e por este género em particular?

P.A.V. – Embora seja engenheiro de formação académica, tornei-me primeiro jornalista e isso acabou por me levar a avançar para a escrita do meu primeiro romance – “Nove Mil Passos” –, cuja ideia nasceu de uma reportagem jornalística sobre o Aqueduto das Águas Livres. Depois, abri uma espécie de caixa de Pandora, mas afinal o que de lá saiu foi a vontade e o vício de continuar a escrever.

– Por vezes tende a desvalorizar-se, principalmente no que toca aos autores contemporâneos, a qualidade literária do romance histórico. Como olha para isso?

P.A.V. – Em bom português: essa postura manifesta uma obtusa ignorância. Escrever um romance histórico – que seja bom – necessita de investigação, de criatividade, de imaginação. O romance contemporâneo ‘só’ necessita de criatividade e imaginação. A História não é, no género histórico, nem nunca deve ser, uma muleta – a menos, como por vezes sucede, se faça um livro ao estilo do copy-paste (e infelizmente vê-se isso em vários romancistas do género histórico) –; é sim um obstáculo, sobretudo se se pretende impor rigor narrativo e cronológico. Dou-lhe um exemplo: no meu romance “A Mão Esquerda de Deus”, o personagem principal nasce de uma lenda (ou seja, nem se sabe se efectivamente existiu), pelo que não tive a ‘ajuda’ da História para o recriar. Por isso, pode dizer-se que é um romance do género histórico, porque se passa no período do Renascimento, mas é também, pela forma da narrativa, um romance falsamente epistolar, também é um ‘bildungsroman’ (porque percorre, de forma ficcional, toda a vida do personagem principal), e tem ainda contornos de fantástico, mas tão enquadrado na História que os historiadores dificilmente encontrarão erros e anacronismos. Dizerem-me que é apenas um romance histórico é uma idiotice. Mas não vamos mais longe: será sensato dizer-se que o majestoso “Memorial do Convento” é apenas um romance histórico? E, no entanto, Saramago fez mais investigação histórica para o escrever do que geralmente se imagina…

– A sua nova obra é “Crime e Castigo no País dos Brandos Costumes”. A obra congrega 30 narrativas que abordam crimes, e os respectivos castigos, cometidos em Portugal até à abolição da pena de morte em meados do século XIX. Todos os crimes incluídos tiveram condenações à pena capital. Pode falar-nos de algumas destas narrativas?

P.A.V. – Este será o primeiro de dois volumes, que agregam no total 60 narrativas. Procurei escrever sobre um leque de crimes muito distintos: alguns por terem sido dramáticos, outros por terem marcado a sociedade na época, outros tantos por terem envolvido processos judiciais que nos causariam hoje horror. No primeiro volume tenho crimes muito diversos, alguns deles bastante conhecidos: os roubos de igrejas de Santa Engrácia e de Odivelas (que está associado ao Senhor Roubado), os processos inquisitoriais de António José da Silva (o judeu) e do Padre Malagrida, os crimes de Diogo Alves ou de Mattos Lobo. Mas também inclui outros menos conhecidos, mas muito surpreendentes. Curiosamente, ou talvez não, constatei que meia dúzia desses casos foram abordados por Camilo Castelo Branco; três deles deram mesmo origem a novelas ou romances camilianos, incluindo a sua primeira obra em prosa, “Maria, não me mates que sou tua mãe”.

– Quanto tempo de investigação investe normalmente na preparação de um novo livro?

P.A.V. – Depende muito da disponibilidade de tempo. Não levo esse aspecto muito em conta, porque o tempo de investigação e de escrita não se deve medir em meses, mas sim em horas, de impossível contabilização. Um escritor que diga que demorou dez anos a escrever um romance, para mim nada me diz. Se ele escreveu apenas aos fins-de-semana, pode até ter demorado menos tempo do que um outro que escreveu todos os dias ao longo de apenas um ano.

– A história portuguesa continua a ser muito rica em episódios capazes de inspirar romances históricos? Há algum ou alguns em particular que gostasse de tratar nos seus próximos livros?

P.A.V. – A história portuguesa é extremamente rica, porque somos um país muito antigo, que dominou meio mundo, que teve uma presença da Igreja muito forte, que fez coisas espantosas. Mas há outro factor que é óbvio: um romance contemporâneo pega num passado recente; o género histórico sobre Portugal tem centenas de anos para tratar. Tenho várias ideias em mente, mas ainda não decidi se avanço antes para um contemporâneo, mas que interliga com o passado e que talvez seja mesmo desenvolvido como se de um romance histórico se tratasse.

– Tendo em conta o seu interesse pela História de Portugal, alguma vez pensou escrever sobre a presença portuguesa na Ásia e especificamente Macau?

P.A.V. – As possibilidades de abordar a Ásia num romance histórico são tão vastas como o seu território. Mas não lhe sei dizer. Há um personagem que me parece fascinante, o jesuíta Matteo Ricci, mas dificilmente porei mão a essa tarefa: não apenas por já me ter ocupado da Companhia de Jesus em dois dos meus romances (“O Profeta do Castigo Divino” e “Corja Maldita”) como por ser tema muito, muito complexo. Mas nunca direi que desta água não beberei.

– Essa presença a Oriente já está bem tratada no romance histórico em língua portuguesa?

P.A.V. – Se considerarmos o Oriente todo, a parte respeitante à presença portuguesa na Índia, tem sido bastante abordada, desde o século XIX até à actualidade. No caso da China e Japão, tenho a impressão que nem tanto.

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