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O complexo de Roth

Há mulheres que o odeiam e homens também, pela falta de pudor na forma como aborda relações, sexo, judaísmo. Mas depois também há quem o endeuse. Philip Roth ainda não ganhou o Nobel mas já tem o International Booker.

Isabel Castro

Este já ninguém lho tira. Philip Roth é o eterno candidato ao Nobel da Literatura que talvez nunca chegue a ser Nobel, esse estádio que faz de um escritor melhor que todos os outros. Mas há outras formas de se ser melhor do que os outros e o Man Booker International Prize é uma delas: esta semana, o júri desta espécie de prémio carreira na ficção distinguiu o judeu que afiança não ter um único “osso religioso no corpo”, mas que fez dos judeus o centro da sua obra. A escolha não foi consensual e está a dar que falar. Mas já lá vamos.

Agora vamos a Roth, norte-americano nascido em Newark em 1933, 78 anos feitos e 31 livros publicados, meio século de escrita regular, constante. Estamos sempre à espera de um novo livro de Roth, porque há sempre mais um para ser publicado. O romancista diz que escreve com o rigor e o tempo que a escrita exigem, e diz que a leitura também faz as mesmas exigências. Entre escrita e leitura a linha é ténue. Entre homem e escritor também. O escritor que Roth é confunde-se com quase todas as personagens que inventa. Não é ele, não deixando de lá estar.

Nunca escondeu que escreve para ser lido e a pretensão foi assumida no momento da reacção ao Booker International. “Um dos prazeres que tenho tido como escritor é ver que o meu trabalho é lido internacionalmente, apesar das angústias que as traduções causam”, declarou, por escrito. Espera que o prémio faça com que haja mais gente a ler a sua obra.

E o que é a obra de Philip Roth? É Roth, antes de mais. E depois é também muita América, os Estados Unidos do pós-guerra, a América do interior, os judeus na América, a América de agora. É sátira profunda e um sentido de humor muito próprio. É muito sexo a que alguns chamaram pornografia. É o desmontar da cultura judaica quando esta temia ser desmontada.

Mais recentemente, a obra de Roth é também o corpo a envelhecer, a dar de si, é a aproximação da morte, a sabedoria que só se adquire porque se parou para contemplar o que foi. “Tinha perdido a magia. O ímpeto estava esgotado. Nunca tinha falhado no teatro, tudo quanto tinha feito fora forte e bem-sucedido, e então aconteceu o terrível: deixou de saber representar”, escreve na sua penúltima obra, a mais recente traduzida para português. Em “A Humilhação”, Simon Axler é um actor com mais de 70 anos. Philip Roth tem 78 e não esgotou o ímpeto. E não é só América nem judaísmo.

Das mulheres

Glenn Timmermans não é especialista em literatura norte-americana mas sim em literatura inglesa, área que lecciona na Universidade de Macau. Faz questão de o deixar claro. Mas admira Roth enquanto leitor e até se dá o caso de também ser judeu. Timmermans tem um olhar atento à literatura produzida por judeus e Philip Roth é inevitável – agradavelmente inevitável, porque Roth “é sério e muito divertido também”. Mas o prémio Booker International é inevitável porque, com prémios ou sem, “de todos os autores contemporâneos norte-americanos, é uma figura enorme”.

É uma figura de tal dimensão que é o único escritor vivo a ter a obra publicada numa edição completa e definitiva pela Library of America – a informação consta de todas as badanas dos seus livros que, em Portugal, são publicados pela Dom Quixote. Por ter esta estrutura no mundo da literatura, entende Timmermans que o prémio desta semana “é completamente merecido”.

“O Booker International é um prémio recente, mas em termos de grandes prémios há uma dívida antiga para com Philip Roth”, lança o professor universitário. “De todos os escritores que estavam na lista, era aquele que mais o merecia.” O norte-americano foi, para quase todo o júri, melhor que outros 11 escritores, entre eles Amin Malouf, Juan Goytosolo, Dacia Maraini, Anne Tyler, James Kelman e Philip Pullman. Mas Roth nunca foi consensual – e continua a não ser.

Por causa da escolha feita, a escritora e editora Carmen Callil renunciou ao lugar no júri, um protesto que Timmermans diz não entender. A contestatária já explicou as suas razões, em entrevista ao Guardian: não valoriza Roth como escritor, não o queria na lista de finalistas, diz que escreve sempre as mesmas coisas em todos os livros que publica. Não tardou até que aparecesse alguém a contrariar a teoria da fundadora da Virago, publicação feminista: John Le Carré também escreve muito sobre espiões e daí não veio mal ao mundo.

A verdade é que ter Roth e uma feminista num só processo não é boa ideia – e nunca será um casamento feliz. O autor de “O Animal Moribundo” (2001), um dos seus livros que são também cinema, já foi acusado de misoginia, por escrever coisas assim: “Ela pensa: estou a dizer-lhe quem sou. Ele está interessado em quem eu sou. Isso é verdade, mas eu estou curioso a respeito de quem ela é porque quero fodê-la. Não preciso de todo este interesse em Kafka e Velásquez. Enquanto travo esta conversa estou a pensar: Quanto tempo mais vou ter de suportar?”.

A “ela” deste livro chama-se Consuella Castillo e o “ele” não é obrigatoriamente Philip Roth, apesar de todos os livros terem Roth neles. “Ele” é professor; “ela” é aluna. “O Animal Moribundo” é um livro despudorado e arrojado. “E Roth é um homem da sua geração, que transporta também conceitos da sua geração” para o que escreve, destaca Timmermans. Mas que, acrescenta, tem uma enorme capacidade de ser actual, um homem de hoje, que fez escola na literatura norte-americana.

A misoginia que alguns lhe apontam não encaixa na análise que o professor da Universidade de Macau faz de Roth. Nem Roth o admite: isso de dizerem que as mulheres são elementos secundários, objectos sem relevância, é “um disparate”, disse o autor em entrevista recente ao jornal Público. E o escritor, que dá entrevistas só de quando em vez, acrescentou ao diário português: “Não trato melhor os homens”.

O outro judeu

Há homens que não se sentiram nada bem tratados por Philip Roth. Entre eles encontram-se os do pós-guerra que o romancista abstractizou nos muitos livros que escreveu sobre o ser-se judeu na América. Os rabis não gostaram de ver “noiva judia” e “masturbação” juntas num mesmo romance, um facto que Glenn Timmermans até consegue compreender, atendendo ao que foi o passado, mas que, acredita, agora não tem qualquer importância.

“O Complexo de Portnoy” (1969) é a obra que junta noivas, judeus e masturbação, e fez com que tivesse “sido muito impopular entre os judeus religiosos”, explica o professor. Roth teve a capacidade de satirizar com o judaísmo, “com um sentido de humor que é muito próprio dos judeus”. Acontece que “isso aconteceu numa altura em que os judeus se sentiam menos confiantes sobre quem eram nos Estados Unidos, viviam nervosos com a possibilidade de darem uma má imagem deles mesmos”.

O primeiro livro de Roth é de 1959 (“Goodbye, Columbus”) e a II Guerra Mundial, que não chegou a sentir por ser ainda miúdo, não estava muito longe. O autor cresceu numa família judaica que não ia à sinagoga e não se lembra de ver rabis nas imediações da sua infância. Por isso, desmontou os estereótipos do judaísmo do mesmo modo como agora disseca a vida e a morte, o corpo a envelhecer e a não acompanhar a alma.

Mas a verdade é que agora já nada disso interessa. “Os judeus estão muito mais confortáveis e confiam neles próprios”, diz o judeu que Timmermans também é. “Acho que o que faz dele um escritor tão importante é o facto de escrever sobre o judeu americano do interior dos Estados Unidos”, defende, recordando que, a par de Israel, é na América que se encontra a maior comunidade religiosa do mundo. “Ele não é um judeu religioso. Mas o judaísmo dele é muito importante para a pessoa que ele é.” É a tal capacidade de satirizar própria dos judeus que se encontra em Woody Allen, exemplifica o docente universitário. E Roth tem uma importância decisiva nessa escola.

Todo o mundo

“Os autores americanos são regionalistas”, disse Roth ao Público, recordando que os seus livros se situam em Newark, pelo que também o é. Mas este regionalismo não é antónimo de falta de mundo – ou incapacidade de chegar ao mundo. Timmermans volta a utilizar uma imagem mais cinematográfica para sustentar a transversalidade do Booker International: “Até dada altura, Woody Allen fez todos os filmes em Manhattan, mas não é preciso ser-se judeu de Manhattan para se perceber os filmes de Woody Allen”.

Não é preciso, portanto, ser-se judeu de Newark para se perceber (e gostar) de “A Conspiração contra a América”, livro que Roth publicou em 2004, “muito na sequência do 11 de Setembro” e em que se assiste a um regresso a uma literatura com dimensão política, que deixou de lado na sua fase mais recente de criação. “A Conspiração contra a América” inventa uma história alternativa (Lindbergh em vez de Roosevelt) mas é um livro muito real: é a infância de Roth, Roth em crescimento, Roth.

Não é preciso, portanto, ser-se judeu de Newark para se entender (e sofrer) com a história do criativo de sucesso, pai de dois filhos e de uma filha, desprezado pelos dois primeiros e adorado pela última, que é enterrado em “Todo-o-Mundo” (2006). E tampouco é preciso ser-se judeu de Newark para ler (e compreender) a obra que lhe deu o Pulitzer, “Pastoral Americana”, em 1997.

O presidente do júri do Booker International, Rick Gekosky, disse que Roth merecia o prémio porque desde que escreve que estimula, provoca e diverte cada vez mais leitores. E “quando a maioria dos escritores começa a declinar, escreveu uma série de novelas de grande qualidade”. Roth não é o Simon Axler que inventou e não lhe falta o ímpeto.

Para Glenn Timmermans, há vários motivos para ler Roth, da qualidade à capacidade de ser abrangente. Mas a leitura é aconselhada por um motivo mais simples: “É um bom romancista sem ser pretensioso, não se sente que está a tentar em demasia. Não está a tentar impressionar os leitores”. E que sendo sério, faz rir, choca e indigna, faz pensar. E que não precisa de ser Nobel para estar na lista de quem gosta de ler.

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