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O estranho objecto da imaginação

“Mysterious Object at Noon”, a estreia de Apichatpong Weerasethakul, é, sem dúvida, um dos produtos cinematográficos mais emocionantes que surgiu no ano 2000. Os puristas hesitam em classificar o seu género pois mescla documentário com ficção, o que confirma a sua singularidade.

É um filme descaradamente relaxado: 85 minutos básicos, directos, pungentes e sem estilo verosímil. A substância, aquilo que fica para lá do próprio filme, reside nos temas dos entrevistados, que falam por si – e ao fazê-lo, falam por toda a Humanidade. Traça-se aqui, já com enorme segurança, uma das grandes características de Weerasethakul, que parece conseguir facilmente encontrar grandeza de forma modesta e humilde.

A inspiração para “Mysterious Object at Noon” baseia-se na prática surrealista conhecida como “Cadavre Exquis”, onde uma variedade de escritores ou artistas contribuem, uns a seguir aos outros, para uma história ou desenho, sem saberem praticamente nada do que foi escrito ou desenhado anteriormente. Técnica semelhante foi usada para entrevistar pessoas em toda a Tailândia e, ao mesmo tempo que se foi descobrindo um pouco sobre as suas vidas, foi-lhes também solicitado para que contribuíssem para a história evolutiva do filme. Novos participantes estiveram livres para alterar a história que herdaram, modificar detalhes e propor variações.

Os participantes do documentário forneceram a ficção de saídas e alternativas, com cada entrevistado a contribuir para o curso da história, ditando deste modo o conteúdo e direcção final do filme. Com o gesto do realizador em ceder o controlo do filme, a obra resultante situa-se entre o mais puro dos documentários, ao mesmo tempo que sugere o seu papel no nascimento de uma linhagem nova de cinema.

O que emerge não é só um retrato da vida urbana e rural na Tailândia, mas também uma fascinante incursão no seu inconsciente colectivo. É ao mesmo tempo um retrato dos não privilegiados, dos agricultores, dos vendedores de frutas e dos artistas de aldeia. A narração de uma história, intercalada com as imagens das entrevistas e protagonizada com actores amadores, fala sobre um menino com deficiência e sobre a sua tutora unindo de forma dramática o todo fílmico.

Simples, é um filme que tem tanto de refrescante como de belo, que se revela na sua deslumbrante fusão, da pureza de uma ideia como descrição da vida e de como a vida participa em partes sucessivas, frase por frase, linha por linha, no gracioso jogo de contar uma história.

Ao explorar o inconsciente – tão  realista como surrealista – dos  participantes, tornam-se abundantes os personagens, fantasias, significados e representações. A duplicidade serve o formato com primor ao revelar algo de concreto da realidade através da fantasia e revelar algo de provável sobre a fantasia através da realidade.

A edição final dá testemunho a toda esta ambiguidade sobrenatural, entre a história contada e a revivida, sobrepondo o som de uma actividade e a imagem de outra, justapondo uma e outra, ultrapassando as etapas de toda uma aventura que recomeça a cada momento.

“Mysterious Object at Noon” inicia com um homem que conta uma história ao mesmo tempo que se ouve uma canção pop na rádio. Depois vemos uma mulher que ajuda a gerir uma banca de peixe, em lágrimas, a contar como o pai a vendeu ao tio quando era criança, e como esse facto a levou a nunca mais ir a casa e a mudar-se para Banguecoque. Weerasethakul pergunta-lhe se ela quer contar uma outra história, real ou fictícia, e, após o corte, estamos na história inventada. Uma crónica que envolve um rapaz numa cadeira de rodas que é tutelado em casa, num subúrbio de Banguecoque, por uma mulher chamada Dogfarh.

A determinado ponto a professora desculpa-se e desaparece para não voltar. O rapaz vai à sua procura e encontra-a inconsciente no chão, tenta reanimá-la, e vê um objecto misterioso rolar debaixo da saia dela. Nas inúmeras versões posteriores as alternativas de interpretação para o objecto misterioso são deliciosas. Numa delas o objecto torna-se numa bola voadora que produz um menino em miniatura.

A mitologia etérea, física ou entrelaçada, que ao mesmo tempo fascina e desafia, coloca-nos na descoberta de uma cultura onde folclore e ‘paixão’ convivem pacificamente com a realidade do dia a dia. O filme, apresentado num granulado 16 milímetros a preto e branco, funde perfeitamente a assemblage da narrativa e a rodagem do pseudo-documentário, e o espectador é presenteado com um trabalho sublime, singular e com um coração budista, milenar. Uma viagem que não vive de estruturas óbvias e nos mostra a actividade humana a uma certa distância e numa determinada extensão, como se tudo não passasse afinal de uma ficção. Na sua essência, “Mysterious Object at Noon” examina a função e o poder das histórias enquanto artefactos culturais e explora o modo de como essas histórias preservam e reflectem o espírito da época.

José Drummond

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