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“Sinto-me como um júnior chamado à equipa principal”

Entrou para uma lista onde estão Miguel Torga, Lobo Antunes, Rubem Fonseca. E outros grandes da literatura escrita em português. Os melhores. O Prémio Camões é muito, mas em nada altera a relação de Manuel António Pina com as palavras que escreve.

Isabel Castro

– “É a coisa mais inesperada que poderia esperar”, disse na reacção à atribuição do Prémio Camões. Agora que passaram alguns dias, a ideia de inesperado já passou?

Manuel António Pina – Já começo a habituar-me à ideia, embora continue a sentir-me desconfortável naquele panteão de premiados, a generalidade grandes escritores que admiro. Se me é permitida uma metáfora futebolística, sinto-me um pouco como um júnior que foi chamado à equipa principal.

– É jornalista, é poeta, é escritor – e quem escreve, quem publica, fá-lo para ser lido. Os prémios agradam-lhe mais pelo facto de serem o reconhecimento de uma obra ou pela maior visibilidade que trazem à obra?

M.A.P. – Hoje estou convencido (nem sempre foi assim, uma altura houve em que julgava que escrevia para mim próprio) que, mesmo na literatura mais autista, existe sempre um leitor espreitando por cima do ombro daquele que escreve. A língua, diz Barthes, é a familiaridade social do poeta. O simples facto da escrita implica a leitura, potencial que ela seja. No entanto, a relação que eu tenho com a literatura, e em particular com a poesia, é alheia ao comércio. Não sou decerto indiferente ao facto de os meus livros venderem mais ou menos (e, no concreto caso dos meus livros de poesia, não posso aliás queixar-me; a minha “Poesia reunida” vendeu os dois mil exemplares da primeira edição, o que, para poesia, é um número desmesurado não apenas em Portugal), mas não escrevo poesia com o objectivo de vender muito (nem pouco), escrevo apenas. A poesia – e poderia dizer o mesmo da literatura ‘infantil’ – constitui, para mim, um modo particular, e em boa parte obscuro, de relação comigo mesmo e com o mundo. Eu sou o juiz mais severo, pelo menos esforço-me por isso, da minha obra e não são o reconhecimento ou a visibilidade dela eventualmente resultantes de prémios que me tornam condescendente. Muitas vezes, ao ser premiado, me tenho perguntado, com Nietzsche, se não terei feito batota…

– O que é mudou com o Prémio Camões?

M.A.P. – Já tenho dito que desisti há muito de tentar mudar o mundo, só me preocupando agora evitar que o mundo me mude a mim. E o Prémio Camões é decerto um acontecimento mundano.

– Vamos ao início de tudo. Li numa entrevista que deu há alguns anos que escreveu o seu primeiro poema ainda em criança. Quando é que descobriu que escrevia poesia? Houve um momento preciso em que pensou ‘sou poeta’?

M.A.P. – Não escolhi ser poeta; pedindo desculpa pelo cliché, ser poeta é que me escolheu a mim. Desde que me conheço, sempre procurei o verso para me exprimir (ou apenas para falar comigo e com os outros, mesmo ‘sans avoir rien à dire’). Com seis ou sete anos, punha em verso os meus sonhos e os meus medos (descobri por mim que os pesadelos se diluíam se, quando acordava assustado de noite, procurasse descrevê-los em verso), e todas as confusas e angustiantes perguntas da infância como as respostas às coisas mais simples (por exemplo, à usual questão ‘O que queres ser quando fores grande?’). Minha mãe guardou durante muitos anos esses versos e ainda devem andar algures lá por casa. O meu primeiro ‘poema’, dizia-me ela, foram uns versos, em dísticos rimados, acerca da Rainha Santa Isabel e do milagre das rosas, história que provavelmente ela própria me contara.

– E quando é que percebeu que a palavra encerra a ideia? Que o poema nasce sim da palavra e não de uma ideia de poema?

M.A.P. – Talvez o termo não seja ‘encerrar’. Do mesmo modo, talvez o poema não ‘nasça’ da palavra. O poema é, antes, palavra (ou palavras), um fazer de palavras feito e imperfeito, ou seja, feito do seu próprio fazer, como diz Jean-Luc Nancy. Falo, obviamente, do modo como eu próprio entendo o fazer da poesia, que não tem de ser um entendimento universal. E isso foi algo que fui descobrindo exactamente fazendo (e lendo) poesia. As ideias são sempre exteriores e posteriores ao poema, mesmo na poesia mais logopaica.

– O jornalismo ajudou neste conceito de pensar a palavra, foi um exercício de escolha da palavra certa?

M.A.P. – Já em outras ocasiões tenho respondido à questão das relações entre poesia e jornalismo. Acho que, no meu caso, o jornalismo ensina uma coisa essencial à poesia: a humildade, o sentimento de que, como diziam os velhos tipógrafos, tudo no dia seguinte acabará por servir, como os jornais, ‘para embrulhar peixe’. E a poesia uma coisa não menos essencial ao jornalismo: o respeito pelas palavras, o facto de as palavras não servirem apenas para dizer o mundo, tendo também a formidável e, às vezes, assustadora capacidade de convocar mundos e de serem mundo.

 – Quem analisa a sua obra fala numa consistência ao nível das temáticas. Reconhece-a? Identifica-a?

M.A.P. – Talvez esteja próximo de mais para isso, mas quero crer que morte, amor, tempo, são a matéria de que é feita toda a literatura, a minha incluída.

– A poesia existe para ser dissecada? Ou só para ser sentida, interpretada, acrescentada pelo facto de ser lida?

M.A.P. – Existe para (e por) ser lida tanto quanto para (e por) ser escrita, que não são coisas substancialmente diferentes.

– Lê o que escreve, o que escreveu. Identifica-se sempre com o seu passado por escrito? E distancia-se o suficiente do que escreve para fazer novas interpretações?

M.A.P. – Muito raramente releio o que escrevi e publiquei, só – como recentemente aconteceu – quando tenho de preparar, por exemplo, uma antologia ou uma reunião de toda a minha poesia. Diz Eliot, referindo-se ao momento em que, no final do processo de criação poética, o poema chega ao livro: ‘Que descanse em paz’. A publicação é, de facto, uma forma de morte, o acabamento de um processo. A partir daí, o poema fica entregue a si próprio. Posso, numa reedição, substituir ou mudar de sítio uma vírgula, eliminar um parênteses ou um ponto de exclamação, mas sinto que seria quase desonesto pôr-me a reescrevê-lo. Na verdade, os poemas publicados foram  sempre escritos por outra pessoa, às vezes já muito distante de mim,  não exactamente, nem propriamente, ‘eu’ (o que quer que ‘eu’ signifique).

– Tem Fernando Pessoa como uma enorme referência – e há quem encontre influências de Pessoa na sua poesia. Detecta-as? Tenta contrariá-las? Ou estas tentativas de análise à obra não fazem qualquer sentido?

M.A.P. – Pessoa é algo, e a sua influência também, irremediável, algo que não pode deixar de ter acontecido. Seria absolutamente surpreendente que qualquer poeta de língua portuguesa posterior a Pessoa não tivesse sido influenciado por ele (como ainda por muitos outros poetas). Mesmo que, por hipótese, houvesse um poeta de língua portuguesa posterior a Pessoa que nunca o tivesse lido, teria decerto lido outros que o leram. E, por outro lado, a influência manifesta-se, como Bloom ensinou, de muitas formas, sejam elas o afrontamento edipiano, o desvio e a tresleitura (‘misreading’).

– Pelo que me foi possível ler, cita Jorge Luis Borges com frequência, para dizer: “Eu sou todos os livros que li, todas as pessoas que conheci, todos os lugares que visitei”. Qual é o resultado dos livros que leu, das pessoas que conheceu e dos lugares que visitou?

M.A.P. – Boa pergunta. Já a resposta pode não ser tão boa: o resultado é o que fundamentalmente, como toda a gente, sou, memória. No caso, e a acrescer à memória biológica, memória social e memória cultural.

– O que é que transporta mais consigo: as páginas que leu ou as que escreveu?

M.A.P. – Não gosto de distinguir excessivamente leitura e escrita mas, vistas assim as coisas, ponho a cruzinha nas páginas que li.

– Não escreve apenas poesia – tem também livros para crianças, catalogação que até prefere não usar porque entende que os livros não têm destinatário definido. Diz que entre escrever poesia e estes livros não existem diferenças. As histórias que conta (para crianças e não só) também nascem de uma palavra, que puxa o conceito, ou a construção da narrativa é feita de outro modo?

M.A.P. – Há certamente diferenças mas, fundamentalmente, de resultado. Do estrito ponto de vista da criação, a minha atitude é a mesma ou, pelo menos, é tão a mesma quanto entre dois diferentes e concretos poemas ou duas diferentes e concretas narrativas ‘para’ crianças (tem de se lhe chamar alguma coisa, não é?).

– O que é que lhe dá mais prazer, se é possível a distinção: a poesia ou a prosa?

M.A.P. – Agustina disse-me uma vez que os poetas são preguiçosos pois escrevem pouco (em geral, um poema é, de facto, mais curto que um romance). Talvez, não sei, Agustina nunca tenha escrito um poema, já que, como julgo que um romance, tanto pode acontecer um poema ser fruto de um momento como ser uma lavoura de anos. Já tenho escrito e publicado prosa narrativa; contos e uma novela, além dos contos ‘para’ crianças. A imperatividade que me leva a escrever poesia, bem como a sensação de apaziguamento (‘delivrance’, a palavra francesa para ‘parto’ contém a ideia, que me parece adequada ao processo poético, de libertação) quando o poema está finalmente escrito são substancialmente diferentes, e psicologicamente muito mais remuneradores, da motivação que, no meu caso, leva de prosa narrativa.

– E a ficção “para adultos”, com “Os Papéis de K.” – uma experiência mais recente –, como é que aconteceu? É para repetir?

M.A.P. – A novela “Os papéis de K.” nasceu da minha curiosidade (e da minha paixão) pelo Japão e pela cultura tradicional japonesa, na circunstância o xintô e a sua inesgotável tolerância de diferentes formas religiosas. Sendo ateu (e, se calhar, por isso), fui desde sempre um leitor ávido de textos religiosos, não só livros sagrados mas também obras de místicos e teólogos. Em termos de motivação imediata, o livro nasceu da forte impressão que me causou uma estada em Nagasaki em 1984 e, simultaneamente, a descoberta da existência de uma velha lenda japonesa segundo a qual quem morreu na Cruz terá sido um irmão de Cristo, e Cristo fugido para o Japão, onde viveu até aos 106 anos, deixando vasta descendência. Como motor narrativo (um deles, há vários), imaginei uma espécie de concílio de todos os ‘kami’ do panteão xintoísta, um pouco à maneira de “O concílio do amor”, de Oscar Panizza. Não tenho, para já, qualquer projecto para voltar proximamente à novela.

– Há algum poema que preferiria não ter escrito?

M.A.P. – Não.

– E há algum em relação ao qual sinta ‘é este’? Ou o que vem a seguir é sempre mais seu?

M.A.P. – As minhas preferências têm mudado ao longo dos anos. Subintitulei a antologia poética que eu próprio preparei e a Assírio & Alvim acaba de publicar de “uma antologia pessoal” justamente porque, noutras circunstâncias, teria certamente feito escolha diferente. Talvez haja, no entanto, uma espécie de ‘núcleo duro’ de poemas que incluiria sempre, como, por exemplo, os cinco poemas do ciclo “Farewell happy fields”; mas também outros (“Numa estação de metro” ou “Emet”, ou até “Separação do corpo”, ainda e sempre por exemplo). E, embora o meu livro de poemas de que me sinto mais próximo, e não apenas temporalmente, seja “Os livros”, a maior parte desses poemas por assim dizer nucleares pertencem a recolhas anteriores.

– A poesia em Portugal está bem?

M.A.P. – Quatro ou cinco grandes poetas (refiro-me a todo o século XX, e quatro ou cinco grandes poetas num século é, em qualquer literatura, um número enorme; por algum motivo o século XX já foi classificado de ‘século de oiro’ da poesia portuguesa) e, depois, muitos ‘bons poetas no estilo do período’, como Ezra Pound os chama.

– Como já referiu, tem uma relação com a sua poesia semelhante à dos jornalistas com os seus artigos: esta entrevista é efémera. O Prémio Camões (que de efémero nada teve) veio mudar a noção que tem da sua obra?

M.A.P. – Não. Como já antes disse, tudo – a poesia e o resto – tende para o esquecimento; acontece apenas que umas obras são esquecidas primeiro que outras. Quanto ao Prémio Camões, como julgo ter também já dito, não altera em nada a relação que tenho com a minha obra (escrever ou dizer ‘minha obra’ sempre me foi especialmente penoso; custa-me muito perceber aquilo que tenho escrito como uma ‘obra’).

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