Uncategorized

Aconteça o que acontecer

José Drummond

O engano das aparências é o alicerce mais explorado no drama histórico romântico “Purple Butterfly”, do realizador chinês Lou Ye. O filme de 2003 conta com uma interpretação de Zhang Ziyi que nos prende ao enredo e eleva o filme, especialmente pelo seu lado não glamoroso, ao contrário do que lhe é habitual.

A narrativa junta espionagem, amor e traição, em redor de uma jovem mulher que luta contra a ocupação japonesa em Xangai. Uma história aparentemente simples dos anos 30, pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Sino-Japonesa.

“Purple Butterfly” é dominado por rostos. A câmara favorece-os quase obsessivamente, banhados em tons de azul no anonimato da multidão. O filtro azul adiciona mistério a uma acção que ocorre muitas vezes durante a noite ou com chuva. A sensação de claustrofobia opressiva é brilhantemente agravada pela chuva aparentemente interminável.

Os tiques estilísticos de Lou Ye estão quase todos contidos no prólogo do filme. Passagens lentas, um olhar frio, câmara livre – por vezes o trabalho de câmara é como a de um espectador nervoso, tentando descobrir onde se concentrar e dar sentido ao caos –, planos fora de foco, diálogos mínimos, indulgentes faltas de informação a alimentar uma poderosa desconstrução que visa levar o observador para o ponto das emoções.

O filme começa na Manchúria, nordeste da China, em 1928. Cynthia (Zhang Ziyi) é uma jovem chinesa que tem um caso clandestino com Itami (Nakamura Toru), um homem japonês. Ele deve voltar para casa para cumprir o serviço militar e ela está arrasada naquilo que será o começo do seu mundo a desmoronar-se. Os olhos de Cynthia e Itami, e o seu amor discreto e impossível, separados em lados opostos da estação ferroviária, cortados pelo som de um comboio a passar, dão o tom inicial a uma viagem existencial.

De vez em quando Lou Ye salta para trás na repetição de um incidente a partir do ponto de vista de outro personagem, de modo que o que é assumido sobre relacionamentos e eventos é posto em causa e reordenado ao longo de todo o filme.

O rosto de Cynthia serve esse reordenamento na junção dos detalhes da luta existencial. Fundamental a tónica dada quando o irmão mais velho de Cynthia, que trabalha num jornal anti-nipónico, acaba morto brutalmente por extremistas japoneses. O tempo parece congelar nesse momento, e o fumo e caos das bombas dissipam-se no rosto de Cynthia, que rompe a névoa azul, revelando um esmagador sentido de perda.

“Purple Butterfly” salta de seguida para 1931, em Xangai, introduzindo um jovem casal. Apesar da recente invasão japonesa, Szeto (Liu Ye) e Yiling (Li Bingbing) parecem felizes. Vão ao cinema e dançam romanticamente em casa. No exterior os manifestantes protestam contra as incursões japonesas na China a partir do nordeste. A sua existência sem complicações é dissolvida quando Szeto é confundido com um membro de um grupo de resistência chinesa numa estação de comboios.

No meio da densamente povoada estação, e enquanto Szeto é levado, Yiling acaba morta circunstancialmente por Cynthia, que mudou o nome para Ding Hui e que trabalha agora como membro do grupo de resistência com o código Purple Butterfly. Este período do filme vai até 1937.

O conflito entre o Japão e a China alterou de forma irrevogável os destinos de Cynthia, Itami e Szeto. Itami torna-se alvo político de Cynthia por causa de sua proximidade com Yamamoto (Kin Ei), uma figura importante no Governo japonês.

Zhang Ziyi enche o filme nesta luta entre a escolha de fidelidade ao seu ex-amante ou ao seu país, pela honra da memória do irmão. O amor não é tão facilmente atingível.

O filme constrói a pouco e pouco um clímax sangrento de vinganças múltiplas e o romance fica na reposição da memória em troco da realidade. Do poder olhar para trás com carinho mas sem lugar na existência renovada. Num plano a lembrar Bogart em Casablanca, Itami repete “aconteça o que acontecer, eu nunca esquecerei” numa tentativa de ocultar o inevitável.

O desespero da dupla só é superado pelo de Szeto, que se torna na verdadeira tragédia de “Purple Butterfly”. O seu caso de engano de identidade leva-lhe não só a amante, mas também a sua dignidade e sanidade. Torturado pelos japoneses e usado como um peão político, Szeto é empurrado para perto da loucura, ao que responde com uma onda de assassinatos.

Numa cena chave, Szeto está em casa, sem emoção, bem vestido, segurando uma arma contra o peito. Ao tentar reunir coragem para acabar com a sua própria vida, ouve uma música que lhe lembra Yiling. Fecha os olhos e perde-se numa reflexão calma e contemplativa equilibrando os resultados de dois destinos diferentes. Ao abri-los escapa-se-lhe uma lágrima, sinalizando um ponto de viragem que dirige o seu destino para o pior. Lentamente, em silêncio, o seu rosto revela a sua desconexão, desligando-se emocionalmente para abraçar completamente o papel do assassino que irá provar a sua ruína.

“Purple Butterfly” é dominado por rostos e destinos onde as ambiguidades existenciais, e a conjuntura política e amor se encontram numa fusão de diversos interesses com desfecho trágico.

“Purple Butterfly”

Lou Ye, 2003

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s