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Filmar como o rio que corre

Terrence Malick é um cineasta à procura. À procura de qualquer coisa espiritual e terrena ao mesmo tempo, que está dentro das pessoas e no meio da floresta. “The Tree of Life” deu-lhe a Palma de Ouro. Os filmes e a reclusão criaram o mito.

Hélder Beja

Um homem assassino em fuga, que se mete pelos bosques e pelas planícies americanas. Um homem trabalhador, que não tem nada e que parte em busca do paraíso prometido. Um homem soldado, que encontra na vida de uma tribo outro mundo que não conhecia. Um homem descobridor, que viaja para as Américas inexploradas e por lá se encontra. Assim, em quatro frases simplistas, percorremos os quatro filmes de Terrence Malick antes de “Tree of Life”, este que agora começa a estrear um pouco por todo o mundo (hoje em Portugal) e que há dias lhe valeu a Palma de Ouro em Cannes – que o cineasta não foi receber.

“Badlands” (1973), “Days of Heaven” (1978), “The Thin Red Line” (1998) e “The New World” (2005), pela ordem do que deles dissemos no parágrafo anterior, foram suficientes para criar o mito Malick. Como as personagens principais dos seus filmes, também Malick tem feito tudo por permanecer à margem. Ou, por outra, permanecer onde acha que deve estar, longe dos holofotes, perto dos pássaros, da água e do verde que gosta de contemplar e filmar.

O cineasta norte-americano, nascido em 1943 no Illinois, nem sempre foi assim, porque nem sempre foi famoso. Antes de pegar na câmara com propósitos mais sérios, estudou Filosofia em Harvard e especializou-se no filósofo alemão Martin  Heidegger – e aqui, em toda a problemática do sentido do ser, encontram-se alguns caminhos para a obra que o realizador vem construindo. Seguiu depois para Oxford, onde não chegou a completar os estudos. Trabalhou como professor, como jornalista e, diz-se, até em poços de petróleo.

“Badlands”, a sua primeira longa-metragem, foi a última e uma das poucas vezes em que passou para a frente da câmara num papel muito secundário – aparece também em “Pocket Money”, de Stuart Rosenberg, um ano antes, e na sua única curta, “Lanton Mills”, de 1969. A grande estreia de Malick na realização, “Badlands”, é um ‘road movie’ com os hoje irreconhecíveis Martin Sheen e Sissy Spacek, ele desvairado e com sede de viver, ela inocente e apaixonada pelo penteado dele, à James Dean. O filme introduz traços que poderemos reconhecer nos filmes que se seguem: a voz narrativa muito presente e muito senhora da verdade; a Natureza como reduto de uma humanidade conspurcada e os longos planos com que Malick a capta; as personagens introspectivas.

Anos depois – poucos, se pensarmos no intervalo seguinte – chega “Days of Heaven”, sobre uma terra virgem e um Richard Gere aventuroso. O filme não colhe como colhera o anterior – apesar do prémio para melhor realização em Cannes, nesse ano de 1978 – e Malick desaparece (quase) definitivamente.

Foram precisos 20 anos para que o eremita saísse da reclusão para mostrar “The Thin Red Line”, o mais premiado e um dos melhores trabalhos de Malick até agora. Alguma crítica olha para o filme de guerra que não é só um filme de guerra como a obra de um ‘soldado’ que parou no tempo e numa certa ideia de mundo e de cinema. Mas “The Thin Red Line”, já escreveu alguém, é um “Saving Private Ryan” para gente inteligente.

O filme viaja entre o encontro do Homem com o seu estado mais primitivo e o encontro do Homem com a sua versão mais cruel. É uma crítica do progresso que fica quase toda dita no olhar encharcado e perdido de Jim Caviezel. O protagonista de “The Passion of the Christ” é só um da extensa lista de actores em ascensão que se juntaram ao projecto: Sean Penn, John Cusack, Adrien Brody, John C. Reilly, George Clooney. E também de outros mais vividos, como Nick Nolte. O resultado foi arrebatador.

O mistério quase sacro que rodeava e rodeia a figura de Malick – e o seu cinema vincadamente de autor – fizeram e fazem com que haja muita estrela de Hollywood interessada nos projectos a que se atira, caso de Brad Pitt neste “The Tree of Life”. Isto, a tal reclusão e os contornos da sua obra fizeram com que começassem a fazer-se paralelos com Stanley Kubrick.

“Tree of Life”, que ainda não vimos, foi de certa maneira encarado como o “2001: A Space Odyssey” de Malick, por ser, como escreveu o Público, um “poema mitológico sobre a criação do universo”. Mas a comparação (sempre arriscada) pode ir mais atrás. Como Kubrick em “Full Metal Jacket”, também Malick ensaiou o filme de guerra com um olhar próprio. Como o autor de “Barry Lyndon”, também o agora vencedor da Palma de Ouro arriscou o género épico, em “The New World”. Como Kubrick em “A Clockwork Orange” e “The Shining”, Malick investe na violência e na fronteira entre o bem e o mal que vemos em “Badlands” e “The Thin Red Line”. Finalmente, Kubrick soube igualmente mexer-se no grande circuito, lançando muitos actores mas trabalhando também com nomes consagrados como Jack Nicholson, Tom Cruise e Nicole Kidman.

James Hoberman, crítico americano, chegou a dizer que enquanto outros ganham fãs, Malick colhe discípulos. “Há um nível de mistério que vem do facto de não dar entrevistas e não estar perante os olhos do público; ele deixa os filmes falarem por si mesmos”, completou a autora de “Poetic Vision of America: The Cinema of Terrence Malick”, Hannah Patterson, ao jornal Independent. “De certo modo, concentramo-nos nos filmes se houver menos para saber sobre o realizador; de outra maneira estaremos a ligar psicologicamente o seu passado aos filmes.”

A posição da autora é discutível. Como tudo, aliás. Mas é verdade que a aura misteriosa do raramente fotografado Malick – a que se junta um espiritualismo que cultiva mesmo com os actores com quem trabalha – atrai ainda mais atenção para a obra do cineasta. Terrence Malick não é Deus, e não é sequer ainda comparável a Kubrick no lugar que ocupa no panteão do cinema. Mas, seja ela mais ou menos naïf, vale a pena conhecer a sua obra.

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