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O andar de cima

Isabel Castro

Já não nos lembramos quando foi, mas foi há uns quantos anos, ainda antes de os tribunais passarem a andar de elevador. Depois as portas fecharam-se, só se abriam para que gente de rosto anónimo carregasse caixas com pilhas de papéis, milhares de histórias de vida em forma de articulado, vidas ganhas, vidas perdidas, negócios contados, negócios desfeitos. As portas fecharam-se e foram anos à toa. Memórias de momentos encerradas no meio da cidade, no meio da confusão, quase isoladas dos sons da rua. E depois os vidros partidos, o pó que não se vê mas que se adivinha. As memórias encerradas no meio da cidade, na cidade que não tem memória.

De repente há uma noite, noite alta, em que há luz numa das janelas, no piso térreo. Há uma dança de cadeiras e alguém que se lembra do óbvio: uma casa fechada é um cadáver, é uma vida que já não tem vida, intimida, assusta, entristece. Há alguém que se lembra do óbvio e decide abrir as portas, abrir o corpo, mostrar as entranhas. Sem pudor. Com respeito.

Fizeram-se as intervenções mínimas para que nada nos caia em cima. Manteve-se o resto. As lajes com marcas do tempo. A humidade nas paredes, a tinta que falta nas paredes, as redes e janelas a precisarem de uma mão amiga. Numa sala vê-se uma corda tímida a impedir o acesso para uma espécie de mezzanine e é impossível não pensar no passado, na utilidade que teve tão estranho espaço numa casa como esta, que do tempo que foi só guarda as paredes, as cordas e as escadas.

O resto foi retirado, limpo, deu espaço a uma exposição que serve de pretexto para abrir as portas, que vale sobretudo porque quem pintou os quadros e fez as esculturas é daqui. E à exposição vão os pais, os tios, os avós e os amigos que também são daqui e querem ver as obras expostas. Não sabemos se ao entrar se detêm a pensar na porta ovalada que, imóvel, está ao cimo do escadario, esses degraus que dizem tudo sobre este corpo que afinal não morreu – está só moribundo. Talvez não reparem na porta, que empresta um ar de fortificação às escadas, mas entram, estão ali, vivem os últimos dias de uma casa que um dia destes vai para obras. Que, na realidade, já está em obras, dizem-nos, mas só para segurar tectos e paredes. Há-de vir o projecto para fazer do velho um novo espaço. Por aqui nada se segura muito tempo.

A exposição foi um pretexto. O que nós queríamos mesmo era ir ao andar de cima, espreitar as salas, ver se a madeira ainda lá está, imaginar becas e togas, e arguidos sentados no banco dos réus, e os outros todos a ouvir e a tomar notas, as vidas perdidas, as vidas salvas. Mas o andar de cima só com requerimento, pedido por escrito, não temos a caneta e o papel à mão, a resposta vai demorar e nós só queríamos espreitar com o silêncio a que os corpos moribundos obrigam. Não pode ser, não para já, explicam-nos. Era só subir as escadas.

Já não nos lembramos quando foi, quando é que lá entrámos, quando é que subimos as escadas, foi há uns quantos anos, mas sabemos que tudo aquilo era maior. A casa era maior, imponente, cheirava a pilhas de papéis com histórias de vida e tinha gente lá dentro.

Quando se fecham as casas, fecha-se a dignidade. O tribunal agora anda de elevador e talvez um dia destes o antigo tenha livros, outras vidas, outras histórias. E gente, muita gente.

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