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O autor que nos diz sobre tudo o que vivemos

Aconselharam-lhe um poeta morto mas preferiu um que estivesse em plena produção. Inês Fonseca Santos, autora e jornalista, escolheu Manuel António Pina para uma tese de mestrado e continua a lê-lo, a estudá-lo. Explica-nos por que se deve ler o Prémio Camões. É tudo uma questão de vida.

Isabel Castro

“É muito complicado falar da obra de Pina sem pensar em tudo.” Este tudo a que Inês Fonseca Santos faz referência é a poesia, a literatura infanto-juvenil, as crónicas publicadas nos jornais e revistas portuguesas. É como se Manuel António Pina fosse mais do que um, fosse muitos, mas não – é só um. “Todos os temas estão lá, porque escreve crónicas sobre a infância, poemas sobre gatos, poemas sobre filosofia e literatura infanto-juvenil em que fala de tudo isto de uma maneira diferente.” Este modo diferente de escrever tem, ainda por cima, “uma grande vantagem”: o Prémio Camões 2011 tem “um humor e uma ironia muito próprios, que torna tudo aquilo que escreve especial”.

Apesar de Manuel António Pina ser um só, e de os temas que lhe são atribuídos se manifestarem nas diferentes formas que assume a sua escrita, há que ir por partes. “Como cronista, é aquilo que o júri do Prémio Camões sublinhou: um cidadão activo e participativo, vai-nos alertando para as situações caricatas do nosso dia-a-dia, ou vai apontando para o que se está a passar e que tem que ver com as decisões que são tomadas a todos os níveis no nosso país”, introduz Fonseca Santos, autora de uma tese publicada em 2006 sobre a poesia de Pina. Se o escritor tem crónicas sobre “temas complicadíssimos”, também as tem “sobre um gato”. Ou seja, “está ali tudo o que nós vivemos”.

Mas há temas que são mais ou menos próximos do leitor. A investigadora e jornalista, que construiu a sua tese também para “ajudar a que as pessoas compreendam e encontrem afinidades com a obra poética” de Manuel António Pina, elege alguns. A começar pela infância, momento que marca a obra do autor. “É um símbolo muito poderoso. Todos nós guardamos recordações da infância, boas ou más, e temos de certo modo uma nostalgia de um tempo que passou e ao qual não podemos regressar.” Pina, continua Fonseca Santos, tem “esta capacidade de olhar para as coisas pela primeira vez e de as inverter, de criar jogos de palavras”.

Depois, há a questão da memória, “e de percebermos, quando lemos, que somos feitos de memória”. A investigadora recorre ao que o próprio Manuel António Pina diz, frequentes vezes, para subscrever que tudo aquilo que somos são as nossas memórias, as lidas e as vividas. “Isso na obra dele é muito claro – e é tão generoso como autor que assume essas influências todas sem aquela angústia tão famosa sobre a qual escreveu Harold Bloom.” Pina não tem problemas em assumir que Fernando Pessoa é incontornável para os que nasceram depois dele.

Numa estante do Chiado

“A poesia de Pina permite a aproximação das pessoas, se as pessoas tiverem disponibilidade para a ler. O que tentei fazer na minha tese foi isso: apresentar caminhos para a leitura da obra dele.” Manuel António Pina surgiu quase por acaso na vida de Inês Fonseca Santos. Licenciada em Direito, devia ser hoje advogada, mas não gostou do curso. E por isso decidiu fazer um mestrado em Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, conta a jornalista e apresentadora do Diário Câmara Clara, programa da RTP2.

Na faculdade explicaram-lhe logo que era preciso começar a pensar no que queria fazer do seu mestrado. E avisaram-na de que fazer teses sobre autores vivos não é recomendável, “porque boa parte deles, quando sabe que há alguém a trabalhar a obra, tenta controlar o que se está a pensar e tenta saber o que é que as pessoas estão a fazer”.

Fonseca Santos ainda pensou em seguir o conselho e lembrou-se de Mário de Sá-Carneiro, mas mudou de ideias e decidiu por outro caminho. Sobre Sá-Carneiro a teoria é vasta e apetecia-lhe trabalhar “um autor que estivesse a escrever”, um autor em que pudesse “partir quase do zero”. Ser ela a pensar a obra, o que seria impossível com o escritor de “A Confissão de Lúcio”. O que se seguiu veio quase por acaso.

“Um dia estava eu numa livraria do Chiado a olhar para a obra dos poetas, na zona de poesia – já conhecia ‘Nenhuma palavra, nenhuma lembrança’ e os ‘Cuidados intensivos’, dois livros de Manuel António Pina –, e resolvi pegar na ‘Poesia reunida’ e começar a lê-la.” Bastaram os primeiros poemas. “Mal os li, resolvi: é mesmo este autor, isto está a interessar-me.” E o motivo é simples, dito assim: “Estava ali naquela obra tudo aquilo que eu achava, e ainda hoje acho, que é a poesia, e todas as maneiras de escrever poesia, as maneiras de pensar a poesia”.

Para Inês Fonseca Santos, a obra de Pina não só é poética como “condensa um pensamento sobre escrever poesia e sobre o que é a poesia”, o que lhe redobrou o interesse. Decidiu arriscar, partiu para a identificação de temas, o facto de ter escrito sobre o autor antes da tese ajudou quando chegou a altura de a construir. E inspirou-se no objecto de estudo como metodologia: a infância na obra do autor e o modo como ele olha para o mundo, quando diz que “tenta manter aquele olhar das crianças, sem o filtro que nós, adultos, já temos”. E assim se fez “A poesia de Manuel António Pina – O encontro do escritor com o seu silêncio”.

Estudar um autor vivo pode ser um salto sem rede e partir quase do zero intensifica o perigo. “Por um lado é complicado porque estamos a arriscar mais, mas por outro é um grande desafio porque podemos começar a estruturar um pensamento sobre uma obra que merece ser divulgada.”

Hora para ser lido

Se há coisa que ajuda à divulgação são os prémios. As experiências passadas são disso exemplo: Fonseca Santos recorda que Ferreira Goulart chegou a Portugal depois de receber o Camões e destaca que o inverso vai agora acontecer, com a obra de Pina a ser “finalmente editada no Brasil”. A boa nova sobre o autor que estudou foi recebida inicialmente com incredulidade, “como o próprio Manuel António Pina”, e depois com uma grande felicidade. “Parecia que tinha sido eu a ganhar o prémio”, diz.

“Claro que quando se estuda um autor tem-se o desejo secreto de que receba todas as distinções porque, ao fim e ao cabo, ao estudar-se a obra, ganha-se algum amor pela pessoa”, contextualiza. “Desenvolve-se uma relação de amizade”, um sentimento que é partilhado até por aqueles que se debruçam sobre escritores já desaparecidos.

Inês Fonseca Santos percebeu que as regras têm mesmo excepções e que, no caso do trabalho que desenvolveu, os riscos para que a alertaram não existiam. “Manuel António Pina teve sempre uma atitude muito correcta, foi muito respeitador. Ia-lhe enviando os ensaios que ia escrevendo, ele lia-os com o maior interesse, e com a generosidade que lhe é característica. Nunca tentou influenciar-me, longe disso.” E depois “acabou por se tornar um amigo, porque tem muito para partilhar”.

Quando a investigadora soube o nome do Prémio Camões deste ano, o vencedor não era só o autor em quem decidiu apostar. “Foi também um amigo que ganhou o Prémio Camões. Fiquei felicíssima e pensei: ‘Agora vão ler mais este poeta que merece de facto ser lido’.”

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