Uncategorized

A nuvem dos sentidos

José Drummond

 

Alienação, saudade, uma incapacidade de comunicar ou reconhecer sentimentos são características da obra de Tsai Ming-liang. O seu trabalho atinge frequentemente o ápice do desespero emocional, por vezes com bóias interpretativas violentas. “The Wayward Cloud”, de 2005, cristaliza os vários motivos estilísticos do realizador de Taiwan para emoldurar um flagrante ensaio fílmico, de novo reflectindo sobre a condição humana nas sociedades modernas.

No entanto, neste trabalho, os enfeites visuais sempre muito peculiares tornam-se a ênfase da composição, o humor seco torna-se numa gargalhada rouca, e as profundezas emocionais foram drenadas e são mais secas que o habitual. É um filme que nos empurra para as noções comuns de obra de arte mas que também nos atira sem aviso para a repulsa, para um outro lado mais visceral onde somos obrigados a considerar as necessidades de contenção e somos levados a rever valores.

A série de reacções que poderá suscitar no espectador é um indicativo da natureza chocante do filme, bem como da disponibilidade de Tsai Ming-liang em jogar com as expectativas criadas em redor do seu trabalho. Embora contenha todos as suas obsessões – planos excessivamente longos, ausência de diálogo, a água como símbolo da vitalidade – parece também uma pausa em alguns níveis.

É, de longe, um dos seus filmes mais coloridos mergulhado na paleta de uma Taiwan multicolor, dos verdes dos jardins para o vermelho profundo das melancias omnipresentes. A cena inicial cruza duas mulheres num túnel cinzento, de passagem, para saltar de imediato para o quarto de uma delas que se encontra deitada na cama com uma melancia cortada a meio entre as pernas. O verde da casca e o vermelho do fruto encontram-se num erotismo ‘avant la lettre’ quando o personagem masculino interage e a mulher geme de prazer.

Mas, ao contrário de outros trabalhos seus, este filme não é sobre o desejo e sobre o fascínio da sexualidade (muito mais acessível e permutável), mas sim sobre a necessidade pura e crua da sexualidade, da troca de fluxos entre duas pessoas, e por isso poderá realmente chocar.

As cenas de amor são mesmo de sexo e são controversas situando-se entre uma auto condenação pessoal e libidinosa e uma crítica ao género pornográfico. As suposições que levanta não deixam ninguém indiferente.

Outro aspecto estranho e muito conseguido é que “The Wayward Cloud” pega nos personagens de “What Time is it There”, de 2001, e fá-los reencontrar numa roupagem que o tempo amassou.

Três anos antes Hsiao-kang (Lee Kang-sheng), vendedor de rua de relógios, fica obcecado com uma rapariga que está de partida para Paris. Entre o desejo incontrolável por um ideal imaginado e a histeria religiosa da sua mãe recentemente viúva, Hsiao-kang balança-se no porão de um colapso psicológico, espalhado pelo asfalto como um cadáver sem sangue. No outro lado do mundo, Shiang Chyi (Chen Shiang-chyi) confronta-se a possibilidade de se perder numa terra estrangeira. Eis que ambos os personagens estão de volta, mas sem nunca se terem voltado a ligar.

Shiang Chyi passa os dias sozinha, sem falar com ninguém, recolhendo os restos de garrafas de água para sobreviver a uma terrível seca. Hsiao-kang tomou a mensagem do governo de substituir a água com melancia, usando o fruto de modo sensual e pegajoso.

O movimento das suas vidas empurra-os mecanicamente para um reencontro de explosões coloridas numa dolente ruminação sobre o amor e uma deflagração de sexo. Hsiao-kang trabalha no mercado pornográfico e Shiang Chyi é ainda provavelmente virgem e sexualmente confusa.

Sorrisos extrovertidos e momentos de comédia romântica a encontrarem a impotência e o amor, desabrochando numa colisão de sentimentos que destroem conceito preestabelecidos de intimidade, sexo, amor e humanidade. “The Wayward Cloud” é o filme mais directamente emocional de Tsai Ming-liang. As cenas românticas são surpreendentemente doces e perturbantes, em contraste com o surrealismo grotesco das cenas de sexo. Esta franqueza afirma a sua posição extraordinariamente forte sobre a sexualidade como lugar estranho de ambiguidade sentimental.

 

Advertisements

One thought on “A nuvem dos sentidos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s