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Uma mulher entre dois mundos

 

Foi a escrita que a tornou conhecida – vende muitos milhares de exemplares pelo mundo fora – mas está em Macau como pintora. Shan Sa nasceu em Pequim e vive há mais de duas décadas em Paris. Por isso, diz, sente-se uma ponte entre dois mundos.

 

Isabel Castro

 

Às vezes pinta, às vezes escreve. Há alturas em que prefere o óleo, outras em que utiliza tinta-da-China. Escreveu sobre a primeira imperatriz do Império do Meio mas também sobre Alexandre o Grande. Tem um livro que é sobre o massacre de Tiananmen e os campos de reeducação, mas não se afirma como sendo particularmente dada a questões políticas – não nesta entrevista. Romancista premiada, Shan Sa (a quem foi dado o nome Yan Ni quando nasceu) vive entre dois mundos: tem em casa um prémio da Associação de Escritores da China mas também o francês Goucourt para obra de estreia. Em Paris, explica o que são os chineses aos ocidentais; na China, explica que o mundo onde vive desde 1990 não são só as malas Louis Vuitton. Considera-se não uma, mas duas mulheres. E usa uma mala Louis Vuitton. A convite da Fundação Macau, apresenta hoje a sua primeira exposição de pintura no território (“Tempo do Oeste, Luz do Oriente”), no Museu da Transferência.

– Veio a Macau na qualidade de pintora, mas é sobretudo conhecida enquanto escritora. Sente-se mais concretizada a pintar ou a escrever?

Shan Sa – Tenho períodos diferentes na minha vida. Comecei a escrever poemas e a estudar caligrafia quando tinha sete anos – estudei as duas disciplinas ao mesmo tempo. Na educação chinesa tradicional, existe uma relação muito forte entre poesia e a pintura. Mas os meus trabalhos começaram a ser publicados muito cedo, quando tinha nove anos – tornei-me uma poetisa nacional. Apesar de ter sempre seguido uma carreira como escritora, nunca me esqueci da pintura enquanto formação pessoal. Mas desde 2011 – e a minha primeira exposição foi inaugurada no dia 11 de Setembro – a pintura tornou-se, de facto, uma actividade importante. Tento equilibrá-la com a escrita.

– Não sente, portanto, que há alturas em que não se consegue concentrar na escrita por estar focada na pintura, e vice-versa.

S.S. – Acho que fazer as duas coisas não é uma contradição. E essa é a razão pela qual na China antiga todos os poetas eram pintores e todos os pintores tinham de ser poetas. Essa formação pessoal era necessária para construir o universo artístico.

– Como escritora, tem vários livros publicados. A sua obra está traduzida em mais de 30 línguas, incluindo em português. Como é que isto aconteceu? Começou a escrever poesia muito cedo, mas quando é que decidiu apostar no romance como o seu género literário?

S.S. – Hoje em dia, os leitores têm pouco tempo. Por isso, precisam de literatura que transmita conhecimentos de forma muito rápida e imediata. Todos os meus romances são escritos com muitas imagens, porque sou pintora. Quando escrevo, vejo o que quero escrever antes de passar para o papel. Os romances são lidos como se as pessoas estivessem a ver um filme, pelo que os leitores entram dentro do universo do livro e conhecem as personagens principais. Julgo que isto explica o sucesso dos meus romances porque, independentemente das diferenças culturais, mesmo aqueles que não conhecem determinado país ou região [focados nos livros] podem vê-lo, tocá-lo, sentir o perfume, e podem assistir à mudança das estações do ano. Mas tudo isto advém do que aprendi da literatura chinesa tradicional. No passado, a poesia chinesa usava os cinco sentidos para trazer o quotidiano àqueles que a liam.

– Com certeza que não gostará que se diga que os livros que escreve são fáceis, mas admite que se lêem com facilidade. No entanto, algumas obras têm conotações políticas, certo? Falo, por exemplo, de “A Jogadora de Go”.

S.S. – Tenho diferentes interesses na minha vida. Uma vez que nasci na China e me mudei para França, entrei em contacto com muitas pessoas desde cedo. Estudei Filosofia e História de Arte, e tenho amigos que são políticos, coleccionadores de arte, militares, cientistas, homens de negócios… Interesso-me por aspectos diferentes e a política é um deles porque faz parte da história. Estou muito empenhada em escrever como a história da China e a história do mundo ocidental foram construídas.

– Mas, e pegando de novo no exemplo de “A Jogadora de Go”, escreveu um romance em que uma jovem chinesa se relaciona, através de um tabuleiro de ‘go’, com um soldado japonês. É um assunto sensível, politicamente falando.

S.S. –  A parte revolucionária desse romance é o facto de estarmos na mente de um soldado que matou muitas pessoas. Através da sua confissão e da sua perspectiva, conseguimos perceber o que aconteceu a um rapaz, que era muito inocente, e qual foi a sua educação. E isso explica a tragédia que aconteceu na China e no Japão. Ele perseguia o ideal da perfeição e esse foi o início do seu crime. Depois o amor salvou-o, porque fez com que passasse a estar mais aberto a um outro mundo. Quem é idealista pode isolar-se facilmente da sociedade, porque está apenas focado no seu ideal, num bem superior que pode não ser o mais correcto. E isso acontece em muitos países a muitas pessoas, porque não comunicam uns com os outros, não conhecem outras culturas, não falam outras línguas. Acreditam que estão a fazer o que é mais correcto, mas do ponto de vista oposto é errado. E é assim que as pessoas se magoam. É esta a mensagem principal do romance.

– “Imperatriz” é outro livro que em muito contribuiu para a sua afirmação enquanto escritora. De onde surgiu a vontade de escrever sobre a primeira mulher a liderar a China?

S.S. – Antes de mais, sou mulher. Gostei muito de escrever sobre uma mulher contando a sua história, desde o início até ao fim. A vida de uma mulher é cheia de surpresas, revoluções, e está permanentemente sujeita à mudança, porque o corpo de uma mulher altera-se mais do que o de um homem. Ela [Wu Zetian] é um enigma, à semelhança de outras mulheres da história, como Catarina a Grande e Isabel I. Foram grandes mulheres, mas acusadas de muitos crimes e escândalos sexuais, de serem impiedosas e demasiado duras. Acho que ela [Wu Zetian] foi o melhor assunto e o mais desafiante para um romancista – e consegui fazê-lo, consegui escrever o livro e estou muito orgulhosa disso. Entrei na cabeça dela e através da minha escrita percorri a sua vida e as suas decisões, que podiam ser políticas, sentimentais ou terem na base considerações muito femininas, que nada têm que ver com os homens. Por exemplo: como escolher o penteado ou como ser uma líder mulher, que não tem marido. Descobri várias contradições: um imperador podia ter uma série de concubinas, de modo a ter a certeza de que iria gerar um herdeiro, mas a imperatriz não podia casar-se porque o homem que desposasse tornar-se-ia o imperador, perdendo assim o poder (risos). Por isso é que ela era uma mulher muito complicada no que tocava a assuntos amorosos, porque o amor era-lhe proibido.

– É um livro que foca a dinastia Tang. O seu pseudónimo foi escolhido de um poema da mesma dinastia – que foi muito rica do ponto de vista cultural. É um período da história da China que a fascina?

S.S. – A dinastia Tang é um dos períodos mais fantásticos da história da China e provavelmente da história mundial, porque foi uma época em que o império era muito aberto, cosmopolita e capaz de acolher muitas religiões. Nas capitais Tang viviam muitos estrangeiros, as pessoas falavam diferentes línguas e havia um clima de tolerância. As mulheres desempenhavam um papel importante e vestiam-se de forma muito sexy, sem serem criticadas – podiam ser sedutoras, andar a cavalo… A dinastia Tang foi também muito pacífica, apesar de ter havido invasões do exército em territórios que considerava chineses. No entanto, é uma dinastia de paz e julgo que isso aconteceu por ter estado uma mulher no poder. Ela procurou a paz, não tinha quaisquer outros interesses a não ser cuidar do seu povo e das mulheres. Por isso é que a dinastia foi próspera, dinâmica, com a China confiante da sua grandeza e com uma população muito feliz.

– Nasceu num período da história em que a China estava longe de ser um país aberto ao mundo ou tolerante, antes da reforma económica. Saiu de Pequim no ano a seguir ao massacre de Tiananmen, cujo aniversário se assinala amanhã e sobre o qual escreveu. Vive em França há muitos anos. Como é que olha para o aconteceu em 1989 e para a China de hoje?

S.S. – Começou tudo com o 4 de Junho. E julgo que a tragédia que aconteceu mudou a mentalidade das pessoas, porque o povo chinês estava muito envolvido na revolução e nos seus ideais. De repente as pessoas tornaram-se pragmáticas, e encontraram a liberdade no mundo dos negócios. Assim como o Partido Comunista Chinês – acho que fez um esforço tremendo para progredir. A abertura do mercado continuou, não foi interrompida pelo massacre e, tenho de o dizer, os direitos humanos melhoraram. A qualidade de vida melhorou de forma tremenda. Sou uma testemunha dessas mudanças espantosas na China. Quando era miúda não havia carne na China. A população toda de Pequim andava esfomeada. Comi o meu primeiro chocolate quando tinha nove anos. Hoje em dia, em qualquer parte da China tem-se um bocado de chocolate, tem-se tudo aquilo que se deseja, o que às vezes até é um grande desperdício. No passado tínhamos uma forma de partilha diferente, não tínhamos medo dos nossos vizinhos. Mas hoje as pessoas fecham as portas e tomam conta dos seus filhos. Não digo que isto seja a parte negativa, são as consequências da vida moderna.

– O que é que a levou a sair de Pequim e viajar até Paris?

S.S. – Acho que as pessoas têm de ser pragmáticas e aprender. Se as pessoas sentem que estagnaram em determinado sítio, então devem mudar de local, apesar do preço que têm de pagar por isso. Quando cheguei a Paris, percebi que as coisas não iam ser tão fáceis quanto tinha julgado. Não sabia – assim como os meus pais – o quão dolorosa e horrível era a emigração do Oriente para o Ocidente. Depois fiz o meu percurso, a minha formação – e isso não teve nada que ver com problemas políticos ou com o despertar de uma consciência política, foi apenas a emigração de um ser humano de um ambiente para o outro. Mas esse momento foi muito importante – a China ainda era comunista e Paris era a capital da liberdade.

– Falando agora da sua pintura. O que vem mostrar a Macau?

S.S. – Esta exposição é acerca do meu mundo, porque tenho este contexto muito específico: Oriente e Ocidente. Estudei pintura com os velhos mestres mas trabalhei durante dois anos com Balthus, o famoso pintor. Acho que esta exposição é acerca da liberdade, da energia, das viagens… Todos os meus quadros vêm da energia cósmica. Não são concebidos para serem figurativos, mas a abstracção é uma forma de alcançar a verdade e a perfeição pessoal. A minha perfeição é o universo de cores opostas, que se podem encontrar e misturar, resultando numa sinfonia no papel de arroz. Portanto, esse é o aspecto inovador que trago à pintura chinesa tradicional. Utilizo pincéis e tinta tradicionais. Às vezes perguntam-me: ‘é verdade que isto é papel de arroz?’, e eu digo ‘sim’. E depois querem saber como faço estas cores e eu respondo que não sei, porque só quero explicar o que vejo, o que amo. Estou a pintar o meu amor.

– Voltando ao início. Qual é o seu próximo projecto: uma exposição ou um livro? O seu romance mais recente foi publicado no ano passado.

S.S. – Vou ter uma exposição em Nova Iorque em Dezembro e estou a trabalhar nesta série de quadros, que são a óleo. Eu sou duas… (risos) Quando escrevo, às vezes sou um narrador do sexo masculino e noutras alturas sou mulher… O mesmo acontece quando pinto: vou alternando a tinta-da-china com o óleo. A tinta-da-china é fusão, ternura, transparência e aparência. O óleo é muito mais dinâmico e violento, às vezes é explosivo. É o meu lado masculino. Por isso agora é como se eu fosse um rapaz a pintar a óleo para a exposição nos Estados Unidos. Estou também a escrever um romance, mas com calma, porque publiquei o último recentemente. É um retrato da sociedade chinesa contemporânea, um diário das mudanças na China. É um livro sobre a China em 2011 e o mundo dos negócios no país.

– A China tem crescido muito da perspectiva económica e vindo a afirmar-se no contexto internacional. Sendo chinesa e vivendo em Paris, sente que o Ocidente já começou a perceber melhor o que se passa a Oriente?

S.S. – Julgo que faço parte dos embaixadores, e em ambos os lados (risos). Tento ensinar aos chineses o que é o mundo ocidental, porque eles não o compreendem – pensam que o Ocidente são as malas Louis Vuitton e Hermès, o que não é verdade. O Ocidente tem uma história fascinante. Por exemplo, Portugal teve grandes conquistadores e marinheiros, as crenças católicas, escritores e pintores – faz parte da história do mundo. Adoro explicar isto aos chineses, em chinês. Para mim é mais fácil, porque sou chinesa. Ao mesmo tempo, sou também capaz de explicar o que é a China moderna, porque o país mudou de forma tão rápida… Sou a infiltrada que explica por que é que os chineses agem desta ou daquela forma, e que diz ‘sejam simpáticos com eles, porque os chineses não são os monstros que vocês julgam, eles não vão engolir o mundo’.

– Sente-se à vontade em ambos os mundos.

S.S. – Sim, e às vezes penso que sou uma mensageira da paz. Acho que não deve haver um confronto entre Oriente e Ocidente. Faço a ponte para evitar a falta de compreensão.

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