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“Precisarmos todos de ficção nas nossas vidas”

De ficção e de pensamento. Foi isto, entre muitos outros impulsos, que levou o actor António Fonseca a decorar “Os Lusíadas” para dizer a obra em palco. Leu bem: decorar e dizer “de coração” todo o grande poema épico português. Está quase.

Hélder Beja

“Isto é uma ideia maluca”, assume o actor António Fonseca, homem do cinema, da televisão e, sempre e principalmente, do teatro. A ideia maluca é ‘só’ a de decorar e dizer em palco os dez cantos de “Os Lusíadas”. Fonseca, que já fez o mesmo com o “Sermão da Sexagésima”, do Padre António Vieira, começou em 2008 e hoje já sobe a palco – de teatros a escolas – com os cinco primeiros cantos e uma versão “zipada”, como o próprio lhe chama, da obra de Luís Vaz de Camões.

Daqui por um ano, para assinalar o 10 de Junho na então capital europeia da cultura que será Guimarães, o actor formado em Évora e ligado à Cornucópia durante mais de dez anos quer apresentar a versão integral de “Os Lusíadas”.

Em entrevista, Fonseca – que tem um vasto trabalho na área da educação e participações em filmes como “Os Mutantes” ou “Porto da Minha Infância” – explica as motivações desta empreitada, acompanhada online em http://lusiadasdecoracao.blogspot.com, que lhe ocupa os dias. Fala da missão de contar histórias e da vontade de quebrar o preconceito que existe em relação ao poema épico de Camões.

– A ideia de decorar todo “Os Lusíadas” surge em 2008, verdade? Como?

António Fonseca – Começou aí mas a ideia é inerente à minha própria condição de actor. Quando se tem como função, entre outras coisas, contar histórias, há sempre coisas que vão aparecendo. A história de “Os Lusíadas” é antiga e tem que ver como outras ligações, como quando fiz em Braga vários projectos com o Sindicato de Poesia; e onde fiz também no fim da década de 1990 um espectáculo com o “Sermão da Sexagésima”, de Padre António Vieira. Outras coisas foram aparecendo como possibilidades, sobretudo grandes textos da literatura portuguesa, de que a maior parte da população tem informação, já ouviu falar, mas depois realmente não conhece ou até tem preconceito, porque é muito difícil, porque é muito estranho. Em 2008, por várias circunstâncias, a coisa amadureceu na cabeça. Tinha um dilema: estava a pensar fazer um mestrado em questões de teatro, mas depois pensei que o mestrado não tinha graça, ia andar dois ou três anos a aprender uma coisa que depois não servia para nada. Então decidi decorar “Os Lusíadas”. Parece caricato, mas foi assim que amadureci a ideia, que tirei a maçã da árvore. Claro que há também a ligação que sempre mantive com a educação, que me leva a pensar que, como actor, devo ter imensa responsabilidade de fazer passar para as pessoas mais novas as grandes obras da literatura e do passado. Deveríamos ter essa competência de ler a poesia e os romances de uma forma muito mais fascinante do que a maior parte dos professores de Português faz – e claro que há professores de Português que fazem muitíssimo bem. Mas os actores deviam ter essa competência de falar um texto escrito. Essa também é uma das razões por que estou a fazer isto.

– Li o texto em que explica por que decidiu avançar e de certeza que muitos nos revemos nisto: conhecemos “Os Lusíadas” dos tempos da escola, mas não temos uma noção plena do texto da obra. Também não tinha?

A.F. – Não tinha, não. Tinha estudado “Os Lusíadas” no secundário, tinha uma vaga ideia. Há toda aquela informação que anda à volta de “Os Lusíadas”, da cultura e da história portuguesa, que entretanto fui assimilando, mas a letra do texto não a conhecia. Devo dizer que a 1 de Junho de 2008 comecei a fazer este trabalho e não sabia a primeira estrofe de cor, ‘as armas e os barões assinalados’, que quase toda a gente sabe. Portanto, já se pode ver o meu conhecimento da letra do texto. Penso que é o que acontece com quase toda a gente. Se fosse aqui há 20 anos, se calhar tinha o mesmo preconceito da maior parte das pessoas: ‘Os Lusíadas? É pá, isso é muito chato’. Não tinha maturidade, porque é uma obra muitíssimo difícil de entender e de ler. Curiosamente é muito fácil de ouvir. Se eu conseguir levar isto a algum lado, é por isso, por ser fácil de ouvir. Claro que não é fácil para alguém que não tenha alguma informação e alguma curiosidade, porque se vai com preconceito não vai gostar. A maior parte das pessoas diz-me que não se devia estudar isto no secundário, que a gente só pode entender quando é mais crescida. Isso é verdade, também. Não digo que tecnicamente, e na história básica da cultura, não possa ser abordada, mas é uma obra para maiores de 18 anos, não tenho dúvida. “Os Lusíadas” não podem ficar como uma obra para convertidos, para pessoas que já sabem, para os tipos da Faculdade de Letras – e duvido que a maior parte das pessoas que por lá passaram a tenham lido do princípio ao fim. Estou a falar de alunos, não de professores.

– Dizia que é uma obra fácil de ouvir. E de oralizar? Houve dificuldade em actualizar um texto que tem séculos?

A.F. – A dificuldade maior é a questão das referências culturais. “Os Lusíadas” são feitos em cima dos paradigmas clássicos, dos deuses, do vocabulário. A maior dificuldade é perceber a que é que correspondem algumas referências, muitas vezes até actualizando. Se no século XVI havia uma elite que tinha essas referências da cultura clássicas, hoje não sei se é assim. Penso muitas vezes nisso, sobretudo no canto VI, quando é o consílio dos deuses marítimos, porque aquilo parece uma reunião na Quinta da Marinha. É tal e qual. Vem um com a esposa, aquela levava do marido… Parece uma reportagem da revista Caras, com umas fotografias e uns comentários do ex-Carlos Castro. Estou convencido que, na altura, como as pessoas sabiam aquelas coisas dos deuses, fazia sentido e divertiam-se imenso. Hoje, a Quinta da Marinha é muito mais popular. Há coisas que são desse núcleo e hoje perderam-se. Mesmo a classe ‘culta’ tem outras referências e o público em geral não tem. Portanto, não pode ser por aí que a gente lê “Os Lusíadas”. Essas coisas têm de desvalorizar e valorizar outras que são mais interessantes. Por um lado, a possibilidade de actualização do texto, no sentido de a gente ver que o texto tem ressonâncias humanas, de vida, de pensamento, que nos são familiares e que são as nossas; e por outro lado jogar com outra coisa, que é a musicalidade do texto. É a mesma coisa que ouvir uma sinfonia de Beethoven. Se souberes música, és capaz de curtir mais. Mas, se gostares de música e não souberes, sentas-te e apanhas ali um banho que não sabes de quê. Não é preciso saber música para curtir a música. Como não é preciso entender o sentido das palavras, a letra de todo o sentido das palavras e das metáforas, para curtir ouvir “Os Lusíadas”. É nesse sítio que estou a trabalhar, fundamentalmente.

– E como foi para si ler verdadeiramente “Os Lusíadas”?

A.F. – É muito difícil desmontar aquilo tudo. Tenho de ir à procura das referências todas, que também não as sei. Depois de ter este trabalho todo mastigado, é quase como preparar um concerto, é ver os pormenores todos da escrita e depois deixar surfar. Esse trabalho, por um lado, não é fácil, mas para mim é fascinante. Conseguir surfar no texto, isso sim é genial. É só isso que quero passar às pessoas, esse planar nesta música.

– Diz no site do projecto que este não é um espectáculo circense de memória. Ainda assim é preciso uma capacidade grande. Como é o método de trabalho?

A.F. – É trabalho, trabalho, trabalho. O método tem fases. Primeiro leio tudo, uma, duas, três vezes. Depois começo a desmontar, vendo as notas todas e o que as referências querem dizer. Depois começo estrofe a estrofe, ou por blocos. Essa é a fase mais violenta, que é fazer isto e ao mesmo tempo tentar dizer, mas tentar dizer no pensamento e não nas palavras. Decorar fôlegos de pensamento, bocados de narrativa. Ao ritmo a que trabalho nisto – em média duas horas por dia há três anos e tal – 100 estrofes, uma média de um canto, no princípio demoravam-me três meses. Umas 150 a 200 horas. Agora demoro menos. Depois, há outra fase que é mecanizar isto. Dizer e dizer até começar a surfar. Isso demora pelo menos mais um mês, mas é o tempo que faz. Tenho de dizer todos os dias aquele canto, todos os dias, ir sempre lá. O tempo faz o resto.

– E nunca como uma rezinha. Como também diz no texto que tem no site, “não há entendimento sem coração”.

A.F. – Isso sim. Mesmo quando digo e já sei bem, tenho de dizer implicado. Chego ao fim de hora e meia de dizer, em casa, cansadíssimo. Tem de ser muito implicado fisicamente, se não, não serve para nada. Tanto que preciso de estar numa forma física muito boa, porque já não sou propriamente novo.

– Diria que este é o seu maior desafio enquanto actor?

A.F. – Enquanto actor perfomer é sem dúvida o meu maior desafio. Ainda não consegui fazê-lo, só daqui a um ano. Como actor cidadão, acho que não é. Distingo o performer do actor que é cidadão, e aí penso que não é de certeza a coisa mais importante e interessante que fiz na vida. As coisas que fiz em Braga, ou mesmo as coisas que fiz numa escola secundária em Carnaxide, foram muito importantes enquanto actor cidadão. Não propriamente enquanto ‘artista’ que é visto, mas como cidadão dentro da minha função social. Não penso que isto venha a ser a coisa mais importante, mas pode ser, porque não sei que dimensão vai ganhar. A questão é esta: qual vai ser a importância disto para as pessoas do meu país? E aí posso vir a dizer que foi a coisa mais importante, porque foi a que mais tocou e ajudou as pessoas, que deu mais pistas para as pessoas sentirem e para estarem mais vivas. Pode ser que este trabalho, que nesse aspecto ainda não começou, seja a coisa mais importante que faça na minha vida, mas isso não sou eu que digo.

– Este interesse por adaptar textos como o “Sermão da Sexagésima” e “Os Lusíadas”, textos que não são de palco, também tem que ver com a ligação à educação que de que falava há pouco?

A.F. – Tem que ver com uma ideia muito mais vasta, que é nós precisarmos todos muito de ficção nas nossas vidas, precisarmos de histórias, de pensamento. Esses textos têm muita ficção e muito pensamento. Do meu ponto de vista, uma das minhas funções é contar histórias. Costumo dizer que só me interessam três coisas como actor: fazer rir, fazer chorar e inquietar. Não me interessa mais nada. Trabalho com estas três e ideias. Ora, se a gente vai à procura de textos de que as pessoas já têm alguma memória, é mais possível viajarmos em conjunto. Proponho a coisa com uma ‘profundidade’, com um conhecimento de coração, que as pessoas nunca tiveram. Esta viagem comum torna-se mais fácil se as pessoas tiverem as mesmas referências. Por exemplo, uma das coisas que queria fazer – e que já não vou fazer, porque estou velho e não vou ter tempo – era pegar no Pessoa e fazer duas horas nos heterónimos, um bocado como “Os Lusíadas”. Porque a geração mais nova de uma forma geral tem muita informação sobre o Pessoa e podem jogar essa memória comigo. Um momento de fruição cultural e artística neste sítio é muito interessante. Ao trabalhar estes textos, trabalho uma memória colectiva nossa, lusitana.

– Como têm sido as apresentações do espectáculo ‘zipadas’ e com os cinco primeiros cantos?

A.F. – Há um preconceito enorme contra “Os Lusíadas” e as pessoas pensam logo ‘nem pensar’. Há essa resistência. O que acontece é que as pessoas que vão ver, mesmo os miúdos, têm gostado muito. Ainda no sábado passado estive num festival de teatro em Sines, estavam 120 ou 130 pessoas. Eu estava a dizer a antologia, “Os Lusíadas Zipados”, como lhe chamo. As pessoas que ficaram, no fim, estavam fascinadas, encantadas com a coisa. Acho que é um duplo fascínio pela obra e também pela musicalidade. Não tenho tido muita gente. Fiz no Teatro Meridional três semanas seguidas e tive pouca gente. Mas as pessoas que vão ficam fascinadas. Estou convencido que isto é uma questão de bater no preconceito. Não estou preocupado. Isto é uma ideia maluca e se houver cinco mil pessoas que nem vão ver mas vão dizer ‘como é possível um gajo meter-se nisto’, talvez se metam noutras coisas. Para mim já é fantástico. Imagine que tenho cinco mil pessoas que vão ver isto e outras cinco mil que não vão ver mas que ficam a matutar naquilo, às tantas até vão fazer alguma coisa na vida deles que tenha que ver com isto ou outra coisa qualquer. Isto para mim é tão ou mais importante do que as pessoas que vão ver.

– A ideia é chegar a 2012 e poder dizer “Os Lusíadas” todos?

A.F. – A 9 de Junho do próximo ano, em Guimarães, então capital europeia da cultura, vou fazer os dez cantos. Vou fazer nove seguidos: às 10h o primeiro, às 11h o II, ao meio-dia o III, com um intervalo de duas horas e por aí fora, até às 23h. A essa hora entram 40 ou 50 pessoas da população, com quem trabalhei nos meses anteriores, uma orquestra e juntos dizemos o X canto. O que queria a seguir era, em todas as capitais de distrito, onde há teatros, fazer a antologia dos dez durante a semana, e depois no sábado fazer tudo, sendo o X canto sempre com a população do sítio. Iria um mês antes, trabalharia com as pessoas e elas diriam comigo o X. Isto era o que gostava de fazer durante os anos de 2012 e 2013. Vamos ver.

– Camões também está no nome do Dia de Portugal e das Comunidades, que se assinala amanhã [hoje]. Gostava de levar esse espectáculo às comunidades espalhadas pelo mundo?

A.F. – Evidentemente. Mas penso que não faria muito sentido levar o espectáculo global, levar os dez cantos. Mas gostaria imenso de fazer “Os Lusíadas Zipados”, até porque é uma coisa que se pode fazer sem nada, como tenho feito em escolas. Tenho uma versão teatral, com cenário e não sei quê, mas não acrescenta muito. Claro que gostava de fazer isso mas estou um bocadinho à espera de ver o que é que isto vai dar. Não posso fazer tudo. Não posso estar a decorar “Os Lusíadas” e depois ainda ir falar com o Instituto Camões. O Instituto Camões é que tem de vir ter comigo. Já fiz o meu trabalho, alguém que faça o seu. Estou disposto a ir a todo o sítio e a fazer isto até na casa das pessoas, se elas quiserem. De resto, não me importo de passar dois ou três anos da minha vida a fazer isto. Claro que tenho de viver e têm de me pagar. Daqui por um ano, se as pessoas curtirem e acharem que vale a pena expandir isto tudo, estou disponível. Posso estar cansado mas este é o meu trabalho e não tenho nada que me queixar.

– A fechar: nessa também sua descoberta pessoal de “Os Lusíadas”, que texto e que autor encontrou?

A.F. – Encontrei um grande artista, um grande poeta, um grande cidadão – e isso é muito engraçado. Era uma pessoa com um humor refinadíssimo e muito mimalha, que se está sempre a queixar, muito frágil. Isso sente-se em muitas partes da obra. A gente sente a fragilidade mas percebe que é mimalhice também, e isso é muito bonito. Depois, é uma obra musical absolutamente fascinante. Tem pedaços melhores e pedaços piores. Ainda não trabalhei em pormenor os VIII, IX e X cantos, mas dá-me impressão que ele está muitíssimo inspirado até ao fim do canto VII. Os cantos restantes já são um bocadinho a arrastar. Para mim, globalmente, os grandes cantos são o III, IV, V e VI. Se calhar um especialista de Camões não dirá isto, mas é o que sinto.

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