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Não me tirem o Beco da Pinga [passos em volta]

Aqui me têm. Estou no centro onde o futuro e o passado circulam e não existe presente. Acho-me, por assim dizer, naquele estado que os líricos chamam angústia, os clínicos devaneio, e que diz bem com o nome do sítio onde estou. A última vez que aqui me viram foi há dois anos. Pensei: é um largo; um raro espaço de ar em Macau que nasceu da feliz coincidência de uma Travessa da Dorna ir dar a um Beco da Pinga. Teria pensado mais qualquer coisa se G. não estivesse com tanta pressa.

G. é um romântico em fuga (cf. tempo verbal usado nesta frase com os dias de hoje, estes dois nunca mais se viram e o verbo ser é dos mais transitivos) que naquela tarde se desfazia em ânsias. Rapaz de muitas viagens à volta dele próprio, precisava de se deslumbrar com Macau para depois ter o que contar quando mudasse de cidade. Não sabia que estava em terra de fantasias demoradas, pouco dada aos caprichos das primeiras vistas e a ressacas de paraíso – falei-lhe vagamente disto, mas deixei-o andar, que ele andava bem.

Engraçou com uma velha muito velha (desdentada? feia? corcunda? Não me lembro, senhor doutor juiz, era uma velha muito velha) que, com maus modos e de cigarro na boca, estendia roupa num arame farpado. G. nunca tinha visto umas cuecas enfiadas num cabide, muito menos umas cuecas enfiadas num cabide a baloiçar num monte de lata que, por estilo social, tratamos por habitação precária. Também não esperava deparar-se com semelhante cenário num largo com aquele nome gingão, Beco da Pinga, sem tirar nem pôr, escrito num azulejo ao estilo português. Estavam reunidas as condições para G. tirar a primeira fotografia em Macau.

Dizia eu que isto foi há dois anos. Ontem regressei ao Beco da Pinga e apercebi-me, com a devida tristeza que as constatações acarretam, que os lugares começam por ser espaço para passarem a ser leis e política. Ainda fui ver se a velha lá estava (não estava, foi substituída por um soldador de ferros), mas já não pensei: é um largo. Entrei em modo de ausência (o passado e o futuro, sem presente) para perguntar: isto vai ser um bairro antigo? Isto vem abaixo?

O isto não é necessariamente a casa de lata, apesar de ser animista por defeito e de ter uma simpatia natural por gestos humanos que caem fora do sistema por feitio. O isto é o prédio devoluto ao lado que tem uma janela que nunca vi (remete-me para qualquer coisa de conventual) e uma faixa que conheço de outras paragens: Kou Fu Real Estate. É o que fica em frente, trancado com um portão verde em forma de leque, e que tem afixado um aviso de cobrança de contribuição industrial com data a 2006. É o outro que recebeu um tiro de pedra numa janela frisada às flores. É o que está na outra ponta e que também deixou ao abandono paus de incenso e uma carta sem remetente.

Será que aconteceu o mesmo à barbearia? Ontem não havia tesouradas nem homens com vagar no meio da rua. Os maples e poltronas de madeira que dão os braços para descanso em cabeças de dragão (combinados, por certo, pelo acaso das precisões) estavam desertos. As ventoinhas desligadas, os deuses da fortuna sem crentes, eu sem presente.

Será que vai acontecer o mesmo à loja de sopa de fitas que faz esquina? Talvez não. A casa tem clientela e dá para o Beco da Pinga, o Beco da Rosa e a Travessa da Dorna – será sempre de admitir que o carteiro se confunda.

Dizia eu que estava angustiada. Ainda estou. Não sei resolver o conflito entre tradição e progresso. Sei que todos temos direito a uma vida melhor e que é imoral obrigar alguém a viver contrariado no passado, ainda que seja no Beco da Pinga. Mas também sei que o sinal primordial de vida nas ruas da baixa é um som, o das pedras de mahjong. Ouvi-o no largo. Ora bolas, tenho agora aqui um porta-voz que me está a dizer que isto é ruído social e incomoda mais do que o barulho das obras.

Sónia Nunes

 

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