Uncategorized

No labirinto de Coloane

O artista plástico João Ó expõe a partir da próxima sexta-feira “Geografia Recursiva”, mostra de fotografia e instalação à volta com os trilhos de Coloane. São imagens de caminhos que bifurcam e paisagens que se alteram à medida das horas, do clima, que confundem quem as percorre, replicando-se e produzindo a sensação ilusória de uma experiência já vivida, de um espaço já atravessado.

Depois, há a instalação. Oferece à percepção um enxameamento de sensações visuais e sonoras a partir de dispositivos que imitam o ambiente natural sobre um fundo artificial.

A geografia recursiva do arquitecto macaense fala da iteração das coisas, sempre aparentemente recorrentes, debruçando-se sobre “o maior e último lugar reflorestado do território”, e perspectivando-o como labirinto.

A série de fotografias documenta o circuito de manutenção do trilho de Coloane – “um caminho sinuoso de nove quilómetros de comprimento”, de “riqueza cinematográfica” e raramente percorrido, escreve o autor na nota de introdução à exposição.

“Este trabalho pretende ilustrar uma parte de Macau que é raramente visitada pelos seus residentes e, provavelmente, ignorada pelos turistas ofuscados pelo fascínio da cultura mediatizada (o património arquitectónico) e o espectáculo do mundo do entretenimento (os casinos)”, explica Ó.

O “olhar intimista” sobre este espaço da ilha ainda predominantemente verde de Macau “manifesta a necessidade de cultivar a noção de paisagem natural que, infelizmente, está a convergir para a extinção provocada pela héctica expansão urbana”.

Nas imagens, o artista procura conscientemente alcançar um efeito pictórico particular. “Uma luz ambiental difusa para eliminar o forte contraste normalmente causado pelas sombras opressivas delineadas pelo sol, enquanto o silêncio de cada fotografia – especialmente observado nas folhas pontiagudas e imóveis – se combina com uma paisagem desumanizada que  nos faz lembrar uma espécie de arqueologia relacionada com os vestígios da interacção entre humanidade e natureza”, descreve.

Já a instalação recebe o nome de “Jardins Suspensos” e consiste, formalmente, em algumas camas metálicas desdobráveis cobertas de hera de poliéster. Cada uma das camas – “normalmente associadas a pessoas sem abrigo”, aponta Ó – está equipada com um par de altifalantes que projectam o barulho de diferentes meios de transporte, tais como aviões, helicópteros, camiões e motas.

“O confronto de meios não relacionados e realidades díspares tem como objectivo criar um tipo de transgressão competitiva dos sentidos, que corresponde à artificialidade crescente da arena urbana”, sugere o artista.

Além da mostra da Casa Garden, que abre ao público na próxima semana, há também obras do mesmo autor actualmente expostas no Centro de Artes de Hong Kong, que são resultado de um programa de intercâmbio artístico entre artistas de Macau, RAEHK, Taiwan e Continente.

A orientação do projecto, designado como “1+1” e que esteve já em exibição em Shenzhen, era a de juntar duplas de criadores de diferentes paragens e contextos para que criassem uma obra de arte final. A missão foi confiada aos artistas pelo curador independente chinês Feng Boyi, interessado sobretudo em testar a experiência da troca cultural.

Outro artista de Macau, Fortes Pakeong Sequeira, está também representado  na mesma exposição, que fica patente até ao próximo domingo na região vizinha. De seguida, será apresentada pelo Museu de Belas Artes Kuandu, em Taipé (de 19 de Agosto a 25 de Setembro).

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s