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“Eu só fecho os olhos e canto”

Ricardo Ribeiro é assim, todo genuinidade. Diz o que pensa, canta o que sente. Em Macau, junta-se à Orquestra Chinesa para um concerto este domingo. No país do fado, ninguém tem dúvidas que é das grandes vozes da nova geração.

 

Hélder Beja

 

Começou a cantar aos nove anos, em casa, e depois em colectividades. A tia adorava fado e mostrava-lhe os vinis dos grandes mestres. Ricardo Ribeiro fixou-se em Fernando Maurício. “Eu ia ouvindo os discos e cantarolando por cima. Enfeitiçava-me, aquela canção”, conta o homem que actua domingo (Centro Cultural, 20h) ao lado da Orquestra Chinesa de Macau, no concerto “Fascínios de Macau”.

A crítica varreu de elogios o disco que este fadista de 29 anos criado no bairro da Ajuda editou no ano passado, “A Porta do Coração”. Considerou Ricardo Ribeiro a grande nova voz masculina da canção, e não o fez gratuitamente. Ribeiro carrega o fado no corpo, na voz, no olhar. É da vivência, de ter andado nas vielas desde puto, de o fado lhe correr nas veias. “Os bairros típicos têm muito que ver com isso, também, porque há um bairrismo associado ao fado. Isto torna-o muito belo e muito nobre, porque é o lado um bocadinho da rua que o fado também tem e que é importante que não perca.”

Ricardo Ribeiro é um homem que tem a boca ligada ao coração e que canta. Fecha os olhos canta. A gente não pede mais.

– Como é que o fado passa a ser uma coisa mais séria para si?

R.R. – Posso queixar-me de mim e não da vida, que tem sido bastante generosa. É evidente que a sorte também se constrói, através do trabalho e da paixão. As coisas têm acontecido naturalmente, desde a história de a minha tia me inscrever para a Noite de Fado e eu não saber. Fiquei em segundo e depois ganhei dois primeiros consecutivos. Depois tive oportunidade de fazer um disco de tributo a Amália Rodrigues, onde canto uma balada do Jorge Fernando. A seguir fazer o “Cabelo Branco é Saudade”, com que viajámos por quase toda a Europa – eu, a dona Celeste Rodrigues, a dona Argentina Santos, o Alcino Carvalho. O reconhecimento foi aparecendo e isso deixa-me muito feliz.

– Foi nos vinis da sua tia que começou a descobrir aqueles que considera os seus mestres, como Fernando Maurício?

R.R. – Sim, e depois tive oportunidade de conviver com eles. Ouvia os discos do Fernando Maurício e ficava vidrado naquele homem. Para mim o Maurício é quase como um deus. Pude conviver com ele, era uma pessoa excepcional. Era um tipo de mau feitio mas muito bom carácter, e eu prefiro pessoas assim do que de mau carácter e bom feitio. Ele era um poder no seu canto, em como vestia as palavras e as caracterizava, porque não dizia amor nem dor da mesma forma. Era para mim um génio. Tive oportunidade de conviver com o José Inácio, com o Adelino dos Santos, o Vicente da Câmara, o Rodrigo, a Beatriz da Conceição, a Argentina Santos. Poder ouvi-los, poder conversar com eles… Uma das coisas que mais me deixa feliz é que gostam de mim, que me acarinham.

– E teve essa oportunidade com uma idade precoce.

R.R. – Estive algum tempo num colégio de padres, em Torres Novas. Tive o desejo de ser padre, em seguir a vida do sacerdócio. Mas vinha aos fins-de-semana e a minha tia levava-me aos fados. À noite era essa a minha prenda do estudo. Depois a vida deu umas voltas e o fado continuou. O empenho era cada vez maior. Apareceu a participação num disco com um músico libanês que se chama Rabih Abou-Khalil, que felizmente me deu grandes oportunidade de conhecer outras culturas e ritmos completamente alheios à cultura ocidental. Foi um disco muito ouvido, vendeu bastante por todo o mundo. Fui o único cantor que ele teve em 30 anos de carreira. Até aqui a sua música era instrumental.

– A crítica, que disse muito bem do seu disco “A Porta do Coração”, refere isso: que tinha bebido dos mestres e de outras influências.

R.R. – O disco é, no fundo, um presente a estas pessoas que me colocaram no fado e que me deram ‘carta branca’, e ao público também. Pude fazer fados tradicionais como me foram incutidos. É um disco de fados tentando tocar à forma mais antiga e mais clássica da coisa, mas à minha maneira. É tudo uma questão de amor à música. Se amares uma coisa, ela torna-se bela sempre que tu quiseres.

– Como é que encara as comparações que são feitas e os elogios? Dizem que tem a pose do Alfredo Marceneiro, que é a melhor voz desde que Camané apareceu…

R.R. – (risos) Os elogios são sempre motivo de mais trabalho. Não gosto de comparações para definir ou caracterizar seja o que for, mas fico muito feliz. É sinal que aquilo que fiz teve reconhecimento e que as pessoas observaram de uma forma justa. Quando um homem trabalha e faz as coisas, está sempre à espera de algo. Não caio nesse lugar de dizer ‘ah, nunca estive à espera de nada’. Estou sempre à espera de tudo, sempre. E aceito tudo, todos os caminhos que tenho com as coisas boas e más. A música para mim é uma coisa sagrada, não é descartável. Não é uma coisa para se ouvir no elevador, peço imensa desculpa. Devo à música tudo o que tenho e tudo aquilo que julgo ter.

– Disse noutra entrevista que o que aprecia no fado é a genuinidade. Curiosamente, é também isso que a crítica diz de si, que o fadista que é se confunde com o próprio fado. Porque é que acha que as pessoas vêem o fado quando olham para si?

R.R. – Não sei, talvez seja pela vivência e pelo amor que tenho ao fado. Não sou capaz de estar aqui com rodeios. Eu só fecho os olhos e canto, sei lá. Se as pessoas vêem o fado em mim, isso às vezes dá-me medo, porque é um fardo muito pesado. Mas ao mesmo tempo sinto-me orgulhoso. Convivi com o fado desde criança e é impossível ele não vir à tona. O fado é um fenómeno, é uma coisa que acontece no momento em que ficamos arrepiados, em que vários elementos se juntam e acontece o fado. Tem que ver com a humildade. Não lhe digo que sou humilde, não sou modesto disfarçado. Sou nativo de leão, portanto pode ver que sou muito altivo (risos). Mas falo da humildade com que se abraça a canção e a música.

– Curioso que a música tem-se tornado muito polidinha, muito diferente disso.

R.R. – A música é humana. E deixou de ser humana para ser quase uma máquina. Há determinadas situações em que deixa quase de ser música. Agora, para mim é humana. Por muito que um instrumento seja um instrumento, está lá o humano. Faço as coisas naturalmente, deixo-me levar, fecho os olhos e canto. Eu só sei cantar. Como dizia a dona Amália e muito bem, ‘se eu pensasse não cantava’. E o mal às vezes é a gente pensar.

– Quem é que o emociona quando ouve cantar?

R.R. – Tanta gente com um talento inacreditável. Podia enumerar mas não vale a pena. Digo antes da maneira como cantam e como seguem o seu caminho. Mesmo que não tenha que ver com a minha sensibilidade, é o seu caminho e isso é louvável. Já dizia Einstein: ‘Segue o modelo de ti próprio, mesmo que esse modelo seja aterrador’. Sigo o meu. Se esse caminho for da glória, ‘insha’Allah’; se não for, não tem problema, eu aceito, quero é continuar. A vida é uma lição.

– E para o concerto de domingo?

R.R. – Buono! (risos). Espero que seja muito bom. É uma experiência única, com a Orquestra Chinesa. Seduz-me bastante adaptarmo-nos todos a um género musical. Estou felicíssimo de aqui estar, penso que vai ser um concerto único na minha vida, que me dará muito prazer.

– Acima de tudo cantar é isso, prazer?

R.R. – Cantar é um prazer, é a única forma que tenho de sair daqui, não tenho outra.

– O fado continua a ser a canção de Portugal?

R.R. – Continua e continuará. O fado é a alma dos portugueses, é a vida dos portugueses. É uma canção séria por isso, porque canta a vida. É tão simples quanto isto.

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