Uncategorized

“Procuro o riso à beira do precipício”

Howard Jacobson gosta de provocar o riso mas de fazer os outros pensar. Por isso é que, apesar do humor que empresta aos livros, o Booker Prize 2010 é um homem que quer ser levado a sério. Por isso e porque escreve sobre a humanidade. Para a humanidade.

Isabel Castro

Dá por ele a imaginar leitores em locais onde até há bem pouco tempo os seus livros não chegavam, porque não era suficientemente (re)conhecido para atravessar tantas fronteiras. E dá por ele a pensar no que os leitores lhe diriam se pudesse falar com eles. Quis sempre um público atento – qual é o escritor que não o deseja? – e agora tem-no: (também) é para isto que servem os prémios. Quando a notícia foi divulgada, houve quem não tivesse escondido a surpresa e tivesse perguntado ‘quem é ele?’. Ele é Howard Jacobson, o mais recente escritor distinguido com o Booker Prize – o prémio que fez com que tivesse passado a ser publicado em várias línguas (em português pela Porto Editora), o prémio que o colocou ao lado dos nomes grandes da literatura da Commonwealth. Ao PONTO FINAL, explica como nasceu “A Questão Finkler” – o livro que, não sendo melhor nem pior do que todos os outros que o antecederam, lhe deu o prémio de que já não estaria à espera. E conta como é isto de um judeu escrever como um gentio à procura do mundo judaico. Com a gargalhada sempre a ameaçar ser vertigem.

– Foi distinguido com o Booker Prize aos 68 anos – desde William Golding que o prémio não era entregue numa fase tão tardia da carreira de um escritor. Numa das entrevistas que deu, disse: ‘Fui descoberto’. Como é ser-se descoberto ao 11º livro, aos 68?

Howard Jacobson – Bem, claro que fiquei encantado por o ter recebido. É um grande prémio que muda tudo. De um momento para o outro, começa-se a vender muito pelo mundo todo; não é preciso andarmos à procura nas livrarias para vermos se estamos lá. As editoras estrangeiras, umas atrás das outras, esforçam-se ao máximo para terem os direitos de publicação; perde-se o título de escritor ‘subestimado’; numa palavra – somos lidos. Então, há uma sensação de alívio, e há uma afirmação. No entanto, se não tenho cuidado, dou por mim a pensar onde estavam estes leitores nos dez romances anteriores. E depois recordo a mim mesmo que se trata de um exercício infrutífero, porque uma das grandes coisas deste prémio é que projecta os meus livros anteriores – e agora aqui estão eles, vivos e novamente bem, reimpressos e a chegar a um público que alguns deles não tiveram na altura em que foram publicados.

– Suponho que o Booker Prize mudou em muito a sua vida. Ser famoso é confortável? Ou aumenta, de um modo algo opressivo, a responsabilidade em relação ao próximo livro?

H.J. – Mudou a minha vida naquilo que já referi, e como tenho estado a viajar e a ler por todo o mundo – o que adoro – torna-se difícil ter tempo para escrever. No que diz respeito ao próximo livro, já tinha trabalhado nele bastante antes de ganhar o prémio e, sim, suponho que tenho de ser honesto e dizer que tenho consciência de que as expectativas podem ser mais elevadas. No entanto, no fim de contas, um escritor só pode fazer o que faz sempre: escrever o melhor que pode, divertir-se, desafiar-se, entreter-se e evoluir enquanto escreve, e esperar que os leitores se divirtam, se entretenham e avancem de modo semelhante.

– Vamos ao início de tudo. O seu primeiro romance – “Coming From Behind” – foi publicado em 1983. Como é que começou a escrever livros? Foi algo que sempre quis fazer? É daquelas pessoas que pensava ‘um dia destes ainda vou ser escritor’?

H.J. – Sim, pode parecer um pouco pretensioso mas sinto sinceramente que nunca quis fazer mais nada além de escrever. A minha mãe sempre me encorajou e uma querida professora de Inglês chamada Mrs. Herman escreveu-lhe a dizer que achava que, um dia, eu seria um grande escritor. Cresci com essa carta emoldurada em cima da televisão na nossa sala de estar – pelo que, na realidade, não tinha outra opção. Não podia desiludir Mrs. Herman, não é? Além disso, eu tinha dito a toda a gente que estava talhado para escrever romances – então também não podia desiludir-me.

– Escreveu um livro de viagens e alguns romances em que começa a explorar experiências e personagens judaicas. Em comparação com “A Questão Finkler”, estes livros são muito diferentes? Não foi a primeira vez que um dos seus romances esteve nomeado para o Booker Prize.

H.J. – Fui nomeado duas vezes, com o “The Mighty Walzer” e o “Kalooki Nights”. É difícil dizer o que fez a diferença ou como é que “A Questão Finkler” difere dos romances anteriores. O mesmo livro, noutro ano, com outra composição do júri, e quem pode dizer com certeza que eu teria ganho? Às vezes tem-se sorte, outras vezes não. Se há algo de específico neste romance que o explica, não sei. Talvez a tristeza que contém toque os leitores. Talvez a tristeza que contém toque os leitores de uma forma que eu ainda não tinha conseguido. É um romance cómico, mas o riso aproxima-se da tragédia muito depressa. Na personagem de Libor dou voz a uma nota de melancolia que poderá ser mais aguda do que o habitual. Depois, há três personagens no centro do livro; partilham o papel de herói. Nunca tinha feito isto antes. E pode ser o herói gentio a encontrar o caminho para o mundo judaico o que o torna acessível de um modo pungente e, em simultâneo, cómico.

– É judeu, mas não religioso. Em “A Questão Finkler” o judaísmo é a questão central – ou, se quisermos, tudo acontece por causa do judaísmo, por se ser ou não judeu. Sente que o facto de ser judeu faz com que esteja mais à vontade para escrever sobre este tipo de questões?

H.J. – A sua pergunta faz parecer que eu tive uma opção – escrever sobre judeus ou não escrever sobre os judeus, e eu escolhi fazê-lo por me sentir “à vontade” com o assunto. Mas não foi assim. Quando comecei a escrever, não tinha qualquer intenção de escrever acerca de judeus ou de judaísmo. Só quando comecei a escrever e encontrei a minha voz enquanto escritor é que descobri, para surpresa minha, que o assunto me fascina e me dá energia.

– O livro tem três personagens – já aqui falámos um pouco delas. Julian Treslove quer ser judeu, Sam Finkler é um judeu envergonhado com Israel e tem uma relação muito peculiar com o judaísmo, e Libor Sevick, o nonagenário com uma extraordinária história de amor do passado (e do presente). Quem nasceu primeiro?

H.J. – Foi Libor aquele que nasceu primeiro – metafórica e literalmente, uma vez que é um homem na casa dos 90. Fiz algo que nunca tinha feito antes e construí-o a partir de um homem que conheci, cuja mulher tinha morrido depois de um ditoso casamento de 60 anos. Ele contou-me que estava tão desolado por ter ficado sem ela que contratou um professor de piano para que lhe ensinasse a tocar a música que ela costumava tocar, para se poder sentar no piano que lhe pertenceu e encher a casa com o som dela. As outras personagens cresceram a partir desta. Alguns académicos dizem que Deus inventou Adão e Eva porque ele estava sozinho e precisava de companhia. Os escritores são como Deus no sentido em que repovoam o mundo e talvez eu não tenha querido que Libor ficasse sozinho.

– Li numa entrevista que, destas três personagens, é Treslove aquela com que mais se identifica. Mas estamos perante um homem que, na realidade, não é muito bem-sucedido com mulheres, que teve estranhas experiências profissionais, um homem que anda a tentar descobrir quem é, alguém que quer ser como o seu melhor amigo. Presumo que a identificação com Treslove não esteja relacionada com nenhuma destas características.

H.J. – O que queria dizer quando afirmei que me identifico com Treslove é que Treslove é um não judeu a olhar para o judaísmo e isso foi o que sempre senti. Apesar de ter tido um Barmitzvah [cerimónia em que os rapazes judeus assumem a plenitude das suas obrigações religiosas], enquanto jovem não sabia muito de judaísmo. Os meus pais não eram religiosos e não tinham qualquer ambição de que eu passasse a estar imerso na cultura judaica. Assim sendo, também eu me senti como um estranho perante a experiência judaica – o meu nariz colado à janela, a olhar para dentro. Apesar de ter sido educado com uma elevada consciência do meu judaísmo, nunca percebi realmente o que significava ser judeu, sentindo-me tanto fora do mundo judaico como do mundo gentio. Aprendi acerca de se ser judeu – e agora não estou a falar dos rituais e cerimónias judaicas, mas sim do pensamento judaico, do sentido de humor judaico, da auto-consciência judaica – à medida que fui vivendo. E suponho que o continuo a fazer. Por isso é que quando as pessoas me perguntam como é que consegui imaginar-me a mim próprio dentro da pele de um gentio tentando perceber os judeus, eu lhes digo que essa foi a parte mais fácil.

– Tem receio de ser catalogado como um escritor de ‘comédias’ por escrever com sentido de humor? Teme que os seus livros possam ser considerados ‘menos sérios’ que outros? Ou as pessoas percebem que o humor é provavelmente a melhor forma de se lidar com assuntos sérios?

H.J. – Essa é uma batalha que travo desde que me tornei um autor publicado. Não gosto do termo ‘cómico’ porque dá a sensação de ser leve e nada sério, e eu não sou isso. “A Questão Finkler” não é uma comédia; é um romance trágico que frequentemente leva ao riso. A melhor gargalhada não é um alívio da seriedade, mas sim o oposto. Aprofunda-a. E quando, nos meus romances, as pessoas se riem não estão sempre seguras de que não estão a chorar. Procuro o riso à beira do precipício. E se as pessoas não percebem que a comédia, em todas as suas variantes (e ela tem um milhar de vozes), é a melhor forma de lidar com assuntos sérios, considero que se trata do meu trabalho educá-las nesse sentido.

– É um autor britânico a escrever sobre judaísmo. E escreve com um sentido de humor que é bastante diferente do humor inglês. Estou errada?

H.J. – Os meus romances seguem muito a tradição inglesa. Ouço Dr Johnson e Jane Austen e Dickens quando escrevo – de forma diferente dos romancistas judeus norte-americanos que provavelmente ouvirão Isaac Babel e Kafka. Mas não há dúvida de que o meu judaísmo denuncia a minha sensibilidade britânica. Não quero parecer-me muito com Treslove ao falar sobre o sentido de humor judaico, mas acho mesmo que a piada judaica, assim como a comédia judaica, tem um ardor e uma amargura e um sarcasmo e uma melancolia, alternando a impetuosidade e o queixume, a risibilidade e a atrocidade, de um modo que não se encontra em mais parte alguma. Os judeus fazem comédia da dor, do terror, fazem comédia de uma expectativa histórica do desastre. Rimo-nos no meio das chamas. E julgo que aprendi a fazer o meu trabalho ao ouvir os judeus a fazerem piadas de experiências que não são engraçadas. Espero que os sons das pessoas judias com quem eu cresci, trabalhadores árduos, pobres, muitos deles mal sabendo ler, mas apaixonados pela música da expressão e da exasperação judaicas, possam ser ouvidos nos meus romances, assim como também espero que Dr Johnson e George Eliot possam igualmente ser ouvidos neles.

– Gosta de saber que faz as pessoas rir. No processo de escrita, isto acontece de forma intencional ou intuitiva?

H.J. – É puramente intuitiva. Já ouvi um escritor falar acerca da possibilidade de ‘adicionar algum humor’ a um romance, como se fosse um ingrediente que se pode acrescentar conforme se deseje, tipo sal ou pimenta. Não é possível. A comédia é intrínseca à forma como se escreve. No meu caso, não consigo imaginar um romance sem humor. Sinto-me como o escultor que diz que não faz a escultura com a pedra, mas sim retira da pedra a escultura que está dentro dela. A comédia inerente à linguagem. Está lá. Eu não a coloco lá, eu destapo-a.

– “A Questão Finkler” está a ser traduzido para mais de 20 idiomas – e também para chinês, o que significa a entrada num mercado de (potenciais) milhões de leitores. Sente que o romance pode ser compreendido de forma correcta em contextos culturais tão diferentes? Em entrevistas anteriores, fez referência ao facto de o livro ser muito acerca da humanidade.

H.J. – “A Questão Finkler” é o meu primeiro romance a ser traduzido para tantas línguas e ainda é cedo para dizer se algumas culturas vão ‘percebê-lo’ mais ou de forma diferente de outras, mas acredito que não existe qualquer razão que impeça as pessoas de apreciarem o romance. O livro é acerca do amor, da perda, da lealdade, da amizade, das dificuldades da pertença e das dificuldades de manutenção de uma convicção. São questões universais e não há ninguém em parte alguma que não as tenha sentido.

– Tem receio do resultado das traduções? E de tantas traduções a serem feitas em simultâneo?

H.J. – Na realidade, tenho receio ‘pelos’ tradutores! Grande parte do meu sentido de humor advém da língua e são tantos os jogos de palavras que sinto pena de todos aqueles que tentam a tradução. Mas devo dizer que, até agora, os tradutores com quem falei não parecem estar a arrancar os cabelos. Pelo contrário, encaram a tradução como um desafio – ou pelo menos é o que me dizem.

– Tem estado a viajar e a promover o seu livro. A Ásia faz parte dos seus planos?

H.J. – Fui educado a acreditar que é de bom-tom esperar-se até se ser convidado – e, por enquanto, ainda não fui convidado para a Ásia.

– Li algures que sente falta de casa e de estar a escrever. Disse-me que já tinha começado a escrever o seu próximo romance quando recebeu o Booker Prize. Pode falar-nos do que aí vem? Como é que planifica os seus livros?

H.J. – Dizer que sinto falta de casa pode levar a pensar que não estou entusiasmado com a volta que a minha vida levou desde que recebi o prémio – e estou. Na realidade, já tinha avançado bastante num novo romance quando tudo isto aconteceu e não me falta muito para acabar. (Não vou dizer do que se trata porque sou supersticioso). Além disso, tenho uma série de artigos que escrevi para o Independent que vai ser publicada em Inglaterra em Setembro com o nome “Whatever it is, I don’t like it”. São uma espécie de pequenos contos, comentários acerca do modo como vi o mundo em meu redor na última década. Quanto à planificação dos meus livros – não existe. Às vezes surgem de algo que vejo, outras vezes aparecem de um incidente ou de um incidente imaginário que ganha asas para se transformar num romance. “A Questão Finkler”, por exemplo, surgiu de uma caminhada à noite que fiz depois de um jantar com amigos e do meu medo acerca de ser atacado por uma sombra numa esquina da rua. “The Act of Love” nasceu do meu amor pelas 16h, aquela hora do dia em Inglaterra em que o dia está prestes a transformar-se em noite. Observava alguns empregados de mesa parados na rua a fumar, à espera do início do turno da noite. A sensação de antecipação no ar foi o que deu origem ao romance. A minha falta de planificação pode ser um pesadelo para os editores. Muitas vezes dizem-me que aquela personagem não poderia ter visto isto e aquilo no seu caminho para casa porque se assim fosse teria então 65 anos.

– Para terminar: saiu de um relativo anonimato para um mundo de entrevistas. Faz ideia de quantos jornalistas já falaram consigo desde que ganhou o Booker Prize? Já está cansado do exercício?

H.J. – Não faço ideia, mas são muitos. E como poderia dizer que estou cansado quando sinto que fico com uma noção de cada um de vocês através das vossas perguntas?

Anúncios

One thought on ““Procuro o riso à beira do precipício”

  1. Gostei da obra. Com uma lucidez invejável, sem fanatismos religiosos ou políticos e sempre dando o ponto visto dos vários lados, Howard Jacobson faz uma profunda reflexão sobre as causas judaicas tanto passadas como futuras. A Questão Finkler bem se podia chamar As Questões do Judaísmo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s