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Quem entende? [passos em volta]

Maria Caetano

Diz que a gente se apega às coisas, também, pelo nome que elas têm. E eu, em parte, concordo. E acho que sei porquê. É que as palavras são, assim, de condão – e, aqui, talvez mais que em outros sítios. A gente diz entendimento como se entendimento fosse coisa numa materialização da vontade, mais palavra do que gesto. É o pensamento dos magos. Mas, olho aqui este vértice levantado, de um extremo polido que não agride, de faces abertas e desunidas, e acho que é mais ilusão que magia.

Está tudo na destreza da mão. O entendimento é uma palavra que aturde enquanto olhamos para a coisa. O objecto é feito de partes que há anos estão de costas voltadas. Uma abre-se como um livro ao norte, encarando a Barra. A outra abre as páginas ao sul da Montanha. E entre elas há vazios irreparáveis. Nem o Oriente aqui, nem o Ocidente cá, numa ausência cardeal.

É por isso que quando se rasga o tabuleiro da ponte não se lhe vêem os pés de barro, já com o horizonte dirigido para a Penha. Daqui, de debaixo da ponte, vai-se a ilusão da perspectiva e, sem cerimónias, o entendimento exibe as suas fracas fundações, vergadas pelo peso enorme de um nome que não tem força de ser coisa.

Não há quem lá chegue, por terra ou por mar. As devidas barreiras ao entendimento são de chapa e inscrição municipal, há sacos de areia que nada sustentam, sopesando apenas numa arrumação que desafia. E a erva cresce, verde intenso, a pintar a calçada de abandono. Há umas escadinhas de cais para o desembarque, mas não consta que alguém alguma vez as tenha pisado. Imagina-se que dêem para a ribeira das naus, igualmente encalhadas numa negligência solidária.

Lá como cá, há arredores grafitados a pescadores de linha que pouco pescam, e também há gente que se abriga dormente aos carros que se perseguem no asfalto. Tantas coincidências que de certeza já alguém se lembrou disto, suponho.

Mas lá não há uma palavra que se obrigue além de coloridas geometrias anónimas. E há gente que cruza o espaço. Aqui os passos seguem sós – mais em dia de chuvas que não se fazem anunciar – e os poucos que encontramos vivem dentro da paisagem. Ninguém chega ao entendimento.

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