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Sede de amar

José Drummond

 

A emoção do pecado e a emoção da salvação é uma e a mesma coisa no audacioso “Thirst”, do realizador sul-coreano Park Chan-wook, vencedor do Prémio do Júri no Festival de Cannes 2009 e nomeado para a Palma de Ouro.

O filme desenrola-se por entre dúvidas católicas e mitologia vampírica, num argumento com toques retro que debate sanguessugas barrocas, a dependência de drogas, o mal-estar da classe média, os fetiches sexuais e a doença.

“Thirst” é verdadeiramente original como filme de vampiros. Os momentos de brilhantismo estão inegavelmente espalhados por toda a parte num inovador risco cinematográfico abençoado com um elenco estelar.

Os relatórios iniciais de extrema violência e sexualidade, presentes em grau significativo, podem levar a falsas expectativas num filme que não segue apenas uma estrutura de três actos, mas que varia em cada um, quase como se fossem três filmes completamente diferentes.

O primeiro acto contém apenas uma promessa que não revela nada do que se irá realmente passar a seguir. Sang-hyeon (o excepcional Song Kang-ho) é-nos introduzido, como um padre ‘muito querido’, com um anseio indiferente em relação ao martírio, que decide tornar-se numa cobaia para a cura de um vírus infeccioso.

Um homem de fé genuína, um sacerdote que dedicou a sua vida à cura de outros, que trabalha num hospital e que vive frustrado com a morte dos pacientes.

O perigoso ensaio de experimentação médica corre mal. Sang-hyeon começa a vomitar sangue e os médicos, sem conseguirem fazer nada, acabam por pronunciar a hora da sua morte. Pouco tempo depois Sang-hyeon começa a respirar novamente. Cegamente saudado como um milagre e fazedor de milagres, Sang-hyeon ganha o poder da cura, apesar dele próprio duvidar do genuíno da situação.

Fica claro que o seu renascimento e os seus novos poderes têm um custo. O corpo está a mudar, os sentidos cada vez mais agudos, os músculos mais fortes e também se tornou hiper-sensível à luz e ao ruído. Inicia o seu engasgo e queda pelo cheiro irresistível do sangue com a esposa de um amigo e rapidamente percebe que tem de ter uma dieta constante de sangue.

A histeria da transformação vampírica é cinicamente transmitida por uma avalanche de imagens espalhadas e oblíquas numa atmosfera experimental.

O segundo acto afunda-se no confronto do ser. Agora em modo de vampiro, o nosso protagonista encontra em Tae-ju (a notável Kim Ok-bin), o amor carnal. A jovem problemática é a esposa do amigo e alberga dentro de si um ódio de longa data para com a família do marido doente.

Ela é infeliz e muito, muito atraente; e ele luta contra o impulso, mas a natureza segue o seu curso e os dois acabam por começar a encontrar-se clandestinamente.

Na transição de esposa oprimida a deusa do mal, Kim dá sinais de um espectro de emoção com um expressivo silêncio que se transforma em hesitação e que acaba em adultério e na descoberta do prazer sexual voraz. Há, é claro, a questão do marido, uma questão facilmente resolvida, enviando-o para o fundo do reservatório local.

O terceiro acto adensa a razão do amor com ambos os vampiros. Ela deleita-se com os novos poderes, claramente encantada com o facto de que é agora mais forte. Ela é a erupção cutânea, impulsiva e muito violenta. Ele, no entanto, tenta seguir um caminho não-violento que exige não matar. A culpa cresce e ameaça destruir o par, levando Sang-hyeon a parar a sua vocação e a um confronto violento com Tae-ju. A brutalidade contra o outro concorre com a ternura.

Existem momentos assinaláveis de construção imagética, como por exemplo o pintar do interior da casa de branco para aumentar a ilusão da luz do dia, mas que ao mesmo tempo sugere uma purga para toda a humanidade.

Park usa frequentemente sequências de fantasia surreal que defendem bem o contraste da vida moral com o da sede de sangue. A metáfora do sexo e violência não é original, especialmente para um filme de vampiros, mas com o sugar amplificado e sem dentes à mostra, “Thirst” revela uma audácia pouco comum na abordagem descarada do abjecto e do horror do corpo.

No entanto, o elemento mais distintivo deste trabalho é a sua componente de história de amor proibida, com Song e Kim numa incrível atracção química, com uma das cenas de sexo mais intensa e erótica já capturada em filme, com movimentos em conjunto por todo o espaço do filme, aqui e ali semelhantes à coreografia de uma dança.

“Thirst” é uma exigente história de amor num filme sobre a fé e de vampiros sangrentos, surpreendente pela crueza e alcance dos problemas levantados.

 

Thirst

Park Chan-wook, 2009

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