Uncategorized

“As coisas não têm de ser comerciais para funcionarem”

Maria João Bastos trabalha muito em televisão mas é no cinema que encontra o tempo que diz essencial para aprofundar personagens. A actriz, que venceu o Globo de Ouro português por “Mistérios de Lisboa”, fala de um filme extenso e de época que juntou o sucesso comercial ao elogio da crítica.

Hélder Beja

É uma produção luso-francesa com mais de quatro horas. É o filme que arrecadou em 2010 o Prémio Louis Delluc, que distingue o melhor filme francês do ano, e que limpou recentemente os Globos de Ouro portugueses mais importantes. “Mistérios de Lisboa”, a adaptação realizada por Raoul Ruiz do livro homónimo de Camilo Castelo Branco, é um caso raro no cinema português.

Raro porque, sendo imensamente extenso para os padrões actuais, teve sucesso comercial e estreou em vários países. Raro porque tem no elenco actores conhecidos das telenovelas – como Adriano Luz, Ricardo Pereira, Maria João Bastos – e isso não impediu que a crítica se rendesse, que fosse premiado em San Sebastián e em São Paulo, que várias publicações especializadas fossem generosas nos adjectivos.

“Mistérios de Lisboa” é um fresco camiliano da sociedade portuguesa do século XIX. Um filme enorme em todos os sentidos. E português, muito e tragicamente português, como Maria João Bastos refere nesta entrevista. A actriz, que teve com o realizador chileno (que já assinou mais de 100 filmes) um dos papéis mais importantes da carreira, diz que Camilo Castelo Branco tinha feito metade do trabalho. Bastou-lhes fazer a outra.

– Como é tocar e encarnar personagens de um autor da envergadura de Camilo Castelo Branco?

Maria João Bastos – É maravilhoso, porque grande parte do nosso trabalho baseia-se na história e no texto. O ponto de partida, neste caso, é óptimo, porque é um texto de Camilo Castelo Branco. É óbvio que existe todo um trabalho à volta, mas quando um texto é bom as coisas estão muito mais facilitadas para o que temos de fazer. Nesse sentido foi fantástico trabalhar a obra de Camilo Castelo Branco. As cenas são muito intensas, têm uma ironia muito característica de Camilo, e isso ajuda-nos muito.

– Sente necessidade de, quando se trata de uma adaptação ao cinema, entrar na obra literária em questão, perceber a época que é retratada? Isso é importante?

M.J.B. – Completamente. É preciso esse trabalho de entrar num universo que não é o nosso, de todo. Estamos a falar de outro século, de outra realidade, tudo era diferente: o lugar da mulher na sociedade, por exemplo, que em nada se compara com os dias de hoje e com o que eu conheço enquanto mulher. Para fazer esse trabalho teve de haver um grande estudo da época, da história, das vivências. É muito interessante, porque é mergulhar num universo completamente distinto do nosso. E aí é preciso estudar várias coisas – estudar a época, estudar o comportamento da época, os preconceitos sociais. Isso para mim era particularmente importante, porque na altura existiam muitos preconceitos em relação às mulheres e a minha personagem sofre muito com isso. E também com esse amor proibido, precisamente porque era por um jovem que não tinha posses. Havia muitas coisas destas na altura, que têm de ser estudadas de maneira a de alguma forma entendermos essa realidade, o que é difícil porque é muito diferente da nossa. Por outro lado, é isso que a torna interessante.

– A personagem Ângela de Lima é uma figura trágica, sofrida. Gostou de interpretá-la? Quando olha para os papéis que tem vindo a fazer, este foi dos mais importantes para si?

M.J.B. – Foi sem dúvida das personagens mais importantes da minha carreira. Aliás, este projecto foi dos mais importantes da minha carreira. Fazer este papel foi um grande desafio, por ser baseado na excelente obra de Camilo Castelo Branco, por ser realizado pelo Raoul Ruiz e porque a minha personagem era muito interessante. Ângela de Lima começa com mais ou menos 18 anos e o filme termina quando tem trinta e tal. Não só era preciso dar essa mudança física de um crescimento tão intenso e tão trágico, como toda a debilitação pela doença, o crescimento interior… Essa passagem de tempo foi o maior desafio nesta personagem e foi muito interessante enquanto actriz. Não passa só pela caracterização nem por uma questão física. Mais importante que isso foi o envelhecimento interior de uma personagem que começa jovem, que acredita na vida, no amor e que é feliz – e que envelhece muito rápido através do sofrimento e da castração sentimental que sofre por parte dos pais e da sociedade. Esse envelhecimento interior tinha de se ver no olhar, nas palavras, na voz. Foi o lado mais difícil.

– A crítica tem falado muito do cariz contemplativo da obra e também de uma recriação de época muito forte e feita ao pormenor. Agrada-lhe este tipo de envolvência de filme de época?

M.J.B. – Agrada-me muito, primeiro que tudo porque o Raoul Ruiz tem uma noção estética muito particular, trabalha essa imagem de época de uma forma muito interessante, através de cenas de sequência – cenas que à partida, quando líamos o guião, não pensaríamos que fossem feitas assim. Ele dá o toque próprio e torna a cena muito especial. Depois, toda a direcção de fotografia do André Szankowsky foi maravilhosa. Tudo isso nos ajuda a entrar dentro desse universo, porque tudo caminha para lá. Foi uma sinergia e um encontro de todos – o realizador e o director de fotografia fizeram-nos sentir como se entrássemos num sonho e nos deixássemos ir por aquilo que nos estava a ser dado. Acho que Raoul Ruiz conseguiu transmitir de uma forma muito bonita todas as emoções que estão no livro de Camilo Castelo Branco. Apesar de tudo, o universo camiliano e o universo de Ruiz cruzam-se imenso, têm muito em comum. No filme, isso funcionou muito bem.

– Foi preponderante o facto de Raoul Ruiz ser o realizador do filme?

M.J.B. – Não tenho dúvidas. E principalmente por esta razão que acabei de lhe dizer: ao ler “Mistérios de Lisboa”, de Camilo Castelo Branco, e ao conhecer a obra de Raoul Ruiz, que é bastante longa – e ao conhecer Raoul Ruiz pessoalmente – acho que de facto são dois universos que se cruzaram e que resultaram nesta obra mágica. Costumo dizer que é uma pintura viva que se pode observar durante quatro horas. Tudo é bonito e tudo é muito camiliano. Em épocas diferentes, em séculos diferentes, temos dois universos que se cruzam de uma forma especial e que compõem esta obra.

– Calculo que tenha sido um processo intenso, o filme é uma grande produção. Ficam consigo coisas das personagens que trabalha com esta profundidade, e que só depois vão desaparecendo, ou é um processo que acaba ali?

M.J.B. – Tenho muita facilidade de acabar de filmar e de me desligar da personagem, dos sentimentos e de todo o seu peso. Seria um bocadinho difícil estar constantemente a levar comigo o peso da personagem da Ângela de Lima. Agora, ficaram-me recordações extraordinárias. Foram quatro meses a trabalhar com uma equipa fantástica. Trabalhar com o Raoul Ruiz é a recordação mais forte que tenho desse tempo, de tudo o que aprendi. A liberdade que ele dá às pessoas que trabalham com ele, de uma forma tão subtil, porque com a sua inteligência e genialidade conseguem fazer-nos chegar onde ele quer, mas no momento parece-nos que nos está a dar uma liberdade tremenda, e está. E se calhar é por nos dar essa liberdade que consegue, com a encenação, fazer-nos chegar onde quer. É até um bocadinho difícil de explicar. Essa liberdade de ser e de sentir, o não ter medo de estar e de dar, foram as coisas que Raoul Ruiz nos transmitiu mais. Além de que conhecê-lo enquanto pessoa foi óptimo, porque ele não só é um realizador brilhante como é uma pessoa muito interessante. Foram uma grande lição de vida para todos nós, esses quatro meses.

– Este é um bom exemplo de um filme que a crítica e os festivais reconheceram como tendo qualidade, e que também chegou ao público. É este equilíbrio que é necessário encontrar no cinema português?

M.J.B. – Acho que sim. E o que é incrível também é que se trata de um filme de quatro horas. À partida podia ser um filme complicado de as pessoas verem no cinema. Isto vem provar que quando as coisas são boas não se consegue deixar de ver. É um facto que às vezes vamos ao cinema ver um filme de uma hora e meia e não aguentamos, saímos, porque não tem qualidade. Com “Mistérios de Lisboa”, em todas as sessões que vi – que foram bastantes pelo mundo inteiro, nos festivais – não houve ninguém que se levantasse da sala para sair. As pessoas absorviam-se na história, naquele universo, e isso foi muito bom. Bom porque vale a pena fazer coisas com esta qualidade e porque levámos a esses festivais uma história portuguesa, tão portuguesa, e que teve grande receptividade do público. Não há que ter medo de fazer grandes obras portuguesas, e clássicos portugueses, porque quando as coisas têm qualidade, e são bem feitas, resultam. As coisas não têm de ser comerciais para funcionarem. Pode fazer-se de tudo um pouco, obviamente que sim, mas fico muito orgulhosa que se tenha feito esta obra tão portuguesa.

– Também vai fazendo um pouco de tudo na sua carreira. Gosta mais do meio do cinema ou da televisão?

M.J.B. – Há uma grande diferença. Gosto de construir personagens, gosto de representar. A televisão também é um grande desafio, porque não há tempo e conseguir fazer uma novela e dar vida a uma personagem com tão pouco tempo – porque todos os dias gravamos – é um lado interessante e desafiante, e ao mesmo tempo o lado que eu gostaria que fosse diferente, que tivéssemos mais tempo para preparar as coisas. É aquilo que acontece no cinema – há um trabalho mais cuidado, temos mais tempo para preparar as personagens, há outra profundidade. Agora, não desvalorizo a televisão, não acho que seja uma arte menor. São três formas diferentes de representar – teatro, televisão e cinema. No fundo, gosto de representar. Mas sim, o cinema tem um cuidado especial.

– Por falar em cinema, já tem novos projectos em marcha. Vai trabalhar com Fernando Lopes.

M.J.B. – Estou muito feliz com essa oportunidade de trabalhar com Fernando Lopes, porque é um realizador que admiro muito e que já há algum tempo tinha essa vontade. O filme chama-se “Câmara Lenta” e a minha personagem é completamente diferente da Ângela de Lima. Além de que trabalhar com Fernando Lopes é outra experiência maravilhosa que vou ter.

– Além deste filme, há outro projecto em que participará. Chama-se “E Amanhã” e é um filme independente, do jovem realizador Bruno Cativo.

M.J.B. – Exactamente. Tenho uma participação, uma cena apenas, no papel de uma psicóloga. Gosto de participar em projectos independentes e de trabalhar com pessoas que estão a começar e a fazer as primeiras experiências. É importante apoiarmos essa vontade que as pessoas têm. No momento da rodagem são pessoas que estão com muita vontade de fazer, e isso é muito giro. Gosto desse lado irreverente dessas equipas jovens que têm vontade de fazer cinema.

Joana de Veronna e uma personagem “genuinamente boa”

Há em “Mistérios de Lisboa” quatro actores que se destacam. E estiveram, todos eles, nomeados para os Globos de Ouro pelos seus desempenhos. Nos homens, Adriano Lima e um surpreendente Ricardo Pereira; nas mulheres, Maria João Bastos e a jovem Joana de Veronna.

“A Eugénia faz um percurso evolutivo. É talvez uma das poucas personagens do filme genuinamente boas, puras. Não sei se posso dizer um momento preferido. Gosto da sua evolução, de vê-la crescer ao longo da história”, refere a actriz sobre Eugénia, a mulher que interpreta na obra.

Joana de Veronna, mais conhecida pela sua participação em “Morangos com Açúcar”, logo nos elucida: “Comecei por estudar teatro, depois fiz cinema e só posteriormente televisão. Desde então, devido ao curso na Escola Superior de Teatro e Cinema, nunca mais trabalhei em televisão, mas tenho conseguido conciliar a licenciatura e o trabalho no cinema”.

A preferência está, admite, na sétima arte. “Foi muito bom poder observar de perto um realizador de tanta sabedoria e experiência. O filme tem tanta qualidade devido à mestria de Raoul Ruiz”, diz a jovem sobre a experiência que teve em “Mistérios de Lisboa”. E se pudesse escolher um realizador que a dirigisse, também não teria grandes dúvidas: “Se o [Ingmar] Bergman ainda estivesse por cá, seria com ele certamente. Uma vez que já não é possível, possivelmente com Kiarostami ou Michael Haneke”.

Do elenco de “Mistérios de Lisboa”, destaca a actriz francesa Clotilde Hésme por “ser tão disponível, sempre disposta” a pensar sobre cada cena e a ajudá-la no texto em francês. Para entrar no texto base, o de Camilo Castelo Branco, Joana de Veronna leu não apenas o livro adaptado como outros do autor. “Para me situar e poder ter uma série de informações sobre a escrita do autor e a sua época”, nota. A actriz acabou por descobrir “uma história que, apesar de muito longa, cativa o interesse com uma série de ligações inesperadas entre as personagens”.

Para Setembro, a actriz prepara para teatro o primeiro monólogo, com encenação de Mónica Calle. Será “A Máquina Hamlet”, de Heiner Muller. “Depois disso é possível que filme uma longa-metragem de época e [que trabalhe] talvez ainda um outro texto do mesmo autor até ao final do ano”, revela.

Joana de Veronna faz também parte do elenco de uma adaptação ao teatro de “O Jogador”, de Fyodor Dostoyevsky, espectáculo “que se pretende levar em digressão a Macau, estando por isso neste momento à procura de apoios”.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s