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Da sorte e da falta dela

Isabel Castro

Um miúdo de bicicleta, Oxford, anos 20 do século passado. Dois outros miúdos, também em bicicletas do pós-guerra, pedaladas loucas, sorrisos, uma aposta. O primeiro miúdo – o miúdo desta história – quer ser escritor, sabe que vai ser escritor. Mas, antes disso, está o problema da virgindade que ainda o persegue. Assim começa “Any Human Heart”, uma série em quatro episódios que, na realidade, é o desdobramento de um filme: pela fotografia, pela forma como se desenrola, pela narrativa.

“Any Human Heart” (2010) é a adaptação do romance homónimo de William Boyd, feita pelo próprio autor. Boyd foi buscar a Henry James o título do livro, foi roubar ao século XX muitas das personagens que vão compondo a história, cruza ficção e realidade no relato de uma vida que podia ter existido.

O best-seller não recebeu o aplauso unânime da crítica, mas mereceu a atenção de Michael Samuels, que passou para o ecrã a vida de Logan Mountstuart, o tal miúdo que, em cima de uma bicicleta, corre em direcção a algo que talvez não aconteça logo. E aqui temos a primeira lição: há sempre alguém que pedala mais depressa do que nós.

É em torno de Mountstuart que “Any Human Heart” se desenvolve – a série acompanha uma vida que tinha tudo para dar certo, para ser uma vida feliz. Mas como o próprio Logan aprendeu com o pai, a quem fez uma promessa que não chegou a cumprir por amor à literatura, é tudo uma questão de sorte. E de falta dela.

A sorte do nosso protagonista cedo se manifesta. E a ausência de fortuna também. Vivem-se os tempos de antes da guerra, a segunda. Há os amores vários, uns amores mais fortes que outros. Os dois amigos que crescem com ele, que seguem outras vidas. Mountstuart sonha com uma carreira de escritor e inicia-a da melhor forma, mas dá-lhe um estranho seguimento.

Depois vem a guerra, na qual desempenha um papel invulgar, chegam os azares, mais uma vez os amores. Uma mudança de cenário de uma Londres destruída para uma Nova Iorque que promete ser uma vida nova, mas não é. O reencontro com um filho que deixou para trás e a filha que não cresceu no rosto de uma miúda que também perde. Uma mulher, outra, e mais outra. Logan Mountstuart é o homem que, entre a dicotomia sexo-dinheiro, prefere o primeiro. Um homem que pensa muito mais em mulheres do que na forma de garantir a sobrevivência. E que pensa na escrita, nos livros que não saem da velha máquina de escrever, nos cadernos aos quais, com a vida quase no fim, limpa o pó.

Há vários Logans em “Any Human Heart”: o miúdo da bicicleta com esperança de perder a virgindade, o jovem escritor; o homem que ama loucamente e vai à guerra, conhece Hemingway, poetas franceses e a clausura de uma prisão; o homem que tem azar no regresso a Londres e nos seus anos de Nova Iorque; o velho que vive numa cave da capital britânica antes de rumar ao sótão onde passa a vida em revista, algures numa província francesa onde não deixa de amar.

“Any Human Heart” é a história de um homem (quase) comum, uma história de amor dentro de outras histórias de amor. É sobre a amizade, o valor das amizades que duram a vida toda, independentemente dos amores, das guerras, dos azares, dos golpes de sorte, dos livros publicados e daqueles que ainda estão para vir. É também acerca da velhice – e de como uma vida cheia pode fazer de um sótão o livro que, afinal, Logan Mountstuart escreveu. Com sorte e com falta dela.

“Any Human Heart”, 2010

Michael Samuels

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