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Recordações da casa alada

Hélder Beja

“No fundo da China existe um mandarim mais rico que todos os reis de que a fábula ou a história contam. Dele nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição de um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?”

 

Eu não precisei de tocar a campainha para entrar na Casa do Mandarim. Assim como nos livros que Eça de Queiroz escreveu, vamos fazer um bocadinho de conta. Faz de conta que a Mongólia é ali para os lados do Lilau e que Zheng Guanying, esse rapaz nascido em 1842 e que andou por estas terras então baldias, é o grande senhor de sedas e ricos tesouros que Eça descreve com a sabedoria de quem nunca botou pé nestas partes do mundo.

Não é difícil sonhar com cortes e garbosos banquetes de outros tempos quando cruzamos as portas da casa. A rectangular primeiro, a circular depois. Chamam-lhe porta da lua e o nome já é todo um convite para desligar das buzinas que ressoam lá fora. Se um dia tiver uma casa num monte, hei-de chamar-lhe monte da lua. Os meus amigos hão-de perguntar-me ‘estás na lua’? E eu que sim senhor, que venham cá ter que é bem bonito.

Quando visitei a Casa do Mandarim pela primeira vez, estava em Macau há meia dúzia de ocasos, trabalhava neste jornal há menos de uma semana. E lá me vi, então Fevereiro frio mas não chuvoso, a realizar perante aquelas paredes todas as fantasias de um Oriente distante onde eu, como Eça, nunca estivera antes; a ver-me, estrangeiro, entrar nos salões coloridos e tocar os objectos mais inauditos; a travar conhecimento com grandes senhores e a medir com a régua da curiosidade e o esquadro do desejo as cabaias de belas mulheres.

Lá dentro, debalde. Já não ia filado nos ilustres cidadãos, nem tampouco nas saias floridas das senhoras – que o delírio lá tem os seus limites, para mais em hora de expediente – mas ao menos contava com as tais relíquias de arregalar os olhos. Não estava eu, afinal, na casa de um Mandarim? Encontrei corredores vazios, salas vazias, pátios vazios de traquitana ou da prata e do oiro mais reluzente.

Detive-me um tanto diante de um par de cadeiras majestosas, dessas em que um tipo cresce só de sentar-se lá, mais ou menos como as dos gestores de empresas, mas menos amparadas pelo vil metal e mais pelo espírito. Era ali que Eça devia estar, ou Teodoro, a personagem, a pesar os efeitos dessa morte do decrépito e gotoso Mandarim e dos dinheiros que isso lhe valeria no alforge. Eu não me podia sentar no trono. Eu, afinal, tinha umas All Star enfiadas nos pés. Havia mínimos a cumprir.

Percorri a casa de portas que davam para portas, de paredes cinzentas e de traça que, alguém dizia, tinha também toques portugueses. De Portugal já eu me encontrava longe como nunca. Não sou supersticioso mas graças a deus que a imaginação não se alimenta só disso. Então estaquei outra vez, agora prostrado diante de uma fila de baús empoleirados uns nos outros. Era ali, de certeza. Era ali que estavam os tesoiros e as abundâncias desta gente que me apresentava um mundo novo.

E como se a minha mão se avantajasse já na direcção das caixas, cedendo ao retinir da fortuna, eis que me vieram as palavras do sábio, daquele que me avisava do precipício da luxúria, que me apontava o caminho dos simples: “Livra-me das minhas riquezas! Ressuscita o Mandarim! Restitui-me a paz da miséria!”.

E eu assim fiz, resignado, qual Aladino a quem privaram da lamparina. Retirei-me. Os baús continuaram adormecidos. As paredes permaneceram cinzentas mas nunca opressoras. A Casa do Mandarim passou a ser a minha miragem de algibeira.

 

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