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“Não se pode pintar sem água”

A obra de Cindy Ng está neste momento patente no Museu de Arte Contemporânea de Xangai, na mostra colectiva “Tao of Nature”. Os trabalhos da artista local bebem a água da tradição e têm tido projecção no Continente.

Maria Caetano

É pintora, mas não pinta. Cindy Ng deixa fluir água e tinta para capturar “o momento mais belo” e sente-se sobretudo fotógrafa de uma arte que, em liberdade, encontra o seu caminho.

Cindy Ng procura arte e vida em estado líquido. É uma artista de tinta-da-china, no sentido mais clássico da palavra. A educação da pintora e videasta de Macau foi feita através do olhar posto em milenares colecções de arte chinesa guardadas num museu de Londres, no traço de caligrafia e nos veios com que a tinta sulcou o papel e a seda.

Não conheceu a educação formal de uma academia de Belas-Artes, mas está hoje entre os artistas locais mais bem posicionados no mercado de arte chinês, expondo nos principais museus e galerias e vendendo obra a colecções importantes.

Esteve em Londres, em Taipé, e mudou-se para Pequim – aconselha a experiência a outros criadores locais. Mas, ainda assim, acredita que Macau vai crescer para as artes na próxima década, por força de um certo bem-estar económico que traz novas apetências.

– Começou por estudar gravura. O que a fez começar a pintar?

Cindy Ng – No final de 1990, quando terminei o ensino secundário, éramos demasiado pobres. Não tinha dinheiro suficiente para estudar Artes no estrangeiro e, ainda que tivesse dinheiro, a minha família não ia permitir que estudasse Artes. Portanto, trabalhava de dia e à noite estudava gravura na Academia de Artes Visuais. O meu professor era o James Wong. Acho que a gravura me influenciou. Já sabia trabalhar com aguarela, pintura a óleo e desenho. A gravura era outro tipo de criação, não é algo que se faça directamente sobre o papel. É algo que se cria de forma indirecta e mudou a maneira como penso – fez-me pensar mais sobre a tinta. Pratico bastante e reparei que, quando lavava os materiais, a tinta fluía sob a água e escorria para o cano. É algo extremamente belo. Queria que essa beleza pudesse ser fixada no papel. Foi um momento determinante ter feito esta descoberta.

– Estudava em Macau, mas acabou por seguir para Londres e estudar pintura e caligrafia chinesa.

C.N. – O Bartolomeu Cid dos Santos, professor em Londres convidado a dar aulas em Macau, escreveu uma carta ao Museu Britânico para que permitissem que eu estudasse a colecção de arte chinesa. Como é que eu estudava? Todos os dias, ou quase todos os dias, pegava num caderno e num lápis e abria os armários das colecções. Dizia que queria ver um quadro da dinastia Qing e no dia seguinte deixavam-no na minha mesa, permitindo que eu fizesse registos. Foi nesse momento que tomei consciência das filosofias do taoismo e do budismo enquanto verdadeiras obras de arte. Já as conhecia, mas não sabia de que forma influenciavam a arte chinesa. Isto foi por volta de 1993, 1994. Foi o início, quando comecei a entender a filosofia e a arte como algo que está unido. Os tempos de Londres foram muito importantes: conheci melhor a cultura chinesa e a cultura ocidental. Ia muito ao Tate e ao Museu Nacional para ver de perto as obras, um verdadeiro Picasso, um Monet, um Matisse. É muito importante treinar o olhar para ver tudo. Mesmo que não tenhamos oportunidade de ter uma universidade que nos forme, a forma como olhamos é muito importante. Isso treinou-me para o uso da cor segundo a teoria ocidental. Mas, de uma forma oriental, conheço o estilo e a teoria chineses, de como desenhar paisagens sem perspectiva. Isto foi muito importante para mim.

– Depois esteve em Taiwan…

C.N. – Depois de regressar a Macau, tive uma oportunidade muito boa, em 1996. Fui convidada a expor no Museu de Belas-Artes de Taipé. Foi muito importante, estudei e estive quase um ano a treinar. Foi algo diferente de Macau. Em Taiwan as artes e a cultura são realmente importantes.

– Conheceu as técnicas oriental e ocidental. Porque optou pelo estilo de representação tradicional chinês?

C.N. – Teve que ver com o Bartolomeu Cid dos Santos. Visitava-o muito na escola [Slade Scool of Fine Art] apesar de não ter dinheiro para estudar artes. Ele ensinava estudantes asiáticos. Um dia ele disse-me ‘tu tens cultura oriental – como artista, criadora, se não perceberes a tua própria cultura, não vale a pena’. Ele explicou-me que se não compreendesse a minha própria cultura, nunca ia perceber a cultura dos outros, a cultura ocidental. Ouvir isso fez-me reflectir e tentei recuar – recuei mil anos na história de arte chinesa. Muitos chineses estão focados naquilo que é ocidental, o que não estará certo ou errado. Mas o principal é compreendermo-nos a nós próprios para depois sermos capazes de compreender os outros.

– Um dos aspectos que ressalta do seu trabalho é a fluidez da tinta. É algo de muito presente esta liquidez. Procura isso deliberadamente?

C.N. – É algo de que ando à procura: liberdade. A forma como os trabalhos fluem para formar uma estrutura ou uma paisagem é aquela que eu quero – procuro deixar que as coisas sigam o seu curso, deixá-las estar. Apenas controlo o ‘timing’, o quão fluidas serão, o quanto aparecem em qualquer superfície – seja na tela, no papel ou no vídeo. Por vezes, sinto-me como se fosse fotógrafa. Apenas apanho o momento belo para que fique para sempre. Todos sabemos que um momento belo não dura mais que um minuto, não pode perdurar para sempre. Capturo-o e caso-o com o papel ou a tela, fazendo com que o minuto passe a ser uma eternidade.

– Associamos a pintura tradicional à água e à montanha. No seu caso, a parte da água é a mais visível.

C.N. – Não podemos viver sem a água. É o mesmo que sucede com a tinta – não se pode pintar sem água, se não ela não flui. Se não deixamos as coisas correrem por si, se não nos deixamos prosseguir, ficamos presos nalgum sítio. É preciso continuar, enfrentar problemas, fazer com que a vida flua. No fundo é tudo o mesmo: a vida e a arte. É assim que entendo que deve ser, deixar fluir, sem resistência, e encontrar um caminho.

– Como a água encontra o seu caminho?

C.N. – Sim. Se não podemos ir por um lado, haverá outro através do qual poderemos fluir facilmente.

– A sua vida tem-se encaminhado mais recentemente para Pequim.

C.N. – Agora estou em Pequim. É como o trabalho com a tinta: flui para um estado mais belo. A minha vida está a fluir para me tornar mais confortável e me dar maior liberdade. Tenho um estúdio, que é algo por que espero há muito, muito tempo. Não é possível ter um estúdio destes em Macau, em Taipé ou mesmo em Xangai – só mesmo em Pequim. Lá há condições que me permitem permanecer.

– Diz que a sua obra não é mais fácil de perceber e de gostar, de um ponto de vista comercial. Mas está ainda assim representada em colecções importantes da China. Como é que isto acontece?

C.N. – As pessoas têm dificuldades em percebê-la, mas ainda assim há compradores. Talvez seja melhor perguntar-lhes porquê (risos). Acho que o mais importante é que a forma como trato a tinta é bastante diferente do método de outras pessoas. Estou a fazer algo de muito chinês, mas de um modo contemporâneo. Sinto que actualmente é algo único. É por isso que para mim é importante estar em Pequim, onde há oportunidade de as pessoas verem o que estou a fazer. Se ainda estivesse em Macau não teria a oportunidade de que as pessoas vissem a minha arte. Acho que o motivo pelo qual as pessoas gostam do meu trabalho é porque ele é muito chinês, mas não tão tradicional, e porque é abstracto – cada um terá nele a sua história. Quando estava em Taipé, um dos meus amigos, que é católico, viu um vídeo e disse que imagina nele Deus a criar o mundo – a paisagem, as montanhas, o rio. Outro amigo meu, budista, diz que vê Buda tranquilizando o mundo, inspirando espiritualidade. Não ponho limites, as pessoas vêem aquilo que querem.

– A forma como trabalha a tinta está muito associada à filosofia taoista.

C.N. – Estudei o Tao. O taoismo e o budismo são muito importantes para a arte e para a história chinesas. Baseio-me na filosofia chinesa, mas faço-o de uma forma contemporânea. Depois tem que ver com Macau também. Todos os lugares têm multidões e são barulhentos. Eu pinto o lugar onde quero estar, e acho que o Tao acaba por sobressair.

– Outros artistas contemporâneos chineses procuram uma expressão mais figurativa, ou inspirada em motivos populares da China, e têm muitos apreciadores. É a educação artística que se teve que determina essa orientação?

C.N. – É difícil avaliar. Há um processo demorado até que as pessoas percebam como pensamos. E não há certo e errado. Pode haver estilos figurativos, pop e mais ‘cool’. Mas quando o mercado é grande o suficiente, há sempre pessoas que procuram algo de mais espiritual, que estão à procura da natureza.

– Há uma explosão tão grande no mercado de arte chinês que podemos colocar a hipótese de uma bolha, de uma desvalorização significativa de muitas obras numa fase posterior. Acha que pode acontecer?

C.N. – Depende muito do momento económico. No caso de Taiwan, na década de 1980, vivia-se uma fase económica muito boa e o mercado de arte era tão pujante como o do Continente é agora. Se a economia se mantiver bem, não haverá problema, o mercado de arte continuará a crescer. Por exemplo, agora as pessoas estão a começar a investir na arte indiana. Os Estados Unidos e o Japão viveram momentos semelhantes no passado – sobretudo o Japão, que comprou as mais importantes obras de arte, até “Os Girassóis” de Van Gogh. Depois a economia decaiu, e o mercado de arte também.

– Mas estes artistas todos, sobre os quais há uma grande euforia, serão todos reconhecidos no futuro?

C.N. – Não estudo o mercado, mas vejo que antigamente havia muito poucas pessoas a comprar arte – eram poucas as fundações que o faziam como investimento. Desde o ano passado já há mais cinco fundações de investimento em arte no mercado, e haverá mais. É algo muito interessante. Os preços vão continuar a subir. Mas porque é que as pessoas estão a investir em arte? Porque os mercados financeiro e imobiliário não estão bem e têm de pôr o dinheiro nalgum lado – a arte torna-se a primeira escolha. Por outro lado, a China é grande demais, há gente a mais. Às vezes, em Pequim visito casas de coleccionadores que arrumam a um canto obras de um milhão de dólares. É espantoso, mas o que podemos dizer? São ricos, são muito ricos, simplesmente. É difícil saber se haverá uma bolha. O que sabemos é que há demasiadas pessoas ricas.

– Diz que acredita que dentro de dez anos Macau será muito mais forte nas artes do que é hoje. Porque é que acredita que isso vai acontecer?

C.N. – Também é um processo que depende muito da economia. Nos próximos anos vamos ter uma economia melhor. O desenvolvimento da rede que abrange Macau, Hong Kong, Shenzhen e Zhuhai, bem como da Ilha da Montanha, permitirá que haja mais espaço e mais investimento. A arte é algo de espiritual que as pessoas procuram quando são ricas. Primeiro, dotam-se de todo o tipo de artigos de luxo. Depois, começam a querer algo que seja único, e isso é a arte. Outra coisa que as pessoas também procuram é o poder – algumas pessoas irão entrar na vida política, nos partidos. Arte e poder são as duas coisas que as pessoas procuram quando passam a ser ricas. Não me parece que Macau possa ter um grande papel do ponto de vista político, mas pode tê-lo na arte e na cultura.

– Mas como é que pode acontecer o desenvolvimento dos artistas? Não há educação.

C.N. – As pessoas têm ido estudar para Taiwan, Pequim, Xangai ou Hangzhou. As indústrias culturais estão a ser desenvolvidas aqui e em toda a China e, neste tipo de desenvolvimento, é impossível ficar indiferente à arte. A cultura e a arte estão ao mesmo nível. Temos de encontrar o conceito original do trabalho artístico – sem este, não haverá o resto, os produtos, o design. O que é importante é que as obras sejam boas. Haverá muitas oportunidades para aquilo que for bom no futuro. Acho que o Governo também está à procura de bons artistas.

– Há muitos bons artistas na sua opinião?

C.N. – É uma questão de perspectiva, do nível em que nos encontramos. No mercado local, os trabalhos vendem-se e os artistas conseguem viver, tudo bem. Mas tenho uma sugestão para os artistas locais, porque Macau é demasiado pequena. Um artista que procure uma carreira tem de ligar ao que se passa a nível internacional, ver mais exposições, falar com as galerias, ir a Pequim, que é o principal mercado de arte contemporânea da China. É preciso estar lá, conhecer as pessoas – curadores, galeristas, coleccionadores. O nosso maior problema, dos artistas de Macau, é não falarmos uns com os outros. Não julgamos os trabalhos uns dos outros, é um mundo pequeno. Mas na verdade tudo depende do que o artista procura – se quer mais, tem de ver mais.

– E para a sua carreira? O que está a planear?

C.N. – Além da performance [projecto colectivo Playing Landscape, actualmente a ser exibido na Polónia], quero continuar a aplicar a tinta a diferentes media. Actualmente, trabalho de forma bidimensional. Gostaria de fazer escultura. Por outro lado, queria fazer algo com ciência, ou seja, algo interactivo. Também, talvez, trabalhar com um VJ e com designers. Quero pôr a minha arte em diferentes categorias. Na verdade, já há designers de Macau que estão a trabalhar comigo – a minha imagem já foi utilizada para rótulos de vinho e agora estou a trabalhar para sapatos de uma marca de Xangai.

– Sente-se bem a trabalhar com produtos?

C.N. – Depende muito do projecto, de saber se é interessante. Pode ser muito simples aplicar arte a um produto, mas também pode ser muito complicado. No ano passado tive um projecto com uma empresa de cerâmica e gostei muito do design deles. Há poucas pessoas a trabalhar com esta tinta hoje – acham muito antiquado, tradicional. Eu não acho. Tudo depende da forma como a usamos.

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