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Esmiuçando Chagall

Frederico Rato

Ouve-se e diz-se que há apenas três judeus que vale a pena apreciar: Jesus Cristo, Karl Marx e Albert Einstein. Sem curar da bondade ou não da asserção, bem como da valia dos respectivos prosélitos ou dos seus contraditores, peço vénia para acrescentar um quarto nessas três assoalhadas: Marc Chagall! Quem??? Marc Chagall, o judeu do sorriso tímido e do cabelo encaracolado, com um narizinho acentuado, quase adunco, eternamente apaixonado pelas suas mulheres, uma de cada vez, príncipe da cor e da fantasia, que nunca renegou o povo que o gerou e sublimou a sua condição humana como um cidadão estruturalmente universalista e humanista.

Se Jesus Cristo pode representar a religião e o espírito, Karl Marx a ideologia e a política, e Albert Einstein a ciência e a filosofia, Marc Chagall representará a arte e a cultura.

Não conhece, não se lembra? Pergunte ao Carlos Morais José que, Chagall chegado, logo se lhe alegra o rosto, parece se lhe iluminam os olhos. Graças a ele, Carlos Morais José, ficou o mundo chagalliano de Macau (quatro ou cinco cidadãos, um apenas residente prós subsídios) a saber que Taiwan também se interrogou sobre quem é esse Chagall.

CMJ, ele mesmo, sempre atento e bem informado, culto, ousado e crítico, alertou, em editorial do Hoje Macau, de 6 de Maio passado, para a exposição de quase 120 trabalhos em Taipé, no Museu Palácio Nacional de Taiwan. Como é possível Chagall em exposição exclusiva no Oriente? Verdade? Fui ver para crer, como S. Tomé, e era verdade!

Um deslumbramento, que provocou insensibilidade ao calor do inferno, à chuva quente, às bichas longas, mas andantes! Fiz o percurso ao contrário, não para, muito à portuguesa, ser diferente ou chatear, mas para não seguir o caudal de cidadãos locais e aproveitar as clareiras, e assim, kuai lou style, pude ver tudo com detalhe e, como nas bodas de Caná, o melhor no fim, os óleos grandes, pequenos e famosos, que existem em museus, galerias e colecções particulares de Tóquio e Seul e que raramente aparecem no Ocidente.

Não sendo tão rica como a exposição de Chagall no Petit Palais, em Paris, em Março de 2003, transportada no mesmo ano para S. Francisco, com cerca de 150 obras e um fabuloso e histórico catálogo comum às duas exposições, (ao contrário do catálogo de Taiwan, magrinho, escrito apenas em chinês, mas rico de imagens de telas menos conhecidas no Ocidente), a colecção que foi exibida no Museu Palácio Nacional de Taiwan é gratificante pela novidade de muitas telas que raramente saem à cena para outros países, como ainda pelo facto de poderem ser apreciadas “cópias” do próprio Chagall dos seus óleos mais famosos: “Moi et le village”, pintado em 1911, em exibição no MOMA de Nova Iorque, e “copiado”, com outras dimensões, pelo próprio Chagall em 1923, que se encontra no Japão, “L’ anniversaire”, em que Chagall e Bela se beijam em levitação, de 1915, também pertença do MOMA de Nova Iorque, reproduzido pelo autor em 1923, sensivelmente à dimensão primitiva, também sediada no Japão e, ainda, a deslumbrante colecção de gravuras, que situo na Suíça, mas sem certeza. Uma breve referência à tela de 1915, “Au dessus dela ville”, em exibição em Taiwan, um voo de Chagall e sua Bela, com duas galinhas junto à paliçada da vila, substituídas no quadro do mesmo título de 1914 – 1918, por um cidadão de Vitebsk a fazer um cocozinho, defendido dos olhos vilarejos pela mesma paliçada, mas não de quem flutua no ar com a namorada! Qual é a obra primitiva e quem censurou quem?

Olhar os quadros do quarto judeu não é receber imagens ou mensagens inequívocas, estremes, reais, mas vogar no espaço, emprenhar os olhos, preencher a imaginação, bestializar o bem, o mal, o assim-assim, humanizar os céus e os infernos, deixar as línguas de fogo arder nas cabeleiras e nas carecas dos Apóstolos e as espadas dos arcanjos fenderem os crânios dos justos, mas mais dos injustos, c’os diabos!

É ver as noivas, sinónimo de virgens em Chagall, casadas há um ror de tempo, mas sempre noivas e sempre virgens, a voar por cima das águas do Sena sujo e de Vitebsk, a furtarem o véu e o rabo ao pico da torre Eiffel, objecto obsessivo do habitat emocional de Chagall, um cântico constante, quase enjoativo, ao signo do espaço que lhe abriu as portas, o acolheu e proporcionou a criação.

É ver os galos e as galinhas, as cabras e os bodes, transmutados em animais voadores, os violinistas perdidos ou achados, de pernas para o ar, com meia cabeça verde ou já sem fôlego, as vacas e os touros, de rosto faceto e cornos pontiagudos, mas não hostis, por natureza, ou curvos, mas não inocentes de todo!

O circo, a ópera, a música, a noite, os noivos, as flores, as mulheres, as pontes, tudo em movimento constante, personagens animadas a flutuar e a mudar de lugar, numa tela dinâmica, cheia de movimento, nova e diferente de cada vez que se mira!

E Vitebsk, a terra russa, pobre e fria, habitada por judeus, repetidamente pintada e reabitada por Chagall, como que um regresso perene às origens, uma saudade nunca afogada, uma paixão mal resolvida, onde volta e regressa, sozinho ou com Bela, nua ou vestida, um arrependimento serôdio de uma fuga não querida, porventura, mas inevitável!

Desta curtíssima descrição e subjectivíssima interpretação de algumas obras de Marc Chagall surge-lhe o apetite de ir vê-lo a Taiwan? Na verdade, pode ir. A exposição já não está no Museu Palácio Nacional de Taiwan, o “maior espólio conhecido de obras de arte e relíquias arqueológicas chinesas”, no dizer de Carlos Morais José, espoliadas à República Popular da China por Chiang Kai-shek em fuga para a Formosa em 1949, digo eu, mas foi rearmada em Taichung. Está lá até 14 de Agosto, marque o voo já que é mais barato, apanhe o comboio na “Taipei Station” do metro de Taipé, estará lá em pouco menos de duas horas, entre, olhe, observe, veja, esquadrinhe e emocione-se!

Dois em um, aproveite e, no regresso a Taipé, vá ver 62 peças de Pablo Picasso, no Museu Nacional de História, por empréstimo do Museu Nacional Picasso, de Paris, e até 18 de Setembro.

Carlos Morais José não sabia desta, pois não? Então estamos empatados um a um.

Talvez nos vejamos por lá…

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