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Se eu voltar para trás

Recuar e recuar até chegar a um estado em que se é quase criança outra vez. É esta a técnica do canadiano Teatro dos Confetti para divertir os mais pequenos. “Mecânica Celestial” apresenta-se hoje no Centro Cultural.

Hélder Beja

Um museu, um jogo de espelhos, o tic tac do relógio, um teatro dentro do teatro e palavras para quê? As palavras não fazem falta ao Teatro dos Confetti, que chega do Canadá para entreter a pequenada de Macau entre hoje e domingo, como sessões às 15h e às 19h30 no pequeno auditório do Centro Cultural de Macau – e hoje com uma sessão extra, às 11h.

A peça “Mecânica Celestial”, criada por Claudie Gagnon, brinca com a passagem do tempo, percorrendo as várias estações do ano, e não usa o verbo porque, dizem os três performers do espectáculo – Frédéric Lebrasseur, Marianne Marceau e Jonathan Gagnon –, não precisa.

“É muito fácil comunicar sem palavras. Há um milhão de emoções que podemos passar através de um olhar. Há imensas possibilidades”, começa Jonathan Gagnon, que se apresenta vestido de guarda de museu, com roupas maiores que o corpo e sapatos que sobram aos pés. “Tem que ver com a cara. A minha cara pode mostrar que estou surpreendida, zangada… É a mesma coisa com todas as pessoas. Quando mostras emoção, as pessoas vão senti-la. Como não há diálogos na peça, as crianças estão mais atentas aos gestos e aos detalhes”, acrescenta Marianne Marceau, que se intitula de “rainha do tempo”.

“Mecânica Celestial” vive das prestações dos actores, do cenário e também da música de Frédéric Lebrasseur. “Comunico através da música e uso a minha voz como instrumento, também. Sou percussionista, para mim o ritmo é importante. Gosto de mudar o ritmo e jogar com isso”, conta este “homem-pássaro” que vai exemplificando vários assobios que consegue fazer. Apesar de as crianças provavelmente não entenderem, faz-nos lembrar Andrew Bird.

Divertir é preciso

Na peça, o público – principalmente miúdos acompanhados dos pais que já compraram 90 por cento dos ingressos disponíveis – passará primeiro por uma espécie de museu, com espelhos e imagens que se movem. Depois, vai instalar-se no pequeno palco que faz parte do cenário. A partir daí, os pequenos estão nas mãos das 11 personagens diferentes que os actores vestem. Mas como é que artistas crescidos conseguem fazer rir e entrar na cabeça de meninos e meninas de palmo e meio? “É como um jogo para nós. Quando estamos em palco representamos personagens de miúdos, de animais. Voltamos atrás no tempo e tornamo-nos crianças outra vez. É divertido e é uma espécie de prazer primário”, explica Gagnon.

Marianne Marceau adita que o que é preciso é ter gosto por estar em palco. “Se estivermos mesmo imbuídos naquilo que estamos a representar, não vamos estar a olhar para nós e a pensar ‘oh meu deus, o que é que eu estou a fazer’. Temos de nos divertir com as crianças e ouvi-las, perceber como é que reagem.”

E para isso não é preciso que a história tenha uma moral ou que haja uma mensagem muito estruturada, diz Frédéric Lebrasseur. Trata-se, afinal, de arte. “A encenadora do espectáculo, Claudie Gagnon, fez toda a arte do espectáculo, não só o trabalho de encenação como os fatos, a maquilhagem, tudo. O conjunto é como uma peça de arte. Se alguém na China vê um Picasso, pode sentir. Para mim é o mesmo com este espectáculo”, conta. “Não acredito que tenha de passar uma mensagem, o que tenho é de despertar as mentes para a arte. Espero que consigamos dar asas às crianças para que possam fazer as suas escolhas.”

Lebrasseur é um homem “muito orgulhoso” com o espectáculo que apresenta. “Para mim o que interessa é transmitir a paixão às crianças. Fazer uma peça para crianças dá imenso trabalho, não é mais fácil que fazer uma peça para adultos, é apenas outra coisa”, prossegue Lebrasseur, elo principal deste triângulo de performers. Para o artista, “este tipo de espectáculo é universal”. “Talvez as pessoas possam imaginar coisas diferentes, o que não é um problema. É como Picasso ou Mozart. Não se muda a música de Mozart por ser tocada na China. Acredito que o mais universal que existe é aquilo que está dentro de nós, e não quando fazemos coisas por encomenda. Se queremos partilhar, devemos partilhar uma parte de nós. E é por isso que devemos manter o mesmo espectáculo” onde quer que seja apresentado, aponta.

Sobre a reacção do pequeno público, os actores canadianos dizem que varia e que pode não ter muito que ver com as geografias onde se trabalha. “No Quebec, às vezes actuamos no mesmo lugar em dois dias diferentes e é totalmente diferente. Porque as crianças estão em grupo, ou porque vieram com os pais, ou por causa do tempo. Às vezes é difícil dizer qual é o factor de mudança”, comenta Lebrasseur.

Se para os dois outros protagonistas de “Mecânica Celestial” a vinda a Macau é uma estreia na Ásia, Lebrasseur já esteve por estas paragens. “No passado actuei em Taiwan e no Japão, e só aí se nota uma grande diferença. Em Taiwan, tiveram de dizer às crianças para não falarem muito durante o espectáculo. No Japão, o que tiveram de dizer aos miúdos foi que se quisessem podiam rir. Cinco minutos antes do espectáculo no Japão, a sala estava silenciosa. E estou a falar de crianças com cinco ou seis anos”, exemplifica.

Na RAEM ou em qualquer outro lugar, este espectáculo “é para a imaginação dos miúdos, e está tudo dito”, sustenta Jonathan Gagnon. “Se eles retirarem uma mensagem destas histórias, perfeito – será a sua imaginação a funcionar.”

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