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Silêncio feliz

Isabel Castro

Voltamos ao bazar à procura do que já não existe: a eterna felicidade tem a forma de um pátio que é uma mentira, porque o pátio não é um (são dois) e porque todos sabemos que a felicidade não dura para sempre. Nem as casas, nem as pessoas que lá viveram, nem as pedras que se esculpiram para se ter mais nobreza na fachada.

Mas vamos com calma, que o que se segue a exige. Voltamos ao bazar à procura de uma entrada estreita que passa discreta a quem anda na rua a olhar só em frente. Há um conjunto de lampiões que não nasceram ali mas que nos iluminam o caminho, o túnel é escuro, corre água das paredes, e aí vamos nós, para o pátio onde um dia a felicidade foi eterna.

Há algum tempo que aqui não vínhamos e o velho que lavava garrafas usadas para as vender ao quilo já cá não está. Era o único habitante do primeiro pátio, sentado nuns degraus com um balde colorido em frente, garrafas verdes e castanhas quase cinzentas como as paredes que o emolduravam. O velho das garrafas desapareceu mas deixou vestígios, objectos cheios de pó que denunciam a ausência prolongada.

O primeiro pátio está vazio, todos os ruídos da rua ficaram para trás, e é como se o tempo não existisse. Há algum tempo que aqui não vínhamos e não sabemos quando é que taparam as casas que um dia, desconhecemos quando, tiveram sedas e risos e a tal felicidade eterna que se promete à entrada. A cidade não nos diz quem aqui viveu, mas este pátio era por certo de gente rica. São as pedras que o sussurram, as janelas que agora estão tapadas, as portas ricas que, a custo, se descobrem por entre uma estranha vegetação que tudo come: casas, janela, tempo.

Este pátio onde já não há felicidade acaba no escadario imprevisível que nos leva mais alto, que nos conduz a um segundo pátio e aí vamos nós, com o desejo de que este silêncio a anunciar morte (a morte do pátio) não se repita. Lá em cima, há vestígios de gente, roupas que se penduram a secar numa janela que, nesta rua estreita, dá para uma janela onde já não moram vizinhos. E de novo os taipais, os vidros partidos, o silêncio entorpecedor no meio de uma cidade que não sabe estar calada.

Nestes pátios de felicidade passada estão amores vividos, vidas nascidas e outras perdidas, namoros sussurrados, futuros que já não o são. Falam-nos nos bairros antigos e em património e em intangibilidade e está tudo aqui, em meia dúzia de casas que a cidade não nos mostra, não nos ensina.

Viramos à direita e deixamos as casas para trás. Logo ali ao lado, a cinco minutos de caminhada, juntam-se turistas com tripés e máquinas fotográficas e filhos e vendedores no encalço. Talvez o pátio que são dois não seja mentira. E a felicidade esteja no silêncio que a cidade nos rouba, no silêncio que nos deixa pensar que aqui há passado. Aquele que a cidade esconde, mas que está ali. Na eterna felicidade.

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