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A minha maçã de Julho [passos em volta]

Manifesto-me: não encontro nada de especial no sentido de orientação. O norte, sul, este, oeste são tão úteis à construção da vida como um mapa num labirinto. Prescindo. A saída é coisa a adiar nos dois casos e o espaço administrativo contraria o génio dos intuitivos, dos que sabem que há mais inteligência em perdermo-nos numa cidade do que deixar que uma cidade nos perca. O que digo é que a omnisciência do aqui e agora impede o pensamento: o agora é a data do calendário e as horas do relógio; o aqui, o nome da rua escrito na tabuleta. O mundo de mão beijada em pormenores, sem abstracções, e daria o assunto por arrumado se o nome da rua não estivesse escrito em Macau.

As minhas deambulações acontecem à noite. Para estar no meu labirinto preciso de fugir do dia (as pessoas distraem-me e sem silêncio não vejo bem) e evitar ruas com nomes de generais, padres e governadores (sou conceptual, prefiro a toponímia das profissões, do credo e dos utensílios). Foi assim que vim parar a esta, enquanto matutava na destruição de mais um mito de infância. Andava a pensar em como as teorias e análises disto e daquilo, afinal, complicam o isto e o aquilo sem nunca os simplificarem, e que, pelo meio, tinham feito com que perdesse a capacidade de me espantar. A Rua do Teatro ficou o meu reduto de deslumbramento – decidi nunca perguntar por que tinha aquele nome.

Voltei lá faz agora umas doze horas (convém ler este texto por volta das 13h). Tinha de a ver mais uma vez, como a conhecia, nocturna e densa, antes de escrever este texto. Era o mesmo corredor de trevas, com uma mancha de luz ao fundo e um barulho assustador de turbinas (são tiros, máquinas destruidoras, o diabo). Voltei a ter medo e a achar que faz falta sentir medo. Estava preparada para fazer a transição da noite para o dia.

Cá estou, com a testa em pinga a olhar para um cacho de bananas suspenso num fio de arame. Estás a tirar uma fotografia? Confirma. Porquê? Penso ‘porque estás a vendê-lo e usas uma t’shirt com dois morangos’, mas saio-me com um ‘sou jornalista’. Vai sair no jornal? Confirma. Chinês? Desconforme. Vende em Macau? Conforme. Queres comprar-me cerejas? A ser, seriam maçãs. Pelo Joni Pita, que as descascava com a navalha como se soltasse um fio de pião e nos últimos vinte anos só bebia sumo de maçã, era pescador e não sabia ler – teria intuição suficiente para vir dar à rua das frutas do bazar, que, em português, é a Rua do Teatro, e, em chinês, será qualquer coisa como a rua do molhe grande.

Devo ter chegado em má hora. A senhora das cerejas é a única com banca montada. Alinha à ponta da rua, num cordão fechado de portões de ferro, sacudidos apenas pela passagem pontual de carrinhas de caixa aberta, vazias. Há dois ou três (não mais) armazéns de portas escancaradas a revelar que a fruta da rua da fruta vem em caixotes de papel, empilhados em massa para venda indiferenciada.

Entro e não encontro ninguém que se espante comigo. Atenção: há pessoas, estão a acartar caixotes de uma loja para outra ou a almoçar, num útil vagar, mas nenhuma se espanta comigo. Talvez a senhora das cerejas tenha dito à vizinhança que eu era jornalista, quando me distraí no templo dos cartazes de peras e das deusas Á-Ma aconchegadas a um canto à espera que alguém tire o pó à fé e ao negócio. Talvez seja verdade que basta uma explicação para que tudo se entranhe. O facto substituiu a intuição, ainda que me sinta numa peça de teatro e trinque uma maçã de Julho. Vá-se lá perceber como isto se deu.

Sónia Nunes

 

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