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As escolhas da casa

Isabel Castro

“Quiet Is the New Loud” tem dez anos, os rapazes Erlend Øye e Eirik Glambek Bøe já fizeram outros discos e correram muito mundo, Øye teve projectos a solo e mudou de país, para depois regressar a casa e à fórmula simples de duas guitarras que sabem muito a Verão. Mas vale mesmo regressar ao início, a esta dúzia de canções que marca o princípio de vida dos Kings of Convenience. Na realidade, são músicas para o ano inteiro. Mas encaixam bem num pôr-de-sol ao volante.

No banco de trás, leve apenas um livro: a grande vantagem de “2666”, o último romance de Roberto Bolaño, é que, se lido com moderação, dá para as férias todas. É certo que, na praia ou numa chaise longue de uma piscina à beira do paraíso, as mais de mil páginas da obra não são fáceis de equilibrar. Mas faça um esforço, que compensa: “2666” é a estranha história de um escritor enigmático que ninguém jamais viu mas que desperta a paixão de quatro germanistas. É um livro com livros lá dentro, como os bons livros devem ser.

Depois, antes de voltar a casa, veja (ou reveja) “In the Mood for Love”, filme do início deste século que é talvez a obra-prima de Wong Kar-wai. Nas paredes e sons e cheiros em que se movimentam Tonny Leung e Maggie Cheung há uma Hong Kong dos anos 1960 que, se procurar bem, ainda encontra em Macau. São aqueles vermelhos e amarelos de luz, as ruas estreias e húmidas de um cinzento que todos conhecemos e que, para quem cá está, sabem a casa. E é bom voltar.

Hélder Beja

Vamos pensar num Verão de planícies alentejanas que poderiam ser também as de um certo Oeste americano. Óculos de sol, pele curtida e as cordas dos Dead Combo a tocarem bem alto. “Lusitânia Playboys” é um disco de viagem – por fora, com árvores a correrem dos lados, e por dentro, a convidar-nos para divagações que nos levam àquele lugar onde cada vez mais raras vezes nos sentamos – o lugar onde se pensa. Se pensa. E tudo sem a coisa palavra, porque Tó Trips e Pedro Gonçalves não precisam dela para contar histórias.

Histórias são o que não falta a outra América, a que Clarice Lispector escreveu nos seus livros e, particularmente, nos seus contos. Da autora brasileira com raízes na Ucrânia sugerimos exactamente “Contos”, editado pela Relógio d’Água, que reúne praticamente todas as narrativas curtas desta mulher que sempre se definiu como uma amadora da escrita. E importa ir à raiz do termo para perceber que é de amor que se trata. A obra é um compêndio de criatividade e contenção, de domínio da linguagem e capacidade narrativa.

E porque não queremos sair das Américas, é por lá que ficamos para os filmes. Baralhamos, voltamos a dar e de repente estamos na Trilogia dos Dólares de Sergio Leone (onde podiam muito bem aparecer os Dead Combo). “A Fistful of Dollars” (1964), “For a Few Dollars More” (1965) e “The Good, the Bad and the Ugly” (1966) são três obras para ver sem preconceitos e como quem viaja no tempo, com um Clint Eastwood que é bom, mau e vilão – dependendo dos casos. A banda sonora de Ennio Morricone desenha o western e ata-se àquela imagem do cacto que todos de certeza associamos ao género.

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