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“Um autor novo não se faz de hoje para amanhã”

Maria do Rosário Pedreira publicou os primeiros romances de valter hugo mãe, José Luís Peixoto, João Tordo e muitos outros nomes. Hoje continua a procurar novas vozes literárias – e a encontrá-las. Apesar de serem as excepções à regra.

Hélder Beja

Ela é como uma sonda que percorre a literatura portuguesa, que lê milhares de páginas de textos originais com os olhos que Portugal se acostumou a ver como certeiros na hora de encontrar talentos. Maria do Rosário Pedreira, editora como as editoras devem ser – lendo, trabalhando, sugerindo, editando – é hoje o nome forte do enorme Grupo Leya (que reúne Dom Quixote, Caminho, Asa e outros selos ligados à ficção) para a literatura que se escreve em português.

Em entrevista, a mulher que também é poeta e que escreve quase todos os dias no blogue Horas Extraordinárias (http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt) explica que um bom autor não se encontra nas pedras da calçada nem pendurado nas árvores. É preciso trabalho. E tempo. E que Portugal continue a escrever bem, como Maria do Rosário Pedreira considera que se faz agora.

– Que tal vai essa sua missão de resgatar a literatura portuguesa, como chegou a defini-la tempos atrás?

Maria do Rosário Pedreira – Olhe, não vai mal, porque a literatura nacional, ao contrário do que poderia parecer, está em muito boa forma. Ou seja, ao contrário de tudo o que se está a passar no país (que está em bastante má forma), está de boa saúde. Há uma esperança em relação a uma nova geração que está de facto a escrever bem, e a escrever coisas interessantes. Em relação a isso, a minha missão continua a mesma – continuo à procura destas pessoas. É evidente que não se encontram 20 pessoas destas por ano, são as excepções. E por isso publico também outras coisas, mais relacionadas com literatura de entretenimento ou com estrelas – os livros ditos mais comerciais. Porque obviamente as editoras não vivem de meia dúzia de títulos por ano, têm também de publicar para um outro tipo de público. Mas este ano, por exemplo, foi um ano em que lancei quatro novos autores, todos muito diferentes mas todos com grande qualidade.

– Pode falar sobre cada um deles?

M.R.P. – A primeira é a Aida Gomes, uma angolana, com um livro chamado “Os Pretos de Pousaflores”, que é um romance polifónico muito bem feito. Para uma estreante, segurar as vozes de várias personagens é uma coisa muito difícil e ela consegue fazer isso bem. Depois tenho um livro do Pedro Guilherme Moreira, que se chama “A Manhã do Mundo” e reencena o desastre do 11 de Setembro, que é uma coisa que acho que não estava feita em Portugal, e é uma literatura mais cinematográfica e mais anglo-saxónica – de um autor claramente influenciado pela literatura norte-americana e inglesa. Depois tenho um autor muito lírico, com uma escrita muito bonita, que fica entre o filosófico e o lírico. Não sei muito descrevê-lo de outra forma. É um livro que se chama “No Meu Peito Não Cabem Pássaros”, do Nuno Camarneiro, que é curiosamente um engenheiro, um homem das ciências que vem para a literatura com grande pujança e que faz um livro maravilhoso sobre a própria literatura, cujas personagens são Borges, Pessoa e uma personagem de Kafka. Consegue fazer um livro sobre a literatura que é profundamente lírico. Ainda publiquei um livro de um autor que não vou dizer que é estreante, mas é quase, que é o David Machado, o “Deixem Falar as Pedras”. O David Machado já tinha sido premiado pela sua obra infanto-juvenil e escreveu este romance que acho fantástico, sobretudo porque é um romance sobre a ditadura, um período que ele não viveu. É muito bom ver como esta gente mais nova é curiosa sobre as coisas que existiram antes e tem uma relação privilegiada com o passado através dos avós. O David Machado dedica esse livro aos quatro avós, que ainda são vivos, e o livro tem que ver com uma memória que foi passando deles para ele.

– Esse bom momento da literatura de que fala estará relacionado com o mau momento do país? Às vezes fazem-se esse tipo de associações.

M.R.P. – Acho que não. Já antes disso tínhamos alguns nomes que eram seguríssimos, como o José Luís Peixoto, o valter hugo mãe e o Gonçalo M. Tavares. Diria que não tem nada que ver com isso. Talvez esta nova geração se tenha soltado, não tenha constrangimentos de ordem política como tinham escritores que logo a seguir ao 25 de Abril ainda faziam uma escrita muito comprometida. Estes autores são mais livres e têm outras influências. São alguns deles, como o João Tordo, muito influenciados pelas séries policiais, é tudo gente que vê televisão mas que vê sobretudo as boas séries – “Os Sopranos”, “Sete Palmos de Terra” – e recebem uma influência do contar bem a história, com altos e baixos no sentido da personagem e da própria intriga, que é uma coisa muito típica da boa série, em que não acaba tudo bem. Por outro lado, também já são muito mais influenciados por uma cultura global, enquanto os nossos escritores da geração anterior ainda eram um bocadinho intelectualizados, o que às vezes não era mau, mas às vezes era. Não estavam livres para escrever sobre coisas mais do dia-a-dia, mais comezinhas, por acharem que não merecia a pena. Estes novos escritores vieram falar de coisas às vezes muito simples mas com grande poder literário. Basta pensarmos que o valter hugo mãe escreve um livro [“O Apocalipse dos Trabalhadores”] sobre duas mulheres-a-dias (risos). Não pode haver coisa mais comezinha e é, ao mesmo tempo, um livro maravilhosamente literário. Se calhar está aí, nesse segredo de tornar aquilo que é banal numa coisa perfeitamente invulgar, o espaço invulgar em que esta geração está a trabalhar.

– Já percebi que continua a encontrar vozes literárias que valem a pena. O que é que precisa de identificar num texto para perceber que há ali potencial?

M.R.P – É difícil responder a essa pergunta, porque é uma coisa que também é do domínio do sensorial. Às vezes não sei especificar exactamente o que é, mas procura-se sobretudo a diferença. Nós todos falamos português, todos escrevemos, mas nem todos podemos ser escritores. Há uma forma de combinar a língua – que é a mesma matéria para toda a gente – que é nova. Estamos a ler e dizemos ‘nunca li isto em parte alguma’. E isto é o estilo. Posso ler milhares de autores daqueles mais comerciais e cor-de-rosa e não há um estilo, não identifico aquilo como sendo daquele autor, aquele autor pode escrever igual àquilo que escrevo quando deixo um recado a uma pessoa. É uma coisa se calhar competente, gramaticalmente correcta, mas não tem nenhuma marca estilística, ao passo que um verdadeiro escritor tem sempre marcas. Consigo dizer que um livro é do Saramago sem estar lá o nome dele, consigo dizer que um livro é do valter hugo mãe ou do João Tordo sem lá estar o nome deles. Têm marcas muito claras e ao fim de três livros é facílimo para qualquer pessoa que conhece a obra perceber que aqueles livros são deles. Terá que ver com uma forma de combinar o material de maneira nunca vista, ou pelo menos diferente daquilo que estamos habituados a ver.

– Continua a ter de ler muito para encontrar coisas que valham a pena?

M.R.P. – É preciso ler muito e trabalhar muito. Às vezes até se pode encontrar um livro que tem imenso potencial mas que não está bem e precisa de reformulações. Então para encontrar uma coisa fora de série… é preciso ler imenso (risos), é preciso publicar muitos livros que não são isso e, de repente, há aquele que salta fora e a gente sabe que aquele autor vai ser alguém. Mas esses são mesmo muito poucos.

– Esse caminho que faz com os autores continua a dar-lhe gozo, esse trabalhar da obra?

M.R.P. – Isso é mesmo o que gosto de fazer. Mas não sou eu que trabalho, são eles. Aquilo que faço é orientar, não escrevo uma linha num livro de outra pessoa, porque se fosse assim era sinal que o autor não se aguentaria sozinho e não valia a pena. Aquilo que gosto é de apanhar um autor que começa, porque acho que às vezes há autores que prometem muito e ficam pelo caminho porque não foram bem orientados. Às vezes tem de se dizer a um autor ‘olhe, não publique este livro’. Já me aconteceu isso com um autor, em que achei que aquele livro podia queimar a carreira dele naquela altura específica. Ele percebeu e não publicou. Às vezes custa-me que autores se percam porque se calhar não conseguiram ter alguém que os ajudasse, sobretudo quando são jovens.

– É curioso que diga isso, porque queria perguntar-lhe que relação tem com os livros de autores cuja obra começou a publicar e que hoje não estão consigo.

M.R.P. – Tenho a mesma que teria, como se eles fossem meus, a não ser obviamente quando leio os livros e há coisas que gostaria de mudar e não mudei. Há muitos exemplos. Já com os autores tenho a mesma relação, porque em nenhum caso deixaram de editar comigo por minha causa. Deixaram ou porque não lhes pagavam, ou porque mudei de editora e o contrato estabelecia que eles ficassem. Não tenho nenhum autor que se tenha ido embora por não gostar de mim. Portanto tenho com eles a mesma relação. Choro com os seus fracassos e fico contente com os seus sucessos. Agora, obviamente que com a obra… Mas isso sempre tive com livros de outros autores que não era eu que publicava. Mesmo numa tradução estou sempre a dizer ‘não fazia isto assim’, são vícios do trabalho. Nós que trabalhamos muito nos livros temos uma deformação profissional, estamos sempre a dizer isso. Não me consigo libertar disso, nunca mais tive uma leitura virgem de um texto a partir do momento em que comecei a trabalhar como editora.

– Voltando ainda ao trabalho do original, de certeza que haverá diferentes posturas, mas os autores mostram abertura para as suas sugestões e para essa orientação?

M.R.P. – Normalmente quanto melhores são os autores, mais abertura mostram. Quanto mais mesquinhos e medianos são, mas convencidos estão de que têm absoluta razão e não querem mudar uma linha. É como tudo: as pessoas inteligentes percebem, as burras não. Agora, há livros que recuso sem as alterações. Se não me deixarem propor e melhorar, não quero o livro. E já vi muitos livros que recusei publicados por outras editoras, e até alguns dedicados a mim, o que é estranho. Ou seja, se calhar a pessoa acabou por perceber que eu tinha razão.

– Calculo que, além do exemplares que são enviados para o Grupo Leya, receba muitos originais dirigidos a si.

M.R.P. – Sobretudo dirigidos a mim.

– Isso confere-lhe também uma certa responsabilidade. Consegue responder a esse fluxo de textos?

M.R.P. – Em menos de seis meses é difícil conseguir. As pessoas pensam que levamos muito tempo, mas nós temos outros trabalhos para fazer além disto. Há normalmente uma pessoa que dá uma vista de olhos primeiro, que é a minha assistente. Se for uma coisa que ela acha imediatamente má, leio 20 páginas e se concordar com ela mando logo embora. O problema está naqueles livros que não são carne nem peixe, que não são especialmente bons mas que não têm nada de obviamente errado. Só que são livros que depois a gente chega ao fim e não fica cá nada, mas tem uma grande dificuldade em explicar ao autor porque é que não os publica. Há uma história que não está mal construída, não está mal escrita, não tem erros. Agora, não é nada, provavelmente não há nada de novo ali. Esses são os piores.

– Já falou noutras ocasiões das diferenças entre trabalhar numa pequena editora e num grande grupo. Passado este primeiro ano, está satisfeita com a decisão que tomou?

M.R.P. – Para já, estou. Ou seja, tendo em conta que os autores hoje têm muito mais exigências – querem ver os livros mais bem colocados, querem vender mais, querem que se faça marketing, querem visibilidade –, estou no sítio certo para poder fazer novos autores portugueses. Agora, continuo a dizer que é por enquanto, porque se um dia um grupo perceber que fazer novos autores portugueses não é uma coisa lucrativa e não quiser fazer, deixo de estar contente. Para já, estou, porque ninguém me disse para deixar de fazer o que faço. Mas nunca se sabe o que é o dia de amanhã, sobretudo num momento de crise em que se percebe muito bem que as pessoas, podendo apostar só num livro, apostam numa coisa segura e não numa nova. Um autor novo leva muitos anos a fazer, não se faz de hoje para amanhã. Precisa de ganhar prémios, precisa de andar nas bocas do mundo, precisa de escrever outro livro. O começo é sempre difícil. Lembro-me que quando comecei a fazer o valter hugo mãe, o primeiro livro dele vendeu 800 exemplares, e o segundo ia pelo mesmo caminho, se ele não tivesse ganho o Prémio Saramago. Muitas vezes isso é determinante na carreira de um autor.

– Também escreve. Mas já disse que essa não é a sua principal função e que viveria bem sem publicar os seus livros. Ainda assim, continua a encontrar tempo para escrever?

M.R.P. – Vou-lhe explicar: sempre me irritei imenso com os escritores que dizem ‘ai, agora estou a escrever um livro, não posso ler’, porque acho que isso é falso. Um verdadeiro escritor, com um estilo próprio, não precisa de deixar de ler por se sentir influenciado. Não faz sentido e só um escritor muito fraquinho é que seria influenciado. Agora, o que acho é que, quando um escritor a sério está a escrever, não consegue pensar em mais nada a não ser naquilo, e se calhar não lê por causa disso. Não lê porque não consegue prestar atenção ao que está a ler. Lembro-me que o José Cardoso Pires dizia que só lia jornais e revistas quando estava a escrever um romance, e isso eu percebo. No meu caso, posso continuar a ler e a escrever, mas se estiver a escrever muito a sério não consigo pensar em mais nada. Portanto, é muito difícil manter as duas actividades. Antes, quando estava a escrever um poema, não pensava em mais nada e ia para o emprego a pensar no poema e não largava enquanto o poema não estivesse acabado. Hoje sei que não posso vir para o emprego a pensar no poema, porque tenho autores portugueses para ler. Então tomo umas notas e escrevo uns versos, e digo ‘depois volto a isto’. Mas a maioria das vezes não volto, porque não tenho como. Não é que na minha cabeça não se continuem a escrever poemas, mas eles não se estão a escrever no papel. Por um lado tenho muita pena – e tenho pena também por causa dos leitores que passam a vida a pedir-me – mas, por outro lado, acho na verdade que sou melhor editora que escritora. Não devo desistir de uma coisa a favor de outra, mas não devo sobretudo desistir de editar.

– Além de tudo isto, ainda arranja tempo para ter um blogue, que as pessoas vão visitando para a acompanhar.

M.R.P. – Essa também é uma forma de não me desligar da escrita. Publico um texto no blogue todos os dias úteis – só não publiquei nas férias – e isso dá-me alguma disciplina e faz-me permanecer ligada à escrita, de alguma maneira. Faço-o por isso e também, no fundo, para não perder a mão, porque uma pessoa que escreve, mesmo que escreva só aqueles pequeninos bocadinhos por dia, está sempre ligada de alguma maneira ao universo da escrita. E faço isso porque também me interessa manter um contacto com os leitores.

– Agora que diz isso, é importante para os autores que estão a começar manter esse registo de blogue, de proximidade ao leitor?

M.R.P. – Quase todos têm blogues anteriores à publicação dos livros, porque são pessoas que gostam de escrever e que dantes tinham diários e agora escrevem nos blogues. Por outro lado, também há hoje extraordinários mecanismos tecnológicos de uma pessoa se dar a conhecer – os Facebooks e os Twitters, essas coisas todas. Quase todos têm páginas dessas com o livro que publicaram, onde vão pondo as críticas, excertos, etc. Portanto, sim, é uma boa maneira de as pessoas terem fãs, de terem leitores e se tornarem mais conhecidas.

– Neste momento está a preparar algum livro de que gostasse de falar?

M.R.P. – Já lhe falei do Nuno Camarneiro, que é uma coisa que espero que não passe despercebida, porque é mesmo muito bonita. A sensação que tive foi parecida com aquela que tive quando descobri o José Luís Peixoto. Embora o livro do José Luís Peixoto fosse uma coisa mais densa, era muito poético e lírico. Este tem coisas tão bonitas que gostava que não passasse despercebido. Em relação ao futuro, prefiro não falar antes de os livros saírem. Mas posso dizer-lhe que ainda este ano vou publicar um livro novo do Miguel Real, que é uma pessoa que prezo imenso e que é um escritor fantástico. É um livro passado no Brasil, chamado “A Guerra dos Mascates”, que vai sair no princípio de Setembro. É o meu próximo livro.

– A fechar, pego numa frase que disse noutra entrevista, quando afirmou que temos a responsabilidade de publicar livros que fiquem para a história da literatura. Quando olha para esta geração, vê potenciais escritores que possam almejar a esse lugar?

M.R.P. – Vejo. E quero lembrar uma coisa: uma vez disseram à Agustina Bessa-Luís, num encontro da Póvoa de Varzim, as Correntes d’Escritas, que os políticos agora eram uns incultos, não tinham nada que ver com os grandes Mitterrands, com os Felipe González, políticos de facto empenhados, cultos, interessantes. E a Agustina, que é uma pessoa muito inteligente, disse: ‘O que acho é que as pessoas ainda não perceberam que nós, pelo facto de as nossas democracias, enfim, já serem uma coisa consolidada, estamos no advento do homem comum e portanto não temos de ficar chateados com isso – os homens comuns estão a ocupar as posições em tudo’, disse ela. Houve uma pessoa na assistência que devolveu uma coisa muito engraçada: ‘Mas, se estamos na era do homem comum, quem é que vai ler os seus livros?’. E ela respondeu, fantasticamente, ‘haverá sempre aberrações’. É um bocado isso: as excepções é que são os bons escritores. Há milhares de pessoas a escrever livros hoje em dia, mas os bons vão sempre destacar-se. Haverá em todas as gerações – mesmo no futuro, por mais que o estado da educação seja pior – aberrações. Não estou preocupada com o desaparecimento do escritor ou a morte da literatura. Vai haver sempre bons escritores.

– Espera que alguns desses bons escritores dos nossos tempos estejam entre os que descobriu e que venha a descobrir?

M.R.P. – Não é isso o mais importante. O importante é que existam e que eu tenha o que ler. Agora, evidentemente que ficava felicíssima se algum daqueles que descobri se verificasse que daqui a 50 anos é um feroz candidato ao Nobel, ou uma coisa dessas. Mas o mais importante é que eles aconteçam, que existam.

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