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Crónica de um regresso

Começa tudo com um regresso a casa. A chegada ao Aeroporto do Porto, as malas revistadas, o emigrante de férias de quem se desconfia de imediato. Quem está fora talvez sinta, logo no primeiro parágrafo, empatia pela personagem e repulsa pelo enfado da recepção tipicamente portuguesa, viagem longa nas costas, o desejo de terra firme e de sossego.

O narrador – chamar-se-á José? – aterra no país natal à procura de um passado e esbarra com o presente. Não sabemos por ora como se chama, se as casas, ruas e aldeias que vai percorrendo foram mesmo suas ou se as assumiu para efeitos de romance. O narrador – como se chama afinal? – vive em Amesterdão. O autor também.

O nosso narrador é um português que há muito deixou Portugal, sem nunca ter abandonado a nostalgia do país, a marca de água de uma nacionalidade que nem outras aragens conseguem diluir. “A casa já não existe. Abandonada durante anos acabou por derruir, e é melhor assim. Revê-la seria reviver o doloroso momento da minha adolescência, quando entrei sozinho nela, com ordem de verificar se não tinha ficado nada esquecido.” (pág. 19).

Está visto que este emigrante português – jornalista, contador de histórias, escritor? – tropeça com frequência no passado, depara-se com a inevitabilidade das comparações: o que era há muitos anos deixou de ser e o mundo nem sempre muda para melhor. “Caminho pela cidade com um sentimento de desconforto, pois sem ser nela um estranho, também não lhe pertenço.” (pág. 33).

A verdade é que a personagem principal desta história – chamar-se-á José? – não regressa num querido mês de Agosto, fá-lo com outro propósito, atrás de um certo passado que, vem a descobrir, sofreu uma mutação para a qual talvez não estivesse preparado. Da meninice numa fronteira de Portugal, bem a norte, o nosso narrador guarda as memórias de um inocente contrabando, o país de antes da revolução, o país que, sem guerra, também a viveu.

O contrabando sem maldade deu lugar a um outro, mais perigoso – “La Coca” é um livro sobre um certo submundo português dos anos 1990, um mundo sem requinte, de vivendas apalaçadas e carros de novos-ricos. “La Coca” é um livro sobre a ruralidade – todos os livros de J. Rentes de Carvalho o são, de algum modo – e a prova de que esta ruralidade também encaixa na literatura de qualidade: há mais do que a capital e a urbanidade no universo das letras em português.

Descoberta relativamente recente do mundo editorial lisboeta, José Rentes de Carvalho, escritor com obra publicada na Holanda, país onde vive há coisa de meio século, tem dado que falar (e que ler) na terra de origem. Aos 81 anos, faz curiosamente parte das novidades literárias portuguesas, ao lado de gente com metade da idade e o dobro das figuras de estilo.

Rentes de Carvalho é um homem aparentemente desprovido de preocupações com a forma – a obra vale pelo conteúdo, pela simplicidade das descrições, pelo modo eficaz como, em meia dúzia de páginas, conta três ou quatro histórias sem perder a linha de prumo do romance. É um autor, se o quisermos, mais anglo-saxónico do que português, na medida em que evita o subterfúgio dos adornos que tanto povoam as letras portuguesas. Rentes de Carvalho é um contador de histórias, espécie em vias de extinção.

Dizem os estudiosos do escritor (pois que os há) que “La Coca” não é a obra-prima. A Quetzal lançou-a este ano, indo recuperá-la a 1994. Talvez não seja a obra-prima, mas é parte importante do universo J. Rentes de Carvalho, o português que chegou da Holanda para nos dizer que a contemporaneidade literária vale a pena. E sim, o narrador chama-se José.

(La Coca, J. Rentes de Carvalho, 2011)

Isabel Castro

 

 

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