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Não tenho estudos para isso

“Pensei vagamente em estudar arquitectura, como todo o mundo. Acabaria como todos que eu conheço que estudaram arquitectura, fazendo outra coisa. Poupei-me daquela outra coisa, mesmo que não tenha me formado em nada e acabado fazendo esta estranha outra coisa, que é dar palpites sobre todas as coisas.” Encontro-me muitas vezes nesta frase de Luís Fernando Veríssimo quando arreio os pés diante deste ou daquele edifício. Certa vez fiz um périplo por Macau na companhia do arquitecto Carlos Marreiros – que é arquitecto mas, como dizia Veríssimo, acabou a fazer muitas outras coisas – e confirmei que percebo tanto do mister como, digamos, do entrosamento do sector defensivo do Olhanense.

Ao Luís, filho do Erico com o mesmo apelido, aconteceu-lhe o mesmo que a mim – com a diferença de que nunca estudei arquitectura. Mas também eu queria estudar muita coisa e acabei a estudar essa coisa nenhuma que é todas as coisas ao mesmo tempo e que agora exerço – a profissão de, lá está, escrever (e às vezes dar palpites) sobre todas as coisas.

Estudar é um acto nobre e tem na Biblioteca Robert Ho Tung a melhor casa de Macau. Começa tudo na arquitectura, que agora gostava de poder descrever com a facilidade com que me vêm à memória os nomes dos reforços do Sporting ou, para não ser enxovalhado de ignorante que só fala de bola e mostrar a minha erudição, as pernas mais giras do cinema. Não posso. Melhor: até posso fingir que posso. Efectuo (a palavra efectuar dá sempre solenidade às acções) umas pesquisas no Google, falo de colunas jónicas, abóbadas e fachadas tipicamente não sei quê, e toma lá que já fiz bonito. Não posso.

Gosto desta biblioteca porque sim. Porque é de um amarelo que me faz lembrar a minha aldeia onde muitas casas se pintam de branco com listas amarelas sem que hoje as pessoas saibam sequer que as cores correspondiam às profissões das gentes – e esta não fui ver à Internet.

Gosto do jardim e de me sentar na esplanada onde não se pode fumar mas respirar é bom. Para a esquerda, miro os que estudam lá em cima, nas salas vidradas com vista para as copas das árvores (e eu não estudei botânica). Para a direita, avisto estendais de roupa e as jaulinhas que são as varandas de Macau. Penso sempre que a palavra domesticar nunca fez tanto sentido quando olho para elas.

À casa construída ainda no século XIX (e isto é tudinho da Internet) juntou-se um novo edifício bem integrado, quatro pisos de livros que não sei ler, à excepção de uns quantos, caracteres e mais caracteres acumulados desde 1 de Agosto de 1958. Hu Tong, o comerciante de Hong Kong que ficou com a casa que um dia foi da senhora Carolina Antónia da Cunha, doou o edifício ao Governo, deixou dinheiro para livros e quis que a ‘villa’ fosse reconvertida em biblioteca.

Como está à vista, a Internet pode ser muito chata e é bem mais interessante dizer que à saída há um segurança que olha para nós como se tivéssemos roubado um livro. E na verdade a gente rouba. Porque ler – como estudar – é guardar ideias que alguém há-de roubar da gente a seguir. Mas nisto, como no arrombo de portas e derivados, não é fácil ser bom patife. Já cantava o Rui Veloso naquela da gargantilha.

Hélder Beja

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