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“Portugal seria um extraordinário personagem num romance”

Mas J. Rentes de Carvalho não acredita que seja possível biografar o país sobre o qual escreve há mais de 60 anos. Fenómeno editorial em Portugal, há quem diga que é melhor do que os melhores. Em entrevista, fala da relação com a palavra, com a palavra na língua-mãe, com o passado e com o valor da crítica – a que faz e a que lhe é dirigida.

Isabel Castro

O mundo editorial lisboeta tem destas coisas: um escritor português, com sucesso atestado pela venda de muitos livros na Holanda, passa anos a fio sem que ninguém dê por ele. Mas há um dia em que tudo muda, leitores e críticos descobrem a obra e os elogios sucedem-se. Chamaram-lhe recentemente o “biógrafo de Portugal”. Comparam-no a Saramago e Lobo Antunes, e não recebe menos pontos no exercício alheio do paralelismo.

Sabe que os cumprimentos são efémeros, que passam mais depressa que o tempo que uma palavra demora a apurar, em fogo lento. Aos 81 anos, este português que também é holandês (e vice-versa) mantém um blogue que serve para partilhar escritos, para que quem lhe bate à porta se sinta bem acolhido. Nos livros que publica – e vem aí mais um – a lógica é a mesma: J. Rentes de Carvalho é um autor de livros com gente lá dentro, para a gente que o quiser ler.

– Vive na Holanda há mais de 50 anos. Em Amesterdão, é há muito um escritor bem-sucedido. Como é que olha para esta projecção relativamente recente em Portugal? Algumas das obras que a Quetzal tem estado agora a editar tinham sido já lançadas no país nos anos 1990.

José Rentes de Carvalho – Com alguma surpresa, mas de certa forma também divertido, porque isto tem algo a ver com os nossos usos e costumes. O meu primeiro romance, “Montedor” (1968), foi muito festejado, e durante anos escrevi no Diário Popular, depois de 74 no Expresso. Mas à medida que fui tendo êxito na Holanda – na reputação e nas vendas – os colegas e a imprensa portuguesa passaram a “esquecer-me”. A edição de cinco títulos meus feita pelo corajoso Leonardo Freitas não mereceu sequer uma linha.

– O modo como a sua obra tem vindo a ser recebida em Portugal alterou a sua relação com o país, que deixou há já tanto tempo?

J.R.C. – A minha relação com a terra onde nasci é demasiado profunda para que se altere com tão pouca coisa. E o “êxito” é sempre temporário. Irá passando. Eu, felizmente, continuarei acorrentado ao país que me enternece e me dói, sofrendo com o destino de ter duas pátrias tão desiguais.

– Na sua obra, Portugal está sempre muito presente. Até em “Com os Holandeses”, ensaio em que acaba por estabelecer inevitáveis paralelismos com o que é ser-se português. Esta presença do país onde nasceu – e de um certo universo em particular – foi intencional? Ou a realidade portuguesa acaba por ser mais simples de trabalhar? Há quem lhe chame o “inesperado biógrafo de Portugal”.

J.R.C. – Bom seria se assim fosse, mas não é. Pelo menos para mim a realidade portuguesa, que involuntariamente comparo às outras que conheço, é de uma complexidade que estonteia. Descubro nela contradições “orientais”, tortuosidades de comportamento que se esperariam no mundo árabe, uma gentileza e doçura de carácter que vai mal com a inesperada agressividade ou indiferença. Creio impossível biografá-lo, mas tenho a certeza de que Portugal seria um extraordinário personagem num romance.

– E a relação com a língua portuguesa, enquanto objecto de trabalho, como foi mantida atendendo à distância e ao ambiente em que se movimenta?

J.R.C. – O francês e o inglês vêm-me da infância, e as mais línguas que falo ou leio sempre me pareceram meros instrumentos de comunicação ou estudo, enquanto que a relação com o português é de uma intensidade que as outras não atingem. Há mesmo entre nós qualquer coisa de físico, que se traduz, por exemplo, na precisão que sinto de, para “agradar” à língua-mãe, alinhar as palavras num determinado ritmo, dar-lhes certa musicalidade, fazer sempre o meu melhor.

– Os seus livros são muito vendidos na Holanda. Como é que analisa o encanto que a sua obra desperta? É a prova de que, independentemente das diferenças de cenários e de contextos culturais entre romance e leitor, um livro vale por aquilo que é?

J.R.C. – Creio que sim. A temática da generalidade dos meus livros encontra-se a anos-luz da que é corrente na Holanda, cuja sociedade é essencialmente urbana e das mais desenvolvidas do mundo. Histórias de Trás-os-Montes e gente rude são nela absurdas como histórias da carochinha. Por conseguinte tem de haver no que escrevo alguma valia, caso contrário a simpatia, o apreço e as leis do mercado não funcionavam. Devo acrescentar que, como escrevo exclusivamente em português, cabe aqui um elogio aos meus tradutores, sempre impecáveis na qualidade e no respeito aos textos.

– “Com os Holandeses” é um livro que, disse em entrevista, o ajudou a “virar a página”, escrito numa época de reflexão sobre o país onde acabou por decidir viver. É um ensaio que, em certas passagens, não é meigo nem para com holandeses, nem para com portugueses.  Continua a subscrevê-lo na íntegra?

J.R.C. – Ser meigo no apreço de gente ou de nações é prova de orgulho ou mostra de indiferença. Portugal e a Holanda são-me queridos por razões diferentes, mas esse bem-querer não implica um fechar de olhos ou uma menor disposição para a crítica sincera. Grosso modo as minhas críticas têm aumentado, de modo que o meu último livro “Gods Toorn Over Nederland” (A Ira de Deus Sobre a Holanda) foi muito mal recebido pela parte bem-pensante e politicamente correcta da sociedade. Mas é uma questão de tempo até que acertem o passo. No que respeita ao nosso país falta-me o ânimo para criticar. Em 1984, em tom de brincadeira, escrevi – pode ler-se aqui [http://tempocontado.blogspot.com/2007/08/obrigao-da-europa-para-com-os.html] – que melhor seria vendê-lo a quem pudesse pagar. Mal sabia eu que estava a ser involuntariamente profético.

– Nasceu em Vila Nova de Gaia, filho de transmontanos. “Ernestina”, um dos seus romances com maior sucesso na Holanda e em Portugal, recupera um passado transmontano e é, segundo li, um “testamento biográfico” dos seus primeiros 15 anos de vida. É um livro sobre origens – por sinal, rurais. Em “La Coca”, faz uma viagem ao Minho e à Galiza, também eles plenos de ruralidade. Sente que contrariou uma certa tendência literária dos nossos tempos que consiste no retrato da urbe, ou da urbe como ponto de partida?

J.R.C. – Certamente contrario. Camilo foi o último a interessar-se pela ruralidade e a levar a sério a vida camponesa. Claro que houve o Neo-Realismo, mas o povo descrito nessas obras – quase me arrisco a dizer “o povinho” – é uma criação de gente de cidade que, tal como a de hoje, não conhece nem quer ver a província, mas imagina-a a partir de clichés e fotografias turísticas. As pessoas estão mais voltadas para os mundos que a Internet abre, do que para aqueles que lhes ficam à porta. Preferem a ilusão e o sonho, recusam abrir os olhos para a realidade que os cerca, e a realidade portuguesa não é Lisboa e a estreita faixa do litoral, mas o que atrás dela se encontra.

– Ainda a propósito de “Ernestina”, afirmou que a sua avó (personagem do livro) foi uma grande contadora de histórias, “uma grande escritora sem o saber”. Há quem diga que a sua obra se destaca precisamente por esta capacidade de saber contar uma história. Sente que será esta a sua principal virtude?

J.R.C. Não lhe chamaria virtude. A minha avó Elisa tinha de facto um dom incrível da narrativa. Nas noites de Verão, na varanda lá de casa, pasmavam-se novos e velhos com o que ela imaginava, dizendo às vezes que tinham a impressão de “ver” tudo. Talvez por isso, e pelos muitos livros que li em criança, para mim romance sem história, sem enredo, sem gente de carne e osso, não conta, raro levo a sério. As introspecções e os perigos da alma, as paisagens do umbigo, as várias alegrias e frustrações do sexo, tudo isso poderá ser  interessante, mas necessita mais do que o narcisismo e a vaidade  do autor que crê que o que lhe interessa também interessa ao mundo. Gosto de contar histórias e a explicação disso não deve ser apenas genética. O fascínio pela leitura que tive na infância de certeza criou a vontade de querer imitar.

– Outra característica que lhe é apontada tem que ver com a capacidade de síntese, de em poucas palavras traçar cenários, desenvolver narrativas – como se os seus romances fossem contos. Concorda?

J.R.C. Concordo, mas o que chama capacidade de síntese resulta de um sem número de horas passadas a riscar, a escolher, a mudar, a repor. Nada vem por inspiração, nem por si só, é trabalhinho, é o cansativo mexer e remexer até que a frase parece funcionar. Dali a nada deixa de parecer e a dança recomeça. O conto é a minha forma preferida. Obriga à concisão. Num romance uma cena pode alongar-se por páginas, enquanto que no conto se resume por vezes a uma frase. Essa concisão oferece também ao leitor uma maior possibilidade de imaginar, de preencher o que o autor só sugeriu. Viva o conto. Morra o romance sem enredo e setecentas páginas.

– Como é que nascem os seus livros? É um escritor organizado, que planeia ao detalhe, ou a obra vai fluindo?

J.R.C. Organizado? Eu? Assim fosse! Planos também desconheço como fazer. Os meus livros não nascem de inspiração, mas ao acaso de conversas comigo mesmo, frases soltas, anotações de momentos. Depois aquilo fica misteriosamente a refogar, vai, vem, por vezes perde-se, se tenho sorte escrevo umas páginas e então, com muito suor, lá chego a fazer um livro. Não é método que aconselhe.

– Consegue sair das suas obras, as que não são autobiográficas, ou não é possível isto de um escritor querer ser independente dos livros que escreve?

J.R.C. – Não saio de nenhuma. Estou em todas. Ora em partes de personagem, ora em frases, mas por vezes – digo isto sem pose nem exagero – tão bem disfarçado que ao reler nem sempre descubro onde estou. Creio, aliás, que o escritor a sério não consegue ser independente do que faz: se não está naquilo o leitor logo sente que ali há construção e artifício.

– Há quem encontre influências de Eça de Queiroz na sua obra. Numa perspectiva académica, estudou a obra de Raul Brandão – e o povo que se encontra nela. Um e outro foram influências no seu crescimento enquanto escritor?

J.R.C. – Li “A Relíquia” aos 14 anos e foi um assombro, o senhor Eça de Queiroz continua número 1 na minha lista. Houve depois o período em que Victor Hugo, Balzac, Zola, Flaubert me maravilharam. Céline teve o efeito de um terramoto, virou tudo do avesso. Durante um tempo usei-o como padrão para o que lia e os outros ficavam sempre a perder. Hoje em dia não tenho padrão e poucas descobertas faço. No que respeita Raul Brandão não foi entusiasmo, só trabalho para satisfazer o currículo académico. A ideia que tinha do povo – os coitadinhos, os pobrezinhos – só pode agradar a quem, como ele, pequeno-burguês de más ideias feitas, e racista, se julgava superior e melhor, por ter alta estatura e cabelo loiro. Leia as suas “Memórias” quem não acreditar.

– A literatura portuguesa – ou de língua portuguesa – que hoje se publica agrada-lhe? Ou está de acordo com os que dizem que se procura mais a forma do que o conteúdo?

J.R.C. Bem gostaria que me agradasse ou compreendesse do que em geral se trata. Mas com a idade e a carga que me vem de trás, torna-se-me difícil acompanhar o ritmo. As vivências são diferentes. Os ambientes também. Digamos que as circunstâncias me põem de certo modo extra muros.

– A escrita continua a ser uma necessidade diária? É também por essa razão que mantém activo o seu blogue, o “Tempo Contado”?

J.R.C. A escrita nunca me foi uma necessidade diária. Nem sequer semanal. Cada livro leva anos a escrever. Por preguiça, mas também insegurança, medo de falhar, descontentamento com o já feito. O blogue é para me provar que, querendo de verdade, sou capaz de disciplina. Ao mesmo tempo é uma questão de cortesia. O Sitemeter diz-me que X pessoas bateram à porta e acho má educação não atender, mas devo dizer que eu próprio me surpreendo de há quatro anos manter a continuidade.

– A Quetzal prepara-se para lançar, no início do próximo mês, o seu mais recente livro. O que nos pode desde já dizer sobre “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”?

J.R.C. É a publicação conjunta de dois livros de contos: “O Joalheiro” e “O Milhão” (este último tinha um subtítulo que muito me agradava e agora se perde: “Recordações e Outras Fantasias”). Para justificar o novo título escrevi um conto que, pelo tamanho, uma página, é uma homenagem que queria fazer a Dalton Trevisan, o mestre brasileiro do conto.

– A terminar: o José Rentes de Carvalho é hoje um português transmontano na Holanda ou um holandês com origens em Trás-os-Montes de Portugal?

J.R.C. Creio que sou ambos, mas de vez em quando obrigam-me a reconsiderar. Tempos atrás uma câmara transmontana queria fazer-me uma espécie de homenagem, mas a certa altura o presidente argumentou com algum azedume: “Ele não é de cá! É de Gaia!” É em momentos desses, e não só, que me pergunto quem sou e onde o serei. Por menos se sente a gente judeu errante.

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