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Quem ama, lê

Isabel Castro

De quem terá sido a ideia das drageias de arsénico? E qual dos dois decidiu que o Hotel Central seria o espaço ideal para esta história acontecer? Quem escreveu a primeira linha, aquela que marca o livro para sempre? Trocaram de mãos no parágrafo seguinte? Ela ditou, ele escreveu? Ela escreveu, ele ditou?

Não se sabe – e, na realidade, não importa. O que conta mesmo é que é um livro dos dois: escrito a quatro mãos (para os que gostam de clichés), escrito por Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares (para os que gostam de bons escritores). Se a obra individual de Ocampo encanta, a de Bioy Casares alucina, pelo que um livro dos dois é a promessa de boa literatura: palavras bem escolhidas, enredo apurado. O prometido cumpre-se – quando menos se está à espera, cai-se no livro e dele não se sai.

Publicado em 1946, só em 2009 “Quem ama, odeia” conheceu uma tradução em língua portuguesa, em boa hora oferecida ao mercado pela Oficina do Livro. A obra conjunta de Ocampo e Casares não tem, no entanto, data – o tempo não passou por ela.

Assim sendo, se se der o caso de levar este pequeno volume para as férias num qualquer paradisíaco resort, não se deixe influenciar. É que não será difícil começar a olhar para o casal do quarto ao lado e imaginá-lo cúmplice de um tenebroso crime. Depois, será bem possível que atribua ao cavalheiro de barbas brancas sentado ao fundo da piscina dotes de escrita que não tem. Fica a recomendação: tenha cuidado, não se arme em detective.

“Quem ama, odeia” é um pequeno policial escrito à moda antiga: cada capítulo termina com vontade de entrarmos no próximo; a cada capítulo descobrimos um novo criminoso, uma pista decisiva. Humberto Huberman, protagonista e narrador, refugia-se num isolado hotel à procura de descanso, solidão e paz de espírito. “O que eu não tinha previsto, quando me aproximei das sombrinhas, era que os seus ocupantes estivessem a falar. Falavam sem consideração nenhuma pela beleza da tarde, nem pelo fatigado vizinho que procurava em vão abstrair-se na leitura.” (pág. 22).

O homicídio de um hóspede e o desaparecimento de outro obrigam Huberman ao envolvimento em relações que, está visto, quis evitar. “Tive um melancólico pressentimento. Recordei as minhas prometidas férias, a tarefa literária. Murmurei: ‘Adeus, Petrónio’, e penetrei no aposento da tragédia.” (pág. 45).

E é aqui que o livro deixa de ser um pequeno policial, para adquirir a dimensão que Casares deu aos seus romances e Ocampo à sua lírica. É nas ligações de Huberman com os seus companheiros de estadia, num hotel isolado por uma tempestade de vento e de areia, que “Quem ama, odeia” se engrandece.

As muitas referências literárias – o crime no centro da narrativa tem que ver com escritos – conferem-lhe interesse acrescido. É o universo duplo de Ocampo e Casares a funcionar. “O Homem que ri” terá sido ideia dela? E ele, ter-se-á lembrado de “Fabíola” para o catálogo de preferências do doutor Montes?

Silvina Ocampo nasceu em Buenos Aires em 1903 e reconhecimento não lhe faltou no seu país: poetisa e contista, crítica literária, compilou (em trabalho conjunto com o marido Bioy Casares e com Jorge Luis Borges) uma antologia de literatura fantástica.

Bioy Casares dispensará apresentações: merecedor do Cervantes, escreveu o seu primeiro livro aos 11 anos. Mais tarde, “A Invenção de Morel”, hoje um clássico, foi para Borges “a obra perfeita”. “Diário da Guerra aos Porcos”, outro título de Bioy Casares disponível em português, é uma extraordinária reflexão da velhice e juventude, dos ciclos do tempo, do quão redonda é a história. E a prova de que a boa literatura, aquela que se faz em “Quem ama, odeia”, não tem data, pelo que pode ser para este Agosto.

 

Quem ama, odeia

Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares, 2009

 

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