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Romance de rua [passos em volta]

Pegou-lhe na mão e levou-o rua abaixo. O dia era dia branco em Macau, daqueles em que o céu parece um copo de leite a entornar sobre a cidade. Na alvura da paisagem faiscava o vermelho das portadas. Juntos, agora dedos nos dedos, já tinham sido felizes muitas vezes. Uma noite felizes, uma hora felizes, uns minutos só. Ele pagava e ela dava-lhe a felicidade nas doses correspondentes. Só que ela também desatava a ser feliz naquelas alturas e certa vez quis ser feliz mais vezes, muitas vezes (não é o que queremos todos, no final das contas?).

Mas a rua. Iam atados pelas unhas e das varandas desciam sorrisos e acenos. Ela estava como em casa, ele estava na casa dela. As casas de chá, as tascas, as vendas de fruta, peixe, carne e hortaliça davam-se paredes-meias com as vendas do prazer. Foi de lá que ela saiu para continuar a viver umas ruas ao lado. Ele qui-la e não se importou com o resto. Um corpo é um corpo e é um corpo.

Enquanto andavam ele lembrava-se de a descobrir ali entre outras mulheres, a insinuar-se uns metros acima da terra, vertical. Logo lhe pareceu que era ali que ela pertencia – a um lugar pouco dado a chãos, a um patamar de devoção que ele haveria de transformar em altar. Visitou-a, conheceu-a, provou a carne mas foi-se engajando pelo espírito. O dinheiro transformou-se numa formalidade, como quem dá uma nota ao tocador de rua mesmo sabendo que sem ela a música vai continuar.

Hoje também há música na Rua da Felicidade. Guitarras e vozes que tocam e cantam e nem sequer pedem retorno. E há carros e motos que apitam para a gente sair da frente, porque a gente se esquece sempre que esta linha recta não serve apenas as solas mas pneus – e nunca compreenderei porquê. Hoje desço a felicidade e o dia está mesmo branco. Vem-me assim esta história, vejo cabecitas nas varandas vazias e fardas marinheiras que espreitam pelas frestas, oiço vozes por trás das portas fechadas e risinhos nas minhas costas.

Fok Long San Kai, a Rua Nova da Felicidade Abundante para os que se entendem em cantonês, promove a viagem ao passado sem bilhete. Wenceslau de Moraes, ainda no século XIX, desconfiava dela. Achava-a “comprida, sofrivelmente estreita, pouco farta de sol. Um renque de casitas iguais de cada lado, baixas, de pobre aparência”. Apontou os “manjares desconhecidos, que os cozinheiros, sórdidos e quase nus, preparavam. “Mas é a população feminina, bem mais do que os janotas, do que os cegos, do que os vendilhões de flores, que formiga na Rua da Felicidade.” As “cabaias vistosas”, as “braceletes e anéis”, as “manilhas de prata nos tornozelos como as escravas”. “Umas passeiam dando-se as mãos, rindo e conversando, arrastando ruidosamente as grossas alparcas suspensas dos pés nus. Outras penteiam-se, acarminam as faces, mirando-se em espelhinhos reles. Fumam em cachimbos de estanho. Tomam chá. Jogam, acocoradas, as cartas.”

Wenceslau, mesmo quando azeda, ajuda a fugir do tempo. E lá o vemos aproximar-se, bigode farto num corpo de varola. E eles, os outros amantes, de mão dada, a caminharem pacíficos, como quem queima o incenso dos dias na rua de todos os romances.

Hélder Beja

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