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Devagarinho

Dizem que foi aqui que tudo começou: a cidade e a república. E foi aqui também que nasceu a primeira associação da terra, dizem. Três ruas que se juntaram para proteger a cidade, três ruas onde se fez o primeiro comércio. As lojas em baixo, as casas em cima. Algures, uma porta: uma porta de pedra que impedia a entrada dos indesejados e que desapareceu, assim como a rua que dela herdou o nome.

Hoje percorremos uma só artéria das três onde nasceu a cidade, aquela que teve talvez estalagens, estalajadeiros, forasteiros que vinham de longe e que conseguiam passar pela porta de pedra, homens com saudades de mulheres, à procura de mulheres. Mares percorridos em busca do fim do mundo e o fim do mundo era aqui – é aqui.

Mas dos forasteiros nem vê-los, das estalagens também não. Sobraram janelas que arriscam cair, fechadas, portas em primeiros andares que dão para lugar nenhum, porque desapareceram as varandas em que se juntavam os homens, os estalajadeiros, o comércio em baixo e os barcos ao fundo da rua.

Muitos anos depois, séculos mais tarde, conspirou-se aqui. Andamos de cabeça erguida à procura dos números do passado, a ver se os encontramos nalgum vestígio, se as marcas sobreviveram aos anos. Uma e outra porta, e é tudo mais ou menos igual, numa desordem não planeada: lojas fechadas, fachadas a perder a cor, fachadas novas com cor mas sem história alguma.

Diga-se que o sol também não ajuda, não ilumina teorias da conspiração, o calor tampouco – toda a gente sabe que só se inventam revoluções pela calada da noite, que os revolucionários não andam nas ruas principais, mas nas vielas, pátios e becos da cidade. Usam chapéus escuros como nos filmes e bigodinhos de antigamente. Não os vemos, eles já cá não estão. Havemos de voltar cá quando não houver luz para ver se encontramos outra história.

Ainda assim, um ou outro rés-do-chão não deu pelo passar dos anos e dá-nos esperança de encontramos o início da cidade e da república. Espreitamos e vemos objectos desconhecidos, uma languidez que se espreguiça como se as horas não entrassem na contabilidade da rua agora de pouco comércio.

Ainda assim, nesta rua há vestígios de vidas, amores e desamores, impressões digitais de gerações perdidas. Chegam do pó que se acumula nas estantes, nos frascos de produtos não identificáveis, nos carimbos made in Macau que se exibem com orgulho. Nas placas que já não se fazem, nos rolos de tecidos vindos de teares antigos, de fábricas que deixaram de existir.

Alguém pintou uma parede de amarelo e a tinta vermelha forte desenhou caracteres e letras para dizer que é aqui que está. Nesta rua já não há estalagens nem barcos ao fundo mas ainda se viaja. Devagarinho.

Isabel Castro

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